Oliver entrou no quarto de Clarice após bater suavemente. Eram quase quatro da tarde, a luz dourada do entardecer entrando pela janela e iluminando o rosto dela ainda um pouco pálida, mas muito mais viva do que nos últimos dias.
— Boa tarde, Clarice — ele disse com a voz calma, aquela voz de “eu cuido de tudo” que sempre fazia o coração dela tremer um pouco. — Hoje vamos retirar o restante dos pontos, tudo bem?
Ela assentiu, ajeitando o cabelo para o lado.
— Pode tirar, doutor. Eu… dormi bem.
Oliver sorriu de leve, gladiente, e puxou o carrinho com o material esterilizado.
— Ótimo. Você está se recuperando muito bem.
Ele colocou as luvas, aproximou-se da cama e, como sempre, avisou antes de tocar.
— Vou levantar um pouco a camisola na altura dos s***s… me avise se incomodar.
Clarice deixou. O toque dele era profissional, leve… mas ainda assim despertava nela algo difícil de controlar. Oliver retirou cuidadosamente os curativos que restavam, expondo a pele fina e os últimos pontos cirúrgicos.
Ele trabalhou em silêncio no começo concentração total até perceber que as mãos de Clarice estavam apertando o lençol , um pouco tensas.
— Está doendo? — ele perguntou sem olhar, mas atento ao menor sinal dela.
— Não… só… estou nervosa — ela admitiu baixinho, quase envergonhada.
Um canto da boca dele ergueu.
— Eu sou tão assustador assim?
— Nem um pouco — ela sorriu tímida.
Oliver sentiu um frio percorrer seu corpo e tossiu para disfarçar.
— Pronto, só mais dois.
Clarice respirou, mordendo o lábio.
— Vou sentir falta de você ver você todo dia quando sair daqui.
A mão de Oliver quase parou. Ele respirou fundo para manter a postura profissional, mas a frase atravessou seu peito como um fio quente.
— …Eu também vou sentir falta de ver você — disse, controlado, mas sincero. — Mais do que deveria.
Clarice desviou o olhar na hora, corando.
— Então… quer dizer que…
— Que você é uma paciente agradável — ele completou rápido, tentando manter o limite. Mas a maneira como seus olhos a encararam denunciou tudo o que ele realmente não podia dizer.
Ele retirou o último ponto e colocou o curativo final.
— Acabou, Clarice. — Sua voz estava baixa demais. — Ficou perfeito.
Ela ergueu o rosto para ele, próxima o suficiente para que Oliver sentisse o perfume suave dela.
— Obrigada… por tudo, doutor. De verdade, eu nem sei como te agradecer. Me salvou.
Ele retirou as luvas, respirando devagar.
— Se você continuar agradecendo assim, vou acabar pegando gosto por ser o seu médico particular.
Clarice riu daquela risada nova, leve, que ele tinha escutado pela primeira alguns dias atrás.
— E isso seria r**m?
Os olhos dele se mantiveram nela por segundos longos, perigosos.
— Muito. Extremamente.
Ele deu um passo para trás antes que perdesse o controle.
— Vou atualizar seu prontuário. Volto mais tarde para ver como está.
Clarice o seguiu com os olhos quando ele saiu, o peito apertado, e uma sensação estranha:
a de que estava se apegando a ele mais rápido do que deveria.
— Doutor— Clarice chamou, sem perceber.
— Sim?
— Beba uma água, tenho certeza que nem disso lembra.
Oliver sorriu, de uma forma que só fazia com Clarice.
— Obrigado Clarice, descansa.— E saiu antes que falasse algo que não deveria.
E Oliver… no corredor… respirou fundo, apoiando a mão na parede, lutando contra a própria vontade de voltar.
— Quase… muito quase—ele pensou, fechando os olhos.— Essa mulher vai ser a minha ruína, profissional e pessoal.