BARÃO NARRANDO
Eu tava sentado na cadeira da sala do QG mexendo nos papéis da carga que ia subir mais tarde quando a porta abriu de uma vez.
Levantei os olhos na mesma hora, já irritado.
— Tu desaprendeu a bater na porta, Tilápia?
Ele entrou rindo de canto, sem dar a mínima.
— Foi m*l… mas vim te avisar que tuas mina tão lá na praça saindo no tapa por tua causa.
— Joguei o baseado no cinzeiro e me larguei na cadeira.
— Qual delas agora?
— A Bia e a Carla.
Soltei uma risada sem humor.
— p**a que pariu…
Levantei pegando a arma em cima da mesa.
— Vou chegar lá.
— Tilápia ficou me olhando enquanto eu saía do QG. Desci as escadas devagar, encaixei a peça na cintura e subi na moto.
O motor roncou alto no meio do morro.
Fui descendo as vielas enquanto o povo já olhava, sabendo que alguma merda tava acontecendo. E quando virei perto da praça, encontrei a confusão armada.
As duas tavam no chão puxando cabelo uma da outra, enquanto o povo em volta assistia como se fosse espetáculo.
Parei a moto bruscamente.
Desci sem pressa.
Peguei a arma da cintura e dei dois tiros pro alto.
PÁ! PÁ!
Na mesma hora, a praça inteira silenciou.
— Que p***a tá pegando aqui?!
As duas soltaram o cabelo uma da outra, assustadas.
Bianca apontou pra Carla na hora.
— Essa v***a tá inventando que você comeu ela ontem na tua casa!
Carla limpou o canto da boca machucado e respondeu na mesma altura.
— E eu não tô mentindo não!
Cruzei os braços encarando as duas.
— Comi mesmo.
O silêncio caiu pesado.
Bianca arregalou os olhos na mesma hora.
— Tu… tu tá falando sério?
Olhei pra ela sem paciência nenhuma.
— E daí?
— Não acredito que você fez isso comigo.
Dei uma risada fria.
— E desde quando tu tem que gostar ou deixar de gostar de alguma coisa que eu faço?
Ela ficou calada na hora. O choro já começando nos olhos.
Passei a língua pelos dentes e balancei a cabeça devagar.
— Agora, só pela ousadia das duas de fazer esse circo no meio do meu morro… cada uma vai pegar vinte madeirada.
As duas me olharam assustadas.
— Não, Barão… por favor…
— Eu prometo que não faço mais isso…
Apontei pros soldados atrás de mim.
— Pode levar.
Elas começaram a implorar enquanto os caras puxavam as duas dali. Mas eu nem dei atenção. Confusão por minha causa já tava virando rotina naquele morro.
Tilápia apareceu do meu lado segurando o riso.
— Tu deve ser gostoso pra c*****o mesmo, hein. Toda hora tem mulher querendo sair na mão por tua causa.
Subi na moto de novo e coloquei o capacete.
— O n***o aqui não brinca em serviço.
Tilápia começou a rir alto.
— Convencido pra p***a.
— Bora pegar o rango que eu tô sem paciência hoje.
Descemos até o restaurante da dona Célia e parei a moto na frente.
Assim que entrei, o lugar inteiro ficou quieto. Como sempre.
Cumprimentei alguns caras com a cabeça e sentei na mesa perto da janela junto dos meus homens.
Dona Célia já apareceu nervosa, secando as mãos no pano.
— Vai querer o de sempre, Barão?
— Traz logo antes que eu morra de fome.
Ela saiu apressada pra cozinha.
Tilápia puxou a cadeira do meu lado, ainda rindo sozinho.
— Tu gosta de arrumar problema com mulher, né?
Peguei o copo de refrigerante da mesa.
— Mulher já é problema naturalmente.
Os caras começaram a rir.
A comida chegou poucos minutos depois. Prato cheio, refrigerante e a carne ainda saindo fumaça. Dona Célia colocou tudo na mesa rápido e saiu quase correndo, como sempre fazia quando eu tava no restaurante.
Comecei a comer em silêncio enquanto os caras conversavam besteira entre eles. Eu tava com fome pra c*****o desde cedo sem comer por causa dos problemas da carga.
Tilápia puxou uma cadeira mais pra perto e encheu a boca de comida antes de falar.
— E aí… como tá a parada lá do teu filho?
Levantei os olhos pra ele enquanto mastigava.
— Já escolhi.
— Qual delas?
— Nem lembro o nome direito. Só sei que a clínica falou que ela era perfeita pro procedimento.
Tilápia soltou um "c*****o" baixo e tomou refrigerante.
— Então já vai acontecer?
Assenti.
— Vão fazer a parada lá. Se der tudo certo, eles me avisam.
Eu falava daquilo naturalmente, como se estivesse resolvendo qualquer outro assunto do morro. Porque pra mim era exatamente isso: um herdeiro. Continuidade. Alguém pra carregar meu sangue quando eu não estivesse mais aqui. Sentimento nunca entrou nessa conta.
Tilápia limpou a boca e riu de canto.
— E se der certo, tu vai mesmo trazer a mulher pra morar contigo?
— Claro. — Respondi sem pensar duas vezes. — Quero ela debaixo dos meus olhos.
Ele começou a rir.
— E ela tá sabendo dessa parte?
Peguei o garfo de novo.
— Ainda não.
— Tu é uma comédia mesmo, Barão.
Ignorei. Continuei comendo tranquilo enquanto minha mente já tava longe dali.
Eu queria aquele filho fazia tempo. Um moleque meu correndo pela casa. Alguém pra herdar tudo que eu construí. Porque homem sem herdeiro morria duas vezes: primeiro no corpo, depois no nome.
Quando terminamos, joguei algumas notas em cima da mesa e levantei. Os caras vieram atrás de mim enquanto eu saía do restaurante.
Foi aí que Tilápia olhou pro outro lado da rua e comentou:
— Aquela garota tá cada dia mais magra… não sei como ainda aguenta ficar em pé.
Olhei rapido sem muito interesse. Era só uma menina sentada no meio-fio segurando um saco de náilon velho no colo. Magra. Cabeça baixa. Roupa furada. Devia ser mais uma das centenas de pessoas tentando sobreviver naquele morro.
Nem dei importância. Desviei os olhos na mesma hora, subi na moto e liguei o motor.
Minha cabeça tava ocupada demais pensando em outra coisa. No meu herdeiro. Porque tudo que eu queria naquele momento… era que aquela p***a daquele procedimento desse certo logo.
Mas eu ainda não fazia ideia de que o destino já tava preparando uma rasteira filha da p**a pra minha vida.