Por um instante, o tempo pareceu parar. O som do vento desapareceu, e o coração de Veluma pulsava alto demais em seus ouvidos. Fernando permanecia diante dela, imóvel, a expressão indecifrável.
— Saia daqui, Veluma — disse ele, por fim, com a voz rouca, quase suplicante.
Mas ela não se moveu. Algo a prendia naquele lugar. O retrato coberto por um lençol antigo parecia chamá-la de maneira inexplicável.
— Quem é ela? — perguntou baixinho. — A mulher deste retrato.
Fernando fechou os olhos por um momento, como se lutasse contra lembranças que doíam demais.
— Não importa. Já não pertence a este mundo.
Veluma deu um passo à frente, ignorando o aviso. Com mãos trêmulas, puxou o tecido que cobria o quadro. A poeira subiu, e a imagem se revelou sob a luz fraca da vela.
Era uma mulher de beleza serena, com cabelos castanho-claros presos de maneira delicada e olhos de um azul profundo. O sorriso, porém, era triste — tão triste que parecia carregar o peso de uma despedida.
Na base da moldura, lia-se o nome: Eliza Brin.
Veluma olhou para Fernando, o coração apertado.
— Sua esposa.
Ele desviou o olhar, caminhando até a janela coberta por cortinas antigas.
— Morta há cinco anos. E, desde então, esta casa nunca mais dormiu em paz.
— O que aconteceu com ela? — perguntou Veluma, a voz hesitante.
Fernando demorou a responder. Quando falou, seu tom era baixo e carregado de culpa.
— Eliza era frágil. Sofria de melancolia, dizem. Eu… não soube vê-la desmoronar. Certa noite, encontrei-a no lago, imóvel, como se a água a tivesse chamado para o descanso que eu não lhe dei.
Veluma levou a mão à boca, chocada.
— Meu Deus… sinto muito.
Ele a olhou de relance, e algo mudou em seu semblante.
— Não precisa ter pena de mim. Fui o causador de tudo. Meu orgulho, minha ausência, minha frieza... foram eles que a empurraram para a morte.
A chama da vela vacilou, lançando sombras dançantes sobre o rosto dele. Veluma sentiu o coração doer. Aquele homem, que tanto se esforçava para parecer impenetrável, carregava uma dor que o consumia em silêncio.
Ela se aproximou um passo, hesitando antes de falar:
— O senhor vive trancado entre fantasmas, Fernando. Mas nenhum deles pode perdoá-lo — apenas o senhor mesmo.
Ele a fitou, surpreso ao ouvi-la chamá-lo pelo nome. O olhar dela era firme, sincero, e por um instante ele viu ali o que não via há anos: compaixão sem julgamento.
— Vá embora — disse ele, mas o tom não era de raiva, e sim de medo. — Antes que esta casa faça com você o que fez comigo.
— Talvez eu tenha vindo justamente para impedir isso — respondeu ela, num sussurro.
O silêncio entre os dois foi cortado por um trovão distante. Fernando desviou o olhar, como se tentasse se proteger daquilo que sentia nascer dentro dele.
Mas Veluma não se moveu.
— Se a senhora Brin morreu por não ter sido ouvida, então deixe-me escutar o que ainda resta.
As palavras dela ficaram suspensas no ar, e por um instante, o velho relógio da mansão parou de bater.
Fernando passou a mão pelos cabelos, tenso, e deu um passo para trás.
— Você não entende, Veluma. Há mais do que memórias nesta casa. Há algo vivo… algo que não me perdoa por tê-la deixado morrer.
Antes que ela pudesse perguntar mais, um vento forte atravessou o corredor, apagando a vela em sua mão. O quarto mergulhou na escuridão.
E então, de algum ponto dentro da ala oeste, uma voz feminina ecoou, fraca, distante, mas clara o suficiente para gelar o sangue de ambos:
— Fernando… por que a trouxe aqui?
Veluma prendeu a respiração.
Fernando ficou pálido, os olhos fixos no vazio.
— É tarde demais… — murmurou ele. — Ela acordou.Veluma estremeceu com o som daquela voz distante, mas antes que pudesse reagir, sentiu a mão de Fernando envolver a sua com firmeza. A pele dele estava fria, o toque forte, protetor e desesperado ao mesmo tempo.
— Fique perto de mim — sussurrou ele, o olhar fixo na escuridão.
O vento cessou de repente, e a casa pareceu prender o fôlego. Por um instante, só havia o som das respirações entrecortadas dos dois, misturadas ao farfalhar das cortinas.
— Fernando… — chamou ela baixinho, quase sem perceber que usava o nome dele outra vez. — Aquilo era…
— Não diga nada — interrompeu-o, a voz rouca. — Ela ainda está aqui. Eu sinto.
O brilho da lamparina do corredor penetrou pela fresta da porta, revelando o rosto dele — marcado, vulnerável, muito diferente do homem frio e distante que ela conhecera dias antes.
Fernando deu um passo à frente e, sem saber explicar por quê, Veluma o seguiu. A cada movimento, ela sentia o peso invisível do passado pairando entre eles.
— Por que continua aqui, senhor Brin? — perguntou, a voz trêmula, mas cheia de sinceridade. — Por que se condena a este lugar, a essas lembranças?
Ele respirou fundo, desviando o olhar.
— Porque mereço. — Sua voz quebrou levemente. — A morte de Eliza não me persegue à toa. Eu a amava, mas amei do jeito errado. Com egoísmo. Com orgulho. E quando percebi o que havia feito, já era tarde demais.
Veluma sentiu um nó na garganta. O peso das palavras dele, o tom amargo, o arrependimento — tudo a comoveu profundamente.
— Ninguém merece viver preso à culpa, Fernando — disse, baixinho. — Ela o amaria demais para querer isso.
Ele riu com tristeza, balançando a cabeça.
— Você fala como se soubesse o que é perder alguém que se ama mais do que a si mesmo.
Veluma engoliu em seco, e o olhar dela se encheu de dor.
— Eu sei. — respondeu, e por um instante, os olhos verdes dela se perderam em lembranças distantes. — Eu também perdi alguém… e passei meses acreditando que se eu tivesse feito algo diferente, talvez ele ainda estivesse vivo.
O silêncio que se formou foi quase sagrado. Fernando a observava, e algo dentro dele começou a ruir — um muro que mantivera de pé por anos.
Ele se aproximou lentamente, até que as respirações se misturaram. O cheiro leve de flores e cera de vela o envolvia, e pela primeira vez em tanto tempo, Fernando Brin sentiu o coração bater não por culpa, mas por vida.
— Você não deveria estar aqui, Veluma — murmurou, mas o tom não era de ordem; era de súplica.
— E, ainda assim, estou — respondeu ela, encarando-o sem desviar os olhos. — Porque algo me diz que é aqui que eu deveria estar.
Os dedos dele tocaram de leve o rosto dela, como se temesse que desaparecesse ao menor movimento. Foi um toque breve, contido — e, ainda assim, capaz de despertar tudo o que estava adormecido em ambos.
— Eu… — ele começou, mas não conseguiu terminar.
Antes que dissesse qualquer coisa, um estrondo fez as janelas vibrarem. As luzes da lamparina vacilaram. A chama da vela acesa por Efraim no corredor se apagou, e o frio tomou conta do ambiente.
Fernando se afastou de repente, o olhar assustado.
— Ela não quer que eu me aproxime de você…
Veluma, atônita, olhou em volta.
— A senhora Brin?
Ele assentiu lentamente.
— Eliza. Sempre que tento me libertar, algo acontece. A casa muda. As portas rangem. O vento fala.
Ela respirou fundo, a voz embargada:
— Então talvez não seja ela, Fernando. Talvez seja o seu coração tentando impedi-lo de recomeçar.
Ele a olhou com intensidade, e pela primeira vez em anos, lágrimas brilharam nos olhos do magnata.
— Eu não sei se ainda consigo…
Veluma se aproximou, estendendo a mão com delicadeza.
— Deixe-me tentar mostrar que pode.
O toque das mãos deles se uniu, quente contra o frio da mansão. Lá fora, a tempestade começava a cessar.
E enquanto o trovão se afastava, Fernando percebeu que, pela primeira vez desde a morte de Eliza, o som da chuva soava como uma promessa — e não como um castigo.