Falei para Titi que iria, mas percebi que hoje é sexta-feira e o trânsito até Santos (São Paulo) é muito intenso então não vai dar, resolvo mandar mensagem:
— Titi não dá pra ir, vou chegar muito tarde.
— Ah não! Prometeu agora cumpra! Vou cuspir no chão!
— É muito cansativo ir agora, o trânsito tá de lascar, devo chegar só à noite.
— Vem que à noite eu tenho uma balada pra gente ir.
— Vou passar no restaurante da Nat, e depois vou.
— A vaca da Nat vai roubar você de mim!”
Nat é nossa amiga, nos conhecemos na faculdade, mais especificamente no estacionamento da faculdade, lembro daquele dia como hoje...
Flashback on:
“Eu não quero nada com você, entendeu?! Não quero mais você no meu pé! Além de feia é burra?! Vê se te enxerga garota, eu sou o capitão do time, tenho a garota que eu quero, você acha o quê? Que eu mudei?! Que eu iria ficar todo apaixonadinho por uma garota como você?! Eu só queria uma coisa de você e você me deu, some da minha frente, garota i****a”.
Após os gritos do cara que eu não conhecia, mas tinha certeza que era um i****a, escutei os soluços e o choro desesperado de alguém, e passos se aproximando quando eu abro a porta e acerto alguém derrubando-o no chão.
— Ô i****a não olha por onde anda não! Oh seu ridículo! Se amassou meu carro vai pagar! Você sabe quanto custa o concerto dessa belezura aqui?
Como eu gosto muito de falar eu nem respiro e nem deixo ele responder, vou logo falando tudo que quero.
— Nossa, como você é feio! Te fizeram no laboratório ou está emprestado pra faculdade fazer experimentos hein?
Credo, nunca fui de humilhar os outros, mas esse cara eu fiz com gosto e nem sei porque, talvez seja por causa do meu Matusa tadinho.
— Eu hein se eu fosse você pediria pra voltar pra barriga da sua mãe.
Ao ouvir uma gargalhada, me viro e vejo um rosto vermelho não mais pelo choro mas pelas risadas. Ainda ouvi um: — Você é louca mulher?
Nem dei moral, joguei meus cabelos quase vermelhos pra trás. (Ps. Tenho que trocar meu shampoo novamente).
Olhei para garota, dei de cara com olhões enormes atrás de um óculos mas isso era o de menos, a garota era magra... magra meu bem?! Magra é apelido! Ela era magérrima, magrissíssima, um pouco alta, não, não um pouco alta, bem alta deve ter mais que 1,70 m, mas o que mais se destaca são seus olhões negros e enormes, um cabelo preto amarrado firmemente no alto da cabeça e as roupas que parecem do século passado. Ela realmente se vestia m*l, mas se trocasse de roupa, soltasse os cabelos e usasse lentes...
O Titi vai adorar transformá-la pensei na mesma hora.
– Vamos garota, vai ficar aí chorando por esse i****a?
Ela limpa as lágrimas e me dá um sorriso feliz. — Claro que não! Esse merdinha não merece, vamos estudar que isso sim vai me dar um bom futuro.
— É isso aí! Bate aqui! — E assim nos tornamos amigas e irmãs, nunca mais a vi chorar por causa de homem.
Flashback of.
Ela fazia gastronomia havia mudado de curso recentemente, descobriu que medicina não era sua praia, Titi fazia o último ano de moda e eu estava no meu sexto ano de secretariado, foram quatro anos de insistência e no último ano aceitou as mudanças que Tião queria fazer nela, não acreditamos que era ela quando a vimos em um salto alto, maquiagem bem feita, destacando seus grandes olhos que parecem quase sinistros de tão negros, vestido longo e sexy com direito a a******a de um lado das coxas magras e definidas, mas o que realmente nos chamou a atenção foram seus longos cabelos negros como a noite que chegavam ao topo do bumbum.
Minha amiga estava mais bonita que top model, que ela era bonita eu já sabia, o que eu não sabia era que ela iria fazer tanto sucesso no baile de formatura da faculdade. Ela cresceu bastante com a nossa amizade, deixou de ser antissocial para ser uma pessoa comunicativa.
Chego ao seu restaurante e Luíza vem me receber com seu largo sorriso.
— Você vai acabar engolindo alguém com esse sorriso. — Faço a brincadeira de sempre.
— Como está o movimento hoje, cadê minha amiga?
— O movimento está muito bom, ótimo, já sua amiga...— Ela aparece atrás da garota.
— O quê que eu tenho, Luíza? — A garota faz uma careta e sai dando um sorrisinho pra chefe.
— Nada não chefe!
— Amiga, que stress é esse?! Tá precisando tirar umas férias ou então as teias de morcegos, porque de aranha já foi há muito tempo! — Rio muito dela, mas eu sei que minha situação está quase igual a dela, faz bastante tempo que não saio com alguém, depois de vários encontros decepcionantes estou mais seletiva.
— Para... você sabe o que eu penso sobre relacionamentos. E eu não estou pra mudar minha opinião...
— Nat... temos um problema...— Minha amiga girou a cabeça igual ao boneco do exorcista, pois detesta ser interrompida em qualquer conversa, seja ela importante ou não.
— O que foi Luíza, o que é tão grave que você mesma não pode resolver? — Luíza é sua gerente e também amiga e por incrível que pareça elas se conheceram em um bar, longa história, talvez mais tarde eu te conte.
— Tem um cliente todo pomposo e endinheirado que está fazendo um escândalo.— Reviramos os olhos eu e Nat.
— Só podia ser, mas o que ele quer?
— Ele quer o prato da semana passada, disse que voltou somente por causa dele.— Ela sai da área privada, que é onde estamos, pra sala principal, (A área privada não quer dizer que é a área mais chique ou vip, onde são colocados os clientes de alto poder aquisitivo, esta área em que estou é o lugar onde ela leva seus amigos para conversar, onde ela descansa e relaxa um pouco antes de ir para casa).
— Já ofereceu o prato principal do dia?...— Não escuto a resposta, pois ela já saiu para descascar mais um abacaxi... rio internamente da piada, seria vergonhoso se alguém me pegar rindo sozinha então eu paro de rir e observo o espaço.
Mudo meus pensamentos para o dia que a ajudamos a montar o lugar dos sonhos da Nat, adivinha quem foi o maior e mais importante incentivador dela? Se vocês responderam Léia... erraram e feio, não que eu não tenha colaborado, eu incentivei dando a ideia que faz o restaurante ser um sucesso até hoje. Mas quem realmente colaborou com a******a entre outras coisas foi o Titi, por isso que eu o amo tanto, não conheço ninguém com um coração melhor que o dele.
Estávamos em uma pizzaria e Nat chegou desanimada pois, fazia quase dois meses que ela havia terminado a faculdade e ela queria ter seu próprio restaurante, procurou por sócios, mas tudo que encontrou foram vários nãos, então do nada Tião gritou: — Já sei! Sei como te ajudar! Eu tenho um amigo que é olheiro e ele...
— Não Titi, não adianta eu não sou modelo...—
— Me escuta primeiro, fica calada depois, quando for sua vez você fala. - ficamos caladas só escutando.
— Esse meu amigo procura por mulheres que tenham cabelos longos e lindos assim como o seu... apesar desse ninho aí estar precisando de uma hidratação né meu bem... enfim, ele só vai precisar de umas fotos do seu rosto, é uma campanha de tintas e shampoos...— Ele passou a noite falando e falando dessa campanha, minha amiga não aceitou de cara, mas meu amigo deu um jeito de apresentar o tal olheiro à Nat e com um gordíssimo talão de cheques e um contrato de pequeno prazo a convenceu, no começo todos queriam saber quem era ela e se era modelo, tentaram encontrá-la, mas seu disfarce funcionou tão bem que não descobriram até hoje quem era aquela modelo.
O melhor de tudo foram as ideias que demos ao restaurante, a que venceu foi a minha, comida típica de cada país para cada semana, com direito a decoração e tudo, desde entrada, prato principal à sobremesa, minha amiga rebola muito para conseguir informações, receitas e as melhores decorações de vários países diferentes, ela ainda estuda muito afinal uma semana é pouquíssimo tempo pra aprender tudo para a próxima, ainda bem que ela tem auxiliares e cozinheiros super capazes, minha amiga é uma chef que está ganhando fama em todo Brasil e fora também, pois já vi vídeos de dança do ventre em seu restaurante onde clientes se divertem assistindo uma mulher equilibrar uma enorme faca no quadril.
Também já assisti aqui dança chinesa, vamos dizer que não é um simples restaurante e que ela já conseguiu quitar todas as suas dívidas e ainda tem dinheiro sobrando na conta bancária, tenho muito orgulho dessa minha amiga.
Ela mudou bastante, eu sei, não tem mais aquele olhar sonhador de menina apaixonada, seu perfil agora é de mulher realizada, mas sei que ainda guarda bastante mágoa e um coração remendado que se protege de tudo e quase de todos, quase, pois antes de remendar eu e Titi achamos uma brechinha e entramos assim mesmo sem pedir.
— Aquele filho de uma égua parideira me paga! Eu o mato da próxima vez! Disgraziato.— Minha amiga entra gritando na língua da decoração da vez, ou seja, Italiano.
"Não há nada que amadurece o ser humano mais que o sofrimento."