Capítulo 57. Começando a ceder

1010 Words
No hospital, Oliver caminhava pelo corredor como se estivesse em uma névoa. Os colegas o chamavam, algumas enfermeiras perguntavam algo sobre plantão, mas ele m*l ouvia. Tinha apenas uma única direção em mente: a saída. — Doutor, o senhor está pálido… — comentou Lucas, um dos residentes. Oliver respirou fundo, forçando o semblante mais cansado que conseguia. — Não estou me sentindo bem. — mentiu com a voz rouca. — Acho melhor descansar uns dias. Lucas arregalou os olhos, surpreso. O Dr. FrankWood nunca tirava folga. Nunca. — Quer… quer que eu chame alguém para substituí-lo? — Não, eu mesmo já fiz isso. Obrigada. — Oliver respondeu sem realmente ter pedido nada. — Me avise se algo grave acontecer, mas… só isso. Ele saiu antes que alguém fizesse mais perguntas. Era estranho como mentir fluía tão naturalmente quando se tratava dela. Clarice. Ele precisava estar lá com ela. Clarice despertou. A confusão inicial logo foi substituída por uma sensação de conforto inesperado quando viu, ao pé da cama, um vestido limpo, uma toalha macia, roupas íntimas novas ainda na embalagem, tudo cuidadosamente dobrado. Havia também um pequeno bilhete. “Use o que quiser, quero que fique a vontade. — O.” Clarice sorriu de leve. Tomou um banho demorado, quente, que tirou o peso dos últimos dias. Vestiu o vestido simples, azul-claro, que parecia ter sido comprado no tamanho exato dela. Ajeitou o cabelo ainda úmido, respirou fundo e saiu do quarto. Desceu as escadas com cuidado. As portas que davam para os jardins estavam trancadas, mas todas as outras de dentro, não, sala, corredor, cozinha estavam abertas, iluminadas, como se a casa estivesse… a esperando. Ela parou na cozinha, admirando o ambiente amplo, sofisticado, mas aconchegante. Tocou a bancada de mármore, observou os eletrodomésticos impecáveis, o cheiro doce de um aromatizante de lavanda. Tudo aquilo exalava conforto e segurança. Foi quando a porta de vidro da sala se abriu. E Oliver entrou. Ele parou no limiar ao vê-la. Clarice, de vestido azul, cachos ainda úmidos, sem maquiagem, com aquele olhar vulnerável e ao mesmo tempo curioso sobre ele. Por um instante, o mundo inteiro pareceu diminuir ao redor dos dois. Clarice juntou as mãos e sorriu, tímida: — Bom dia, doutor… Oliver fechou a porta atrás de si, sem tirar os olhos dela. — Eu… — ele pigarreou, tentando parecer natural. — Não esperava que estivesse acordada tão cedo. Ela abaixou o olhar, envergonhada de estar ali, na cozinha dele. — Eu… estou me sentindo mais disposta. Oliver respirou fundo, devagar. Linda demais. Delicada demais. E perto demais. E pela primeira vez desde que a trouxe para aquela casa, ele percebeu que nada seria simples dali em diante. Ela recuou apenas meio passo, o suficiente para ele perceber o medo que tentava esconder. — Oliver… — a voz dela saiu baixa, trêmula. — Eu realmente preciso ir. Não quero atrapalhar você, nem colocar ninguém em risco. O Henry… você sabe do que ele é capaz. Ele não vai parar até me encontrar. Oliver inspirou fundo, como se estivesse medindo cada palavra antes de deixá-la sair. — Eu sei exatamente do que Henry é capaz. — Sua voz veio controlada, mas havia uma tensão por baixo, como se ele estivesse segurando um vulcão. — E é por isso mesmo que você não pode sair daqui. Clarice desviou o olhar, apertando as mãos, tentando manter a calma. — Você não entende… — murmurou. — Ele sempre dá um jeito. Ele vai achar você. Vai achar essa casa. E quando isso acontecer… Oliver aproximou-se lentamente, até ficar a um palmo dela. E, com cuidado, ergueu o queixo de Clarice com a ponta dos dedos, fazendo-a encará-lo. — Clarice… — disse, num tom baixo e firme. — Eu sei que se sente insegura aqui, mas por favor, não me deixe. Eu não posso me acalmar sabendo que saiu por aquela porta e não posso mais te proteger — Ele percebeu o susto no rosto dela, mas continuou. — Confia em mim, só alguns dias é tudo que te peço. Vou mandar fazer chaves e deixar com você, sairá quando quiser, para que não se sinta presa.— Era mentira, mas ele disse na intenção de acalma-la. Ela franziu a testa, confusa e assustada. — Mas... doutor, meus pais ficarão preocupados. — Só alguns dias, Clarice. Antes eles preocupados do que você morta. — Por que me esconder? Por que aqui? Por que está fazendo isso por mim? Ele tocou o rosto dela com a palma da mão, com um carinho que fazia contraste com a intensidade na voz, o que a fez tremer levemente. — Porque se você sair dessa casa agora… você não dura um dia. E eu não vou permitir isso. Clarice sentiu um frio percorrer suas costas. — Oliver… você está me assustando. — Não quero te assustar. — Ele baixou a mão, mas manteve o olhar preso ao dela. — Eu só preciso que você confie em mim por mais um tempo. Só isso. Ela hesitou. Parte dela queria correr até a porta mesmo sabendo que estava trancada. Outra parte… a parte que sempre se sentia segura ao lado dele… só queria acreditar. — Me diz pelo menos uma coisa — ela implorou. — Por que está fazendo isso ? Oliver ficou em silêncio por alguns segundos. Ele passou a mão pelo próprio cabelo, nervoso, como se estivesse avaliando se já era hora de revelar tudo. — Porque...você é alguém machucada que precisa de alguém para curar — disse finalmente, num tom grave. — e esse alguém sou eu. Clarice empalideceu. A sala ficou silenciosa por longos segundos, até Oliver se aproximar de novo desta vez menos intenso, mais humano. — Fica. — ele pediu, baixinho. — Por mim. Por você, eu prometo que ficará segura e bem. Eu..— hesitou por alguns segundos.—Eu só te quero bem, Clarice. Clarice respirou fundo… e não respondeu. Mas também não deu mais um passo para perto da porta. E Oliver percebeu que, mesmo com medo, ela começava a confiar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD