Capítulo 64. Últimos resquícios de controle

823 Words
Ela pareceu surpresa. Talvez esperasse que ele risse dela. Que achasse infantil. Mas Oliver não riu. Nem desviou o olhar. Ele realmente não se importava. Clarice voltou para o sofá. Enquanto a a******a começava, ela pediu: — Se quiser dormir ou… sair… não precisa ficar, tá? Eu sei que é meio bobo. Oliver franziu a testa, quase ofendido por ela pensar isso. — Clarice, se você está assistindo, eu estou assistindo — disse com firmeza. — E nada do que você gosta é bobo. Ela respirou fundo e aquele pequeno gesto revelava o impacto que as palavras dele tinham. Quando o filme começou, Clarice ficou claramente sem jeito. Mas Oliver prestava atenção de verdade. Em certo momento, durante uma música, ele comentou: — A harmonia dessa cena é interessante… — A harmonia? — Ela riu baixinho, surpresa. — Quem fala isso vendo a Princesa e o sapo ? — Alguém que faz análise de tudo que vê — ele respondeu, inclinado na direção dela. — Mas eu admito… essa parte é legal. Depois, quando uma das personagens secundárias fez uma piada boba, Oliver soltou um som discreto de riso pelo nariz. Não largo. Não exagerado. Mas real. Clarice virou o rosto para ele, como se precisasse confirmar que tinha ouvido aquilo mesmo. Ele percebeu. — O que foi? — perguntou, confuso. — Nada… — ela respondeu, mas seus olhos diziam outra coisa. Algo como: faz muitos anos que ninguém assiste algo que eu gosto comigo sem reclamar. Ela voltou a olhar a tela, mas sua expressão estava diferente. Mais leve. Mais confortável. Mais… tocada. E, pela primeira vez, a ideia de estar ali naquela sala gigante, ao lado de um homem tão complexo quanto Oliver Frankwood não parecia perigosa ou estranha. Parecia segura. Parecia simples. Parecia confortável. E Clarice pensou, quase sem querer: Ele realmente presta atenção em mim. O filme terminou com aquela música suave, a tela ficando escura enquanto os créditos subiam devagar. Clarice pegou o controle remoto e pausou tudo antes que começasse o próximo episódio automático. Por um segundo, só o silêncio ficou entre eles o silêncio confortável, não tenso. Um silêncio que parecia acolher. Ela virou-se para Oliver, ainda abraçando a almofada que tinha colocado no colo. — Obrigada… por assistir comigo. — A voz saiu baixa, sincera, quase frágil. — É a primeira vez em muito tempo que alguém faz isso sem reclamar. Oliver inclinou a cabeça. — Eu não tenho motivo pra reclamar de nada que venha de você, Clarice. Ela sentiu o estômago revirar não de medo, mas de algo novo. Algo que a aquecia por dentro. Oliver se levantou primeiro, talvez para desligar a TV, talvez para criar algum espaço… mas Clarice também se levantou, quase no mesmo instante, e eles acabaram tão perto que apenas um passo separava um do outro. Oliver engoliu seco. — Clarice… — começou, como se precisasse impedir algo — você não precisa— — Eu sei — ela interrompeu, e foi a primeira vez que tomou controle daquela conversa. A respiração dela estava mais rápida. As bochechas coradas. Os olhos claros tremendo em dúvida… mas não medo. Ela deu meio passo à frente. Ele pareceu prendê-la com o olhar, tentando decidir se recuava, se avançava, se respirava. Mas Clarice decidiu primeiro. Com as mãos tremendo um pouco, ela segurou o rosto dele, os dedos tocando de leve a barba bem aparada. Oliver ficou rígido por um instante quase um reflexo de choque. E então Clarice fechou os olhos… …e o beijou. Um beijo suave no início, hesitante, cheio de incerteza. Oliver não correspondeu nos primeiros dois segundos, não por rejeição, mas porque não acreditava que estava acontecendo. Era como se o mundo tivesse parado ao redor dele, como se todo o autocontrole que ele vinha segurando desde o hospital estivesse sendo testado de uma forma c***l. Clarice afastou meio centímetro, abrindo os olhos com medo de ter errado mas então Oliver a puxou pela cintura, devagar, como se ela fosse algo que ele poderia quebrar com o mínimo toque. E retribuiu o beijo. Lento. Profundo. Guardado por tempo demais. Clarice suspirou contra a boca dele, e Oliver sentiu suas mãos deslizarem até a nuca dela, acariciando o início dos cachos. Quando o beijo terminou, Oliver manteve a testa encostada na dela, respirando fundo, tentando se recompor. — Clarice… — sussurrou, a voz rouca — você não faz ideia do que isso significa pra mim. Os olhos dela brilharam. E pela primeira vez… ela não sentiu medo. ela não sentiu culpa. ela não sentiu que estava traindo expectativas alheias. Pela primeira vez, sentiu liberdade. E Oliver… sentiu que tudo no mundo fazia sentido outra vez. —Clarice,querida, está bem ? Clarice assentiu envergonhada. — Pode buscar um copo de água para mim, Clarice? — S-sim...já volto. Clarice saiu e Oliver respirou fundo, o beijo de Clarice o tinha deixado e******o, a proximidade com ela era demais para seu autocontrole.
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