O Retrato e o Segredo

1356 Words
Por um instante, o tempo pareceu parar. O som do vento desapareceu, e o coração de Veluma pulsava alto demais em seus ouvidos. Fernando permanecia diante dela, imóvel, a expressão indecifrável. — Saia daqui, Veluma — disse ele, por fim, com a voz rouca, quase suplicante. Mas ela não se moveu. Algo a prendia naquele lugar. O retrato coberto por um lençol antigo parecia chamá-la de maneira inexplicável. — Quem é ela? — perguntou baixinho. — A mulher deste retrato. Fernando fechou os olhos por um momento, como se lutasse contra lembranças que doíam demais. — Não importa. Já não pertence a este mundo. Veluma deu um passo à frente, ignorando o aviso. Com mãos trêmulas, puxou o tecido que cobria o quadro. A poeira subiu, e a imagem se revelou sob a luz fraca da vela. Era uma mulher de beleza serena, com cabelos castanho-claros presos de maneira delicada e olhos de um azul profundo. O sorriso, porém, era triste — tão triste que parecia carregar o peso de uma despedida. Na base da moldura, lia-se o nome: Eliza Brin. Veluma olhou para Fernando, o coração apertado. — Sua esposa. Ele desviou o olhar, caminhando até a janela coberta por cortinas antigas. — Morta há cinco anos. E, desde então, esta casa nunca mais dormiu em paz. — O que aconteceu com ela? — perguntou Veluma, a voz hesitante. Fernando demorou a responder. Quando falou, seu tom era baixo e carregado de culpa. — Eliza era frágil. Sofria de melancolia, dizem. Eu… não soube vê-la desmoronar. Certa noite, encontrei-a no lago, imóvel, como se a água a tivesse chamado para o descanso que eu não lhe dei. Veluma levou a mão à boca, chocada. — Meu Deus… sinto muito. Ele a olhou de relance, e algo mudou em seu semblante. — Não precisa ter pena de mim. Fui o causador de tudo. Meu orgulho, minha ausência, minha frieza... foram eles que a empurraram para a morte. A chama da vela vacilou, lançando sombras dançantes sobre o rosto dele. Veluma sentiu o coração doer. Aquele homem, que tanto se esforçava para parecer impenetrável, carregava uma dor que o consumia em silêncio. Ela se aproximou um passo, hesitando antes de falar: — O senhor vive trancado entre fantasmas, Fernando. Mas nenhum deles pode perdoá-lo — apenas o senhor mesmo. Ele a fitou, surpreso ao ouvi-la chamá-lo pelo nome. O olhar dela era firme, sincero, e por um instante ele viu ali o que não via há anos: compaixão sem julgamento. — Vá embora — disse ele, mas o tom não era de raiva, e sim de medo. — Antes que esta casa faça com você o que fez comigo. — Talvez eu tenha vindo justamente para impedir isso — respondeu ela, num sussurro. O silêncio entre os dois foi cortado por um trovão distante. Fernando desviou o olhar, como se tentasse se proteger daquilo que sentia nascer dentro dele. Mas Veluma não se moveu. — Se a senhora Brin morreu por não ter sido ouvida, então deixe-me escutar o que ainda resta. As palavras dela ficaram suspensas no ar, e por um instante, o velho relógio da mansão parou de bater. Fernando passou a mão pelos cabelos, tenso, e deu um passo para trás. — Você não entende, Veluma. Há mais do que memórias nesta casa. Há algo vivo… algo que não me perdoa por tê-la deixado morrer. Antes que ela pudesse perguntar mais, um vento forte atravessou o corredor, apagando a vela em sua mão. O quarto mergulhou na escuridão. E então, de algum ponto dentro da ala oeste, uma voz feminina ecoou, fraca, distante, mas clara o suficiente para gelar o sangue de ambos: — Fernando… por que a trouxe aqui? Veluma prendeu a respiração. Fernando ficou pálido, os olhos fixos no vazio. — É tarde demais… — murmurou ele. — Ela acordou.Veluma estremeceu com o som daquela voz distante, mas antes que pudesse reagir, sentiu a mão de Fernando envolver a sua com firmeza. A pele dele estava fria, o toque forte, protetor e desesperado ao mesmo tempo. — Fique perto de mim — sussurrou ele, o olhar fixo na escuridão. O vento cessou de repente, e a casa pareceu prender o fôlego. Por um instante, só havia o som das respirações entrecortadas dos dois, misturadas ao farfalhar das cortinas. — Fernando… — chamou ela baixinho, quase sem perceber que usava o nome dele outra vez. — Aquilo era… — Não diga nada — interrompeu-o, a voz rouca. — Ela ainda está aqui. Eu sinto. O brilho da lamparina do corredor penetrou pela fresta da porta, revelando o rosto dele — marcado, vulnerável, muito diferente do homem frio e distante que ela conhecera dias antes. Fernando deu um passo à frente e, sem saber explicar por quê, Veluma o seguiu. A cada movimento, ela sentia o peso invisível do passado pairando entre eles. — Por que continua aqui, senhor Brin? — perguntou, a voz trêmula, mas cheia de sinceridade. — Por que se condena a este lugar, a essas lembranças? Ele respirou fundo, desviando o olhar. — Porque mereço. — Sua voz quebrou levemente. — A morte de Eliza não me persegue à toa. Eu a amava, mas amei do jeito errado. Com egoísmo. Com orgulho. E quando percebi o que havia feito, já era tarde demais. Veluma sentiu um nó na garganta. O peso das palavras dele, o tom amargo, o arrependimento — tudo a comoveu profundamente. — Ninguém merece viver preso à culpa, Fernando — disse, baixinho. — Ela o amaria demais para querer isso. Ele riu com tristeza, balançando a cabeça. — Você fala como se soubesse o que é perder alguém que se ama mais do que a si mesmo. Veluma engoliu em seco, e o olhar dela se encheu de dor. — Eu sei. — respondeu, e por um instante, os olhos verdes dela se perderam em lembranças distantes. — Eu também perdi alguém… e passei meses acreditando que se eu tivesse feito algo diferente, talvez ele ainda estivesse vivo. O silêncio que se formou foi quase sagrado. Fernando a observava, e algo dentro dele começou a ruir — um muro que mantivera de pé por anos. Ele se aproximou lentamente, até que as respirações se misturaram. O cheiro leve de flores e cera de vela o envolvia, e pela primeira vez em tanto tempo, Fernando Brin sentiu o coração bater não por culpa, mas por vida. — Você não deveria estar aqui, Veluma — murmurou, mas o tom não era de ordem; era de súplica. — E, ainda assim, estou — respondeu ela, encarando-o sem desviar os olhos. — Porque algo me diz que é aqui que eu deveria estar. Os dedos dele tocaram de leve o rosto dela, como se temesse que desaparecesse ao menor movimento. Foi um toque breve, contido — e, ainda assim, capaz de despertar tudo o que estava adormecido em ambos. — Eu… — ele começou, mas não conseguiu terminar. Antes que dissesse qualquer coisa, um estrondo fez as janelas vibrarem. As luzes da lamparina vacilaram. A chama da vela acesa por Efraim no corredor se apagou, e o frio tomou conta do ambiente. Fernando se afastou de repente, o olhar assustado. — Ela não quer que eu me aproxime de você… Veluma, atônita, olhou em volta. — A senhora Brin? Ele assentiu lentamente. — Eliza. Sempre que tento me libertar, algo acontece. A casa muda. As portas rangem. O vento fala. Ela respirou fundo, a voz embargada: — Então talvez não seja ela, Fernando. Talvez seja o seu coração tentando impedi-lo de recomeçar. Ele a olhou com intensidade, e pela primeira vez em anos, lágrimas brilharam nos olhos do magnata. — Eu não sei se ainda consigo… Veluma se aproximou, estendendo a mão com delicadeza. — Deixe-me tentar mostrar que pode. O toque das mãos deles se uniu, quente contra o frio da mansão. Lá fora, a tempestade começava a cessar. E enquanto o trovão se afastava, Fernando percebeu que, pela primeira vez desde a morte de Eliza, o som da chuva soava como uma promessa — e não como um castigo.
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