A Máscara Cai

1032 Words
O amanhecer na mansão Brin chegou pesado, envolto por um silêncio que parecia anunciar tempestade. Veluma não pregara os olhos a noite inteira. O bilhete de trem para Brighton permanecia escondido dentro da gaveta de seu criado-mudo, junto com o medo que agora se misturava à determinação. Ela precisava agir com cuidado. Sabia demais, e Cenet… era o tipo de mulher que não perdoava quem ousasse cruzar seu caminho. Mas o destino, mais uma vez, seria c***l com o tempo. Porque Cenet já sabia. Naquela manhã, enquanto os criados se movimentavam pela casa, um murmúrio correu entre os corredores: alguém havia revirado o quarto de Veluma. Quando ela subiu para verificar, o bilhete de trem havia sumido.O sangue dela gelou.Antes que pudesse raciocinar, ouviu a voz suave — porém cortante — de Cenet atrás de si: — Procurando algo, minha cara?Veluma se virou lentamente. A outra mulher estava encostada na moldura da porta, o rosto iluminado pelo sol da manhã, mas os olhos… frios como lâminas.Entre os dedos, girava o bilhete de trem.— Achei curioso este papel esquecido — disse Cenet, sorrindo. — Parece que alguém andou muito curiosa à noite.Veluma respirou fundo, tentando disfarçar o medo. — Estava no jardim. O vento pode ter trazido até aqui. — Oh, claro — respondeu Cenet, fingindo ingenuidade. — O vento. Esse vento tão generoso que traz até segredos. Ela entrou no quarto, caminhando lentamente, sem tirar os olhos de Veluma.— Sabe, querida, sempre admirei mulheres fortes. Mas há uma diferença entre força e imprudência. Veluma manteve o olhar firme. — E há uma diferença entre arrependimento e falsidade. Por um instante, as duas ficaram frente a frente — tão próximas que Veluma podia sentir o perfume doce e enjoativo de Cenet.A máscara da “mulher arrependida” se quebrou num sorriso frio.— Então, você sabe — murmurou Cenet. — Que pena. Eu realmente gostava da ideia de ver você sofrer sem entender o motivo. — Por que está fazendo isso? — perguntou Veluma, tentando manter a voz firme. — O que realmente quer, Cenet?— O que sempre foi meu — respondeu ela, sem hesitar. _O que sempre foi seu em fala diz! — Fernando. A fortuna. E o lugar que você roubou.Veluma deu um passo à frente.— Eu não roubei nada. Ele me ama.Cenet riu, amarga. — Amor? — sussurrou. — O amor é uma ilusão que o tempo destrói. O poder, não. Ela se aproximou do criado-mudo e abriu a gaveta, revelando o vazio onde o bilhete estivera.— Acha mesmo que pode me enfrentar? Eu conheço cada canto desta casa. Cada servo. Cada fraqueza do homem que você chama de marido. Veluma sentiu o coração acelerar. — Não vou permitir que o machuque. Cenet inclinou a cabeça, como se estudasse a coragem dela. — Oh, minha querida… já o machuquei, e ele nem percebeu.Veluma franziu o cenho.— O que quer dizer com isso? Cenet sorriu, vitoriosa. — Vamos dizer que, em breve, Fernando terá um motivo para duvidar de você. — Está mentindo. — Estou criando o que você nunca terá: o controle. — Cenet aproximou-se, sussurrando ao ouvido dela. — E quando ele olhar pra você com desconfiança… quero ver esse seu olhar corajoso desaparecer.Veluma recuou um passo, o medo e a raiva se misturando. — Você pode tentar destruir tudo, Cenet, mas não vai vencer.A rival arqueou as sobrancelhas, satisfeita. — Veremos.Ela deixou o bilhete cair sobre a cama e saiu, o som dos saltos ecoando no corredor. Veluma respirou fundo, as lágrimas ardendo nos olhos. Sabia que não podia mais esperar. Cenet estava prestes a atacar — e agora, Fernando precisava saber a verdade. Mas quando Veluma desceu correndo as escadas e procurou o marido, descobriu que ele havia saído Com Cenet. O mordomo explicou, hesitante: — A senhorita Montrose pediu que o acompanhasse até a antiga propriedade em Brighton. Disse que era urgente. Veluma sentiu as pernas fraquejarem. A previsão de Cenet se cumpria. Ela olhou para a janela, onde a carruagem desaparecia entre as árvores, e murmurou, desesperada: — Meu Deus o que ela vai fazer com ele? Sem pensar duas vezes, mandou selar um cavalo.— Diga a Thomas que se prepare — ordenou ao mordomo. — Irei atrás deles, nem que tenha que atravessar o inferno.E com o coração em chamas, Veluma partiu sob o céu cinzento, cavalgando pela estrada que levava a Brin— onde o destino, mais uma vez, colocaria amor e perigo frente a frente.Enquanto isso, dentro da carruagem, Cenet observava Fernando sentado ao lado, distraído com os papéis.Um leve sorriso se formou em seus lábios.Em seu anel — aquele antigo símbolo do passado — um pequeno frasco de veneno líquido estava escondido.Ela tocou o metal com o polegar e sussurrou para si mesma: — Tudo que foi meu voltará a ser meu novamente! Pronuncia Cenet _Você falou alguma coisa Cenet! Pronuncia Fernando _Eu falei que a vista hoje é linda e muito bela._Nisso tenho que concordar com você Horas depois, a carruagem de Cenet e Fernando chegou à velha propriedade em Brighton — uma casa abandonada, coberta por heras e pelo pó do tempo.Pensei que fôssemos a um arquivo — disse Fernando, desconfiado.Os arquivos antigos dos Montrose estão guardados aqui. Ninguém ousa tocar neles há Ele desceu da carruagem, observando o local com cautela. O vento frio cortava o ar, e o som das ondas distantes se misturava ao farfalhar das árvores. Cenet caminhava à frente, o vestido vermelho contrastando com o ambiente sombrio. — Está certo disso? — perguntou ele, hesitante. — Este lugar parece abandonado. — Às vezes, é nos lugares esquecidos que se escondem as respostas — respondeu ela, abrindo a porta enferrujada. O ar dentro da casa era denso, pesado, cheirando a mofo e segredos antigos. Fernando acendeu um lampião e olhou em volta. — Onde estão os registros? Cenet se aproximou lentamente. — Aqui — sussurrou. De repente, ela fechou a porta com força. O barulho ecoou pelo casarão vazio. Fernando virou-se, surpreso. — Cenet, o que está fazendo? Ela o fitou com olhos frios, o rosto agora sem máscaras. — O que deveria ter feito há muito tempo.
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