Dois Batimentos, Um Destino

1283 Words
O inverno começava a se afastar lentamente de Londres, e os primeiros sinais da primavera traziam um ar de renovação para a mansão Brin. Veluma caminhava pelos jardins com passos calmos, o corpo começando a mudar, a alma envolta em uma serenidade que só o amor podia conceder. Fernando, desde o dia da confissão, tornara-se um homem diferente. Era comum vê-lo acordar cedo, acompanhando-a nas refeições, insistindo para que ela não se cansasse e providenciando médicos e criadas de confiança. O magnata recluso agora se tornara o homem mais presente que Veluma já conhecera. Mas naquela manhã, um novo acontecimento mudaria tudo. Veluma fora ao consultório do médico da família, a mando de Fernando, para uma revisão de rotina. Ela estava nervosa, embora tentasse disfarçar. Fernando insistiu em acompanhá-la, e quando o doutor entrou com o semblante tranquilo e o estetoscópio no pescoço, o coração dela acelerou. — Como está se sentindo, senhora Delarriva? — perguntou o médico, com um sorriso gentil. — Um pouco cansada, mas bem — respondeu ela, segurando firme a mão de Fernando. O médico assentiu e iniciou o exame. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som suave do equipamento sendo ajustado. Então, um ruído preencheu o ambiente. Um som delicado, rítmico, como um tambor distante. Fernando franziu o cenho, curioso. — Isso é…? — perguntou ele. O médico sorriu, virando o aparelho para eles. — O coração do bebê. Veluma levou a mão à boca, emocionada. Mas, segundos depois, outro som surgiu — idêntico, batendo em outro compasso. Fernando arregalou os olhos. — Espere… há dois sons? O médico riu, confirmando: — Sim, senhor Brin. — E olhou para Veluma com ternura. — Parabéns. São gêmeos idênticos. O mundo pareceu girar por um instante. Veluma olhou para Fernando, sem fôlego, o coração disparado. — Gêmeos…? — murmurou, incrédula. Fernando ficou em silêncio por alguns segundos, apenas observando o pequeno monitor, como se tentasse compreender a dimensão daquela notícia. Então, um sorriso lento, quase infantil, começou a se formar em seu rosto. Ele olhou para ela, os olhos brilhando. — Dois. Dois corações… dois pedaços nossos. Veluma riu entre lágrimas, cobrindo o rosto com as mãos. — Meu Deus… eu não acredito nisso. Fernando se inclinou, segurou o rosto dela e sussurrou: — O destino não quis nos dar só uma chance, Veluma. Ele nos deu duas. As lágrimas dela caíram sobre as mãos dele, e naquele instante, a emoção os envolveu por completo. O médico, sorrindo, discretamente se afastou, deixando o casal viver aquele momento. Fernando passou o resto do dia ao lado dela, completamente extasiado. Andava pela sala, imaginando o futuro — dois berços, dois nomes, duas pequenas vidas correndo pelos corredores da mansão. E, pela primeira vez, sua risada ecoou alto o bastante para ser ouvida pelos criados. — Você percebe, Veluma? — disse ele, aproximando-se dela com um brilho juvenil no olhar. — Esta casa, que sempre foi cheia de silêncio e lembranças tristes, agora vai se encher de risadas. Veluma sorriu, acariciando o ventre. — Dois pequenos Brin para mudar o destino desta família. Fernando ajoelhou-se diante dela e pousou as mãos sobre o ventre. — Dois pequenos milagres… — sussurrou. — Eu não mereço tanto, mas prometo que vou dar tudo de mim para protegê-los. Ela passou os dedos pelos cabelos dele, com ternura. — Você já faz isso, Fernando. Só de estar aqui. Ele levantou o olhar para ela, a voz embargada. — Eu vivi tantos anos tentando apagar o passado… mas agora, com você e com eles, eu quero escrever um novo futuro. Veluma se inclinou e beijou-lhe a testa. — Então que esse futuro comece agora. Do lado de fora, os sinos da igreja da vila tocaram. Era como se toda Londres celebrasse aquela nova esperança. Dois pequenos corações batiam em perfeita harmonia — e, pela primeira vez em muito tempo, o magnata da terra sentiu que estava realmente vivo.O resto daquele dia ficou marcado para sempre na memória de Fernando Brin. Ele, que por tanto tempo havia evitado se apegar, agora andava de um lado para o outro pelos jardins, incapaz de conter a emoção. Os criados o olhavam surpresos — nunca tinham visto o senhor da mansão sorrir tanto. Veluma, por sua vez, passava os dedos distraidamente sobre o ventre, tentando imaginar duas pequenas vidas crescendo dentro dela. Era uma sensação que misturava espanto e ternura. Tudo em seu corpo e em seu coração parecia diferente — mais vivo, mais desperto. No final da tarde, ela se sentou no jardim de inverno. A luz dourada do sol atravessava o vidro, aquecendo o ambiente. Fernando se aproximou em silêncio, trazendo uma xícara de chá. — O doutor pediu que você se alimente bem e descanse — disse ele, colocando a xícara sobre a mesinha. — Agora é o dobro de cuidado, Veluma. Ela sorriu de leve. — Eu sei. Ainda estou tentando acreditar nisso. Dois… parece um sonho. Fernando se abaixou diante dela e pousou a mão sobre o ventre. — Não é sonho, minha querida. É o destino nos sorrindo, depois de tanto tempo de escuridão. Veluma o observou com carinho. — Você fala como se estivesse se transformando. Ele riu suavemente. — Eu estou. — E completou, com o olhar fixo nela: — Você me transformou. O silêncio que se seguiu foi sereno. Veluma passou os dedos nos cabelos dele, sentindo o toque cálido das mãos sobre a pele. — Fernando, você não precisa carregar o mundo nas costas. — Eu sei — respondeu ele. — Mas quero carregar vocês. Ela sorriu, emocionada, e as lágrimas vieram sem que percebesse. Fernando se levantou, enxugou-as com os polegares e beijou-lhe a testa. — Nada vai lhes faltar. Eu juro, Veluma. Você e nossos filhos terão tudo o que a vida me negou um dia. Ele se afastou um pouco, olhando para o jardim. — Quando eu era menino, minha mãe costumava cuidar das roseiras. Ela dizia que cada botão era uma promessa da natureza. — Ele sorriu ao lembrar. — Agora, quando olho para você, sinto que cada batimento desses dois pequenos corações é uma promessa de recomeço. Veluma ficou em silêncio, com os olhos marejados. — É tão bonito o que você diz. Fernando se virou e caminhou até ela, sentando-se ao lado. — Bonito é o que você trouxe para minha vida. Eu não sabia mais o que era amar, Veluma. — Ele segurou a mão dela com firmeza. — E, de repente, o amor me encontrou quando eu menos esperava. Ela recostou a cabeça em seu ombro, e os dois permaneceram assim, ouvindo apenas o canto distante dos pássaros. Era uma paz simples, quase sagrada. Mas, por trás daquela serenidade, Fernando sabia que o mundo lá fora não os deixaria em paz por muito tempo. A sociedade londrina era c***l com os que desafiavam suas regras. E, em breve, todos saberiam que o magnata recluso e a jovem empregada da mansão esperavam dois herdeiros Brin. Por ora, porém, ele não se permitiu pensar nisso. Naquele instante, o que importava era o presente — o calor da mulher que amava, o som invisível de dois corações batendo, e a esperança de que o passado, enfim, havia ficado para trás. Fernando beijou-lhe os cabelos e sussurrou: — Eu prometo, Veluma… nunca mais haverá sombras entre nós. Ela sorriu, encostando-se nele. — Que assim seja. Por nós… e pelos nossos meninos. O sol se pôs atrás das colinas, pintando o céu de dourado e lilás. Naquele crepúsculo suave, o magnata da terra e a mulher que conquistara seu coração deram início a um novo capítulo de amor — o mais puro e inesperado de todos.
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