Capítulo 33. Últimas vezes

609 Words
Oliver entrou no quarto de Clarice após bater suavemente. Eram quase quatro da tarde, a luz dourada do entardecer entrando pela janela e iluminando o rosto dela ainda um pouco pálida, mas muito mais viva do que nos últimos dias. — Boa tarde, Clarice — ele disse com a voz calma, aquela voz de “eu cuido de tudo” que sempre fazia o coração dela tremer um pouco. — Hoje vamos retirar o restante dos pontos, tudo bem? Ela assentiu, ajeitando o cabelo para o lado. — Pode tirar, doutor. Eu… dormi bem. Oliver sorriu de leve, gladiente, e puxou o carrinho com o material esterilizado. — Ótimo. Você está se recuperando muito bem. Ele colocou as luvas, aproximou-se da cama e, como sempre, avisou antes de tocar. — Vou levantar um pouco a camisola na altura dos s***s… me avise se incomodar. Clarice deixou. O toque dele era profissional, leve… mas ainda assim despertava nela algo difícil de controlar. Oliver retirou cuidadosamente os curativos que restavam, expondo a pele fina e os últimos pontos cirúrgicos. Ele trabalhou em silêncio no começo concentração total até perceber que as mãos de Clarice estavam apertando o lençol , um pouco tensas. — Está doendo? — ele perguntou sem olhar, mas atento ao menor sinal dela. — Não… só… estou nervosa — ela admitiu baixinho, quase envergonhada. Um canto da boca dele ergueu. — Eu sou tão assustador assim? — Nem um pouco — ela sorriu tímida. Oliver sentiu um frio percorrer seu corpo e tossiu para disfarçar. — Pronto, só mais dois. Clarice respirou, mordendo o lábio. — Vou sentir falta de você ver você todo dia quando sair daqui. A mão de Oliver quase parou. Ele respirou fundo para manter a postura profissional, mas a frase atravessou seu peito como um fio quente. — …Eu também vou sentir falta de ver você — disse, controlado, mas sincero. — Mais do que deveria. Clarice desviou o olhar na hora, corando. — Então… quer dizer que… — Que você é uma paciente agradável — ele completou rápido, tentando manter o limite. Mas a maneira como seus olhos a encararam denunciou tudo o que ele realmente não podia dizer. Ele retirou o último ponto e colocou o curativo final. — Acabou, Clarice. — Sua voz estava baixa demais. — Ficou perfeito. Ela ergueu o rosto para ele, próxima o suficiente para que Oliver sentisse o perfume suave dela. — Obrigada… por tudo, doutor. De verdade, eu nem sei como te agradecer. Me salvou. Ele retirou as luvas, respirando devagar. — Se você continuar agradecendo assim, vou acabar pegando gosto por ser o seu médico particular. Clarice riu daquela risada nova, leve, que ele tinha escutado pela primeira alguns dias atrás. — E isso seria r**m? Os olhos dele se mantiveram nela por segundos longos, perigosos. — Muito. Extremamente. Ele deu um passo para trás antes que perdesse o controle. — Vou atualizar seu prontuário. Volto mais tarde para ver como está. Clarice o seguiu com os olhos quando ele saiu, o peito apertado, e uma sensação estranha: a de que estava se apegando a ele mais rápido do que deveria. — Doutor— Clarice chamou, sem perceber. — Sim? — Beba uma água, tenho certeza que nem disso lembra. Oliver sorriu, de uma forma que só fazia com Clarice. — Obrigado Clarice, descansa.— E saiu antes que falasse algo que não deveria. E Oliver… no corredor… respirou fundo, apoiando a mão na parede, lutando contra a própria vontade de voltar. — Quase… muito quase—ele pensou, fechando os olhos.— Essa mulher vai ser a minha ruína, profissional e pessoal.
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