Rick Dowson
Os corpos jaziam no chão, a luz pálida da lua tingindo de sombras os rostos inertes. O cheiro metálico de sangue pairava no ar, misturando-se ao perfume selvagem da floresta. Meu peito subia e descia, a respiração irregular, enquanto a raiva pulsava quente dentro de mim, como brasas prestes a incendiar tudo ao redor.
— Eles não vão parar. — Minha voz saiu rouca, carregada de fúria contida.
Ayla virou-se para mim. Seus olhos, sempre cheios de mistério, brilhavam com uma determinação feroz, como se nenhuma força no mundo pudesse quebrá-la.
— Então, não podemos parar também. — Ela sussurrou, o tom decidido, e eu soube que, a partir daquele momento, recuar não era mais uma opção.
O silêncio pesado foi quebrado pela voz infantil da menina que nos acompanhava. Até então calada, ela deu um passo à frente, o olhar fixo nos corpos caídos. Sua expressão, serena demais para alguém tão jovem, carregava um peso que me inquietou.
— Eles não são os únicos. — A frase saiu em um tom baixo, mas firme, carregada de um conhecimento que não deveria pertencer a uma criança.
Ayla e eu trocamos um olhar antes de nos virarmos para ela, surpresos.
— O que você quer dizer? — perguntei, estreitando os olhos.
A menina ergueu a mão e apontou para a floresta. A escuridão se movia de forma sutil, como se estivesse viva. Minhas garras se alongaram instintivamente, e meu corpo inteiro ficou em alerta. A energia ao nosso redor oscilava, densa, carregada de perigo iminente.
Foi então que o som de passos ecoou entre as árvores, abafados pela umidade do solo, mas rápidos e precisos. Ayla se posicionou ao meu lado, e a luz em seu símbolo brilhou com mais intensidade. O ar ao nosso redor tornou-se pesado, quase palpável, como se algo antigo e perigoso estivesse despertando.
— Rick, prepare-se. — Sua voz foi baixa, mas carregada de tensão.
As sombras entre as árvores se tornaram mais definidas, até que quatro figuras emergiram. Homens armados até os dentes, seus olhares frios e calculistas. A energia que emanava deles pulsava com magia, e um arrepio percorreu minha espinha.
O líder do grupo, um homem alto com uma cicatriz profunda atravessando o rosto, nos observou com um sorriso torto.
— Vocês fizeram um estrago nos nossos homens. — Sua voz era cortante como uma lâmina afiada. — Mas isso termina aqui.
Ayla ergueu o queixo, sua postura inabalável.
— Não queremos lutar. — Sua voz era firme, mas atenta a cada movimento deles.
O homem riu, um som áspero e carregado de desprezo.
— Isso é bom, porque vocês não terão escolha. — Ele ergueu a mão, revelando um pequeno artefato n***o que parecia absorver toda a luz ao seu redor.
Foi instintivo. Meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente processasse. Com um rugido, lancei-me para frente, mas algo invisível me atingiu como um golpe brutal. A força me jogou para trás, e o impacto arrancou um grunhido de dor da minha garganta. Ayla gritou meu nome, mas antes que pudesse me ajudar, um dos homens avançou sobre ela, forçando-a a erguer sua lâmina em defesa.
A batalha explodiu ao nosso redor.
Recusando-me a ficar no chão, forcei-me a levantar, ignorando a dor e a raiva que queimavam dentro de mim. Ataquei a barreira com toda a força, e ela cedeu levemente. O suficiente para que eu atravessasse, minhas garras rasgando o ar até encontrarem o primeiro inimigo ao meu alcance. O choque do impacto ecoou pela clareira, aço e magia colidindo em uma luta feroz.
Ayla se movia com precisão mortal, desviando, atacando, dançando entre os golpes como uma tempestade selvagem e letal. Mas minha atenção foi roubada pela menina. Ela não se movia, não recuava. Seus olhos estavam cravados na pedra n***a que o líder segurava.
E então, algo impossível aconteceu.
A pedra começou a rachar.
O som era agudo, cortando o ar como um grito silencioso. O líder arregalou os olhos, sua confiança desmoronando em segundos.
— O que você está fazendo?! — Ele rugiu, o pânico escorrendo por sua voz.
A menina apenas ergueu o rosto, e seus olhos, iluminados por uma luz que não deveria existir, fixaram-se nele.
— Salvando vocês de si mesmos. — Sua voz era assustadoramente calma.
A pedra explodiu.
A explosão de luz foi avassaladora, varrendo tudo ao redor. O choque me fez cambalear, e quando a poeira baixou, os inimigos estavam no chão, inconscientes. No centro de tudo, a menina continuava de pé, inabalável, como se nada tivesse acontecido.
Ayla ofegava ao meu lado, os olhos arregalados. Troquei um olhar com ela, sentindo uma dúvida crescer dentro de mim. Quem era essa menina, afinal? Que poder era aquele, tão intenso e desconhecido?
Mas, acima de tudo, uma certeza nos envolvia como um presságio sombrio: a estrada à frente seria ainda mais perigosa.
E eu faria de tudo para proteger Ayla. Se precisasse queimar o mundo para isso, então que fosse.