Acordei, era de madrugada ainda. Tinha algo me incomodando enquanto dormia.
Virei a cabeça para o lado, foi quando eu vi. Uma put@ do pagode que eu trouxe pro barraco, acho que por causa da bebida, capotei.
Levantei, ainda meio zonzo, vesti minha roupa, joguei a c*******a no vaso e dei descarga. Peguei a carteira, joguei uma nota de 200 em cima dela e sai fora.
Montei na minha moto e fui pra minha casa. Estacionei e quando abri a porta, o silêncio gritou.. Meus pais morreram junto com os pais do Cobra, na mesma emboscada e desde então, foi só nos dois, hoje com 26 anos.
Subi, tirei a roupa e fui tomar uma ducha... Aquele cheiro de put@ em mim, me incomodava, depois do ato, eu odiava ter contato com elas.. Metia de 4, não gostava nem olhar pra cara, principalmente porque elas ficavam com medo de mim.
Tomei banho, mas a mente e o coração, sempre pede uma fiel. Uma pessoa que eu possa trazer pra casa, cuidar... Eu não falo isso pra ninguém, porque isso na quebrada, é fraqueza. Mas parceiro, que falta isso faz.
Deitei na cama, pelado mesmo. Acendi um beck e deixei a mente desligar sozinha.. Acordei novamente, aquela sensação ainda gritava no peito, mesmo assim, resolvi descer pra boca mais cedo. Fiz minha higiene, peguei minhas coisas e desci.
Quando cheguei, o Cobra chegou atrás... Eu conheço ele, ele tá com a mente longe e isso na favela, é sinal de perigo.
- Qual foi?? Tá com essa cara porque? - Entrei na sala, já sentando e puxando um Beck.
- Coisa minha! Me erra. - Cobra respondeu sentando na mesa dele.
- Isso é falta de bucet@. Bora descer pro asfalto e pegar umas Paty.. - Ele concordou porque sabia que eu não ia desistir.
Cada um foi pra sua goma, vesti um roupa de marca, porque gosto de chamar atenção e logo o Cobra colou e partimos.
Nenhuma lugar agradava a gente, então decidimos voltar.
Foi quando eu gritei pra ele fŕear o carro, porque havia duas garotas na pista.
Foi tudo muito rápido, quando eu vi, alguém estava atirando e tivemos que atirar de volta.
Na hora, uma menina gritou e disse que a irmã estava feriada. Não sei o que me deu, mas eu corri em direção a elas e foi quando eu vi..
Uma menina, pequena, magra - dava pra ver que era de má alimentação, mas mesmo naquela situação, era linda. Não pensei duas vezes, corri pro carro com ela e aceleramos para o pontinho do morro.
- Aguenta pequena! Estamos chegando- sussurrei no seu ouvido.
O caminho até o pontinho pareceu uma eternidade, mas antes do carro parar, eu já desci com ela nos meus braços. Rapidamente, uma enfermeira trouxe uma maca e pediram pra aguardar.
Parceiro, já vi muita coisa nessa vida, mas nada foi pior do que esse sentimento de medo, de perde-la.
Fiquei ali no hospital, aguardando notícias, enquanto o Cobra ajudava a outra menina. Em seguida, a enfermeira disse que a cirurgia foi rápida e um sucesso e que eu poderia ficar com ela no quarto.
Ela acordou, conversamos um pouco e depois o Cobra entrou com a menina. Quando elas se viram, eu vi ali um sentimento puro, uma lealdade inquestionável.
- Falcão vai ficar no hospital com você. Você vai ficar segura. - O Cobra disse.
Corri em casa, paguei uma ducha e voltei pro hospital. Eu ia cuidar dela, ia proteger.
Cheguei no quarto, era gelado e tinha cheiro de álcool com produto de limpeza. O monitor ao lado dela, apitava regularmente e ela dormia. No canto, havia uma poltrona, sentei e me arrumei ali mesmo.
Algumas horas depois, ela acordou:
-Oi, você voltou- Sua voz era baixa, fraca.
-Claro! Vou cuidar de tu! Qual seu nome? - Era uma promessa.
-Meu nome é Íris. E aquela é a Maya.- Ela gemia, por causa da dor.
- Satisfação! E aí, pode me contar o que aconteceu? - Duvida, martelava na minha mente.
- Eu tenho medo, eles podem voltar! - O desespero surgiu na sua voz e uma lágrima desceu.
-Ninguém nunca mais vai te machucar aqui. Pode me contar. - Falei, sem hesitar ou dúvida.
- Eu e a Maya, éramos vizinhas e quando tínhamos 10,11 anos, fomos sequestradas. Na verdade, ela foi.. Eu fui tentar ajudar e fui levada junto... Desde então, ficamos presas numa casa... - Ela começou a chorar, soluçar e entendi que a história era muito mais séria.
-Depois você me conta. Precisa de alguma coisa? - Fiz carinho na testa dela, tentando passar confiança.
-Será que pode me ajudar a tomar banho? Estou suja da mata, com sangue.. Pode ser na agua gelada mesmo, não quero atrapalhar. - Ela pedia como se fosse uma coisa preciosa tomar banho.
Estranhei a questão do banho gelado, mas não queria enche-la de perguntas, então fui ajuda-la. E quando eu levantei ela da cama e vi uma parte das suas pernas, o mundo abriu nos meus pés.
Suas pernas tinham cicatriz que pareciam marcas de cigarro, alguns cortes.. E aquilo, mexeu comigo. Como alguém pode fazer isso com uma menina?
Continuei ajudando e ela me pediu ajuda pra regular o chuveiro, achei estranho essa dúvida dela.. Ela pode ter passado muita coisa, porém não saber usar chuveiro?
Deixei ela sozinha e quando acabou, ajudei ela a voltar para o quarto.
E em questão de minutos, a Íris dormiu de novo.