Capítulo 31

834 Words
Ayla Solano O silêncio que reinava após a explosão de luz era opressor, quase palpável. A floresta ao nosso redor parecia prender a respiração, como se temesse o que viria a seguir. O ar estava carregado, denso como se a própria natureza hesitasse em se mover. Rick estava parado diante de mim, o corpo tenso como uma mola prestes a se soltar. Seus olhos âmbar brilhavam com um misto de dúvida e possessividade, refletindo o temor do desconhecido e algo mais profundo, mais visceral. Ele me fitava como se eu fosse uma incógnita que ele precisava decifrar, como se eu carregasse respostas que nem eu mesma sabia possuir. Ao meu lado, a menina segurava minha mão com força, seus dedos finos apertando os meus como se quisesse me ancorar à realidade. Mas o que mais me inquietava não era o toque dela era seu sorriso. Pequeno, sutil, quase imperceptível... mas carregado de um significado que eu não conseguia compreender. Havia algo naquela expressão que não combinava com a inocência de sua aparência, algo que despertava um arrepio em minha espinha. Eu ainda sentia o calor da explosão pulsando dentro de mim, um poder avassalador que queimava como fogo líquido em minhas veias. Meu coração batia descompassado, como se tentasse acompanhar o ritmo frenético da energia que agora parecia fazer parte de mim. Era como se algo antigo, primal, tivesse despertado – algo que não pertencia apenas a mim, mas também a Rick, à menina e a tudo ao nosso redor. Rick finalmente quebrou o silêncio, sua voz rouca, mas baixa, como se temesse acordar algo que ainda pudesse estar adormecido. — Você está bem? Eu inspirei profundamente, tentando reunir forças para responder. Meus joelhos fraquejavam, e precisei me concentrar para não desmoronar ali mesmo. — Estou... acho que sim. Mas o que foi isso? Rick desviou o olhar para a menina, que agora fitava a escuridão da floresta com uma intensidade desconcertante, como se esperasse algo emergir das sombras. Seu corpo estava imóvel, mas sua energia vibrava como se já soubesse o que estava por vir. Rick estreitou os olhos, sua postura se tornando ainda mais defensiva. — Talvez ela saiba. A menina virou lentamente o rosto para ele, e, pela primeira vez, seus olhos refletiram o mesmo brilho âmbar de Rick. Um calafrio percorreu minha pele. Era como se, por um breve instante, eles compartilhassem um segredo silencioso, um elo que transcendia palavras. — Foi o que sempre esteve dentro dela — disse a menina, sua voz calma, mas carregada de uma certeza que fez o ar ao nosso redor pesar ainda mais. — E agora está acordado. Meu coração parou por um segundo. O que ela queria dizer com aquilo? Antes que eu pudesse reagir, um som baixo e gutural rompeu o silêncio da floresta. Um grunhido. O tipo de som que faz os instintos gritarem em alerta. Algo se movia entre as sombras, algo grande, algo perigoso. Rick deu um passo à frente, o corpo assumindo uma posição de ataque. Seus olhos âmbar brilharam intensamente, faiscando como brasas incandescentes. Ele rosnou, um som primal que reverberou no ar, carregado de domínio e ameaça. A menina sorriu novamente, mas dessa vez, seu sorriso era frio. Calculado. — Eles também sabem. E estão vindo. O rugido que ecoou em seguida fez meu sangue gelar. A floresta pareceu ganhar vida, as sombras se alongando, se retorcendo como se estivessem sendo moldadas por uma força invisível. O cheiro do perigo pairava no ar, denso e sufocante. Meu coração batia descompassado, a adrenalina me deixando em alerta máximo. Rick avançou um passo, protegendo-me instintivamente atrás de seu corpo. O calor dele irradiava contra mim, um escudo que me envolvia e ao mesmo tempo fazia meu corpo reagir de uma forma que não deveria naquele momento. A intensidade nos olhos dele encontrou os meus, e, por um breve instante, tudo ao nosso redor desapareceu. — Prepare-se — ele murmurou, mas a frase parecia mais para ele do que para mim. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, a menina soltou minha mão. Instintivamente, tentei segurá-la de volta, mas ela se moveu com uma rapidez assustadora, posicionando-se à frente de Rick como se tivesse sido feita para aquilo. — Não precisa se preocupar com eles. Eu cuidarei disso — disse ela, a tranquilidade de sua voz soando deslocada para uma criança. — O que você está dizendo? — minha voz saiu em um sussurro trêmulo. O medo e a incredulidade se misturavam dentro de mim. — Você não pode enfrentar isso sozinha! Ela virou a cabeça para mim, e o brilho em seus olhos se intensificou. Algo dentro dela se manifestava, algo que eu não entendia, mas que fazia minha pele se arrepiar. — Não estou sozinha. Nem você. Foi então que percebi. O perigo ao nosso redor não era apenas externo. Algo dentro de mim estava mudando, algo que parecia conectado a Rick e àquela menina de uma maneira que eu ainda não conseguia compreender.
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