Oliver inspirou fundo, recompôs o semblante e colocou um pequeno sorriso no rosto um sorriso calculado, para não deixá-la ainda mais tensa.
— Eu preciso subir no escritório por alguns minutos — disse com a voz suave, quase casual. — É algo importante das finanças do hospital, nada demais.—
Ele tocou de leve o braço dela, um gesto gentil, como se pedisse permissão para se afastar.
— Você pode ficar à vontade pela casa… onde quiser. Se quiser ver um filme, tem uma sala de cinema no corredor da direita. Ou pode explorar… sem problema.
Clarice assentiu devagar.
— Tá… eu vou tentar me distrair. — Mas o olhar dela ainda carregava insegurança.
Oliver inclinou a cabeça, como se quisesse garantir que ela acreditasse.
— Ninguém vai te encontrar aqui. Isso eu te prometo.
Ele subiu as escadas em passos firmes e, assim que entrou no escritório, fechou a porta atrás de si. A maçaneta girou clique trancada.
O escritório era impecável, silencioso… mas Oliver não perdeu tempo. Foi direto até a escrivaninha.
A primeira gaveta deslizou com um som baixo, revelando um espaço perfeitamente organizado quase obsessivo.
Papéis divididos por elásticos, envelopes idênticos, pastas sem etiquetas. Nada que chamasse atenção… exceto o conteúdo.
Oliver tirou um grande envelope pardo, que estava ainda aberto. De dentro dele, espalhou sobre a mesa o que vinha colecionando havia meses.
Fotos impressas pelo Corvo:
– Clarice saindo do mercado.
– Clarice entrando em casa.
– Clarice em um café
– Clarice discutindo com Henry em seu apartamento.
– Clarice chorando.
Relatórios médicos.
Avaliações da faculdade.
Antecedentes criminais não dela, mas de pessoas próximas.
Documentos.
Cópias de e-mails interceptados.
Uma foto nítida do RG dela, que ela certamente nunca soube que ele tinha.
Oliver observou tudo por alguns segundos, sentindo o estômago apertar.
Ele jamais gostaria que ela visse aquilo.
Nunca.
Movendo-se rápido, recolheu cada peça, cada papel, cada foto, e colocou tudo dentro de um único envelope grosso. Colocou mais um por cima, lacrado com cuidado.
Depois puxou a gaveta superior com força, alcançando o fundo. Com a ponta dos dedos, soltou uma trava interna escondida. O fundo falso ergueu-se meio centímetro.
Ali, no espaço secreto, ele guardou o envelope.
Fechou o fundo falso.
Fechou a gaveta.
Girou a chave.
E encostou as mãos na mesa, respirando fundo, sentindo o peso daquele segredo pulsando dentro dele.
— Não hoje… — murmurou para si mesmo. — Ela não pode saber disso.
Do lado de fora, no corredor, o som leve dos passos de Clarice ecoou ela explorando a casa, como ele permitira.
E por um instante, Oliver fechou os olhos…
Aliviado e apavorado ao mesmo tempo.
Oliver desceu as escadas devagar, tentando parecer despreocupado, como se tivesse apenas terminado um trabalho simples quando, na verdade, ainda sentia o coração acelerado por ter escondido tudo a tempo.
Ao chegar no final da escada, viu a porta da sala de cinema entreaberta, uma faixa de luz azulada escapando por ela. Ele se aproximou em silêncio. O som suave de diálogos e uma trilha levemente melancólica revelavam que Clarice estava assistindo a algum filme intimista, daqueles que ela sempre gostou.
Ele bateu de leve na porta.
Clarice virou o rosto imediatamente, surpresa mas não assustada. Apenas… tímida.
— Posso? — Oliver perguntou, apontando o interior da sala com um gesto gentil.
Ela ajeitou o cabelo para trás e deu um pequeno sorriso, ainda hesitante.
— Pode… claro.
Oliver entrou. A sala era ampla, confortável, com poltronas macias e luzes discretas nas laterais. Clarice estava encolhida em uma delas, com um cobertorzinho leve sobre as pernas. Parecia menor, mais delicada ali, quase uma versão mais jovem de si mesma.
Ele se sentou ao lado não muito perto, mas perto o suficiente para que ela sentisse que ele estava ali com ela, não apenas assistindo.
Fingiu observar a tela atentamente.
Ele conhecia aquele filme.
Clarice já havia mencionado ser um dos favoritos quando ainda conversavam de forma distante no hospital.
Mas fingiu ignorância para criar uma ponte entre eles.
— Qual é esse? — perguntou baixinho.
— As Coisas Que Deixamos Para Trás. — Clarice respondeu sem tirar os olhos da tela. — Eu amo esse filme.
— Hm… — Oliver inclinou a cabeça, fingindo examinar. — Parece triste. É daqueles que fazem chorar?
Ela soltou uma risada curta, suave.
— Depende. Tem gente que acha. Eu não… acho reconfortante.
— Reconfortante? — Ele perguntou, como se realmente não entendesse. — Um filme triste pode ser reconfortante?
Clarice respirou fundo, olhando a tela como se buscasse palavras.
— Acho que sim. Às vezes… a gente precisa ver algo que entende a gente, sabe? Mesmo que doa um pouquinho.
Ele observou o perfil dela iluminado pela tela.
A sensibilidade dela sempre o atingia de um jeito que ele nunca admitiria.
— E qual parte você mais gosta? — perguntou com verdadeira suavidade.
— A que mostra que… — ela hesitou — …que mesmo quando tudo parece perdido, a gente pode encontrar outra chance em um lugar inesperado.
Oliver sentiu um aperto no peito.
— Isso é bonito — murmurou. — Você fala como se fosse uma especialista em segundas chances.
Clarice sorriu de canto, meio triste.
— Acho que eu preciso ser…
Ele então inclinou levemente o corpo para frente, como se o filme realmente fosse novidade para ele, e fez mais perguntas inocentes:
“Esse personagem é o mocinho ou só parece?”
“Por que ela está chorando nessa cena?”
“Esse é o final feliz ou o começo do caos?”
Cada pergunta puxava um pouco da tensão dela.
Até os ombros relaxaram.
E quando ela se ajeitou novamente no assento, encostando sem perceber um pouco mais perto dele, Oliver sentiu o ar ficar mais leve e ao mesmo tempo mais difícil de respirar.
No escuro, ele olhou Clarice por um instante.
A mulher que ele estava tentando proteger… ou manter por perto.
Talvez as duas coisas.
Um silêncio confortável se instalou.
Até que Clarice disse baixinho:
— Obrigada… por ficar aqui.
Oliver respondeu com um sorriso invisível no escuro.
— Sempre.