O Retorno da Fênix

1238 Words
Cinco anos se passaram desde a última vez que Catarina pisou naquela cidade. E agora, ali estava ela, vestida com um conjunto sóbrio e elegante em tons de vinho escuro, salto alto firme, cabelos soltos com leve ondulação e maquiagem impecável. Tudo nela gritava poder, confiança, controle. Mas, por dentro, o coração batia com uma fúria silenciosa, cultivada por anos de dor e cicatrizes. Ela parou diante do espelho do saguão da Montez Corporation, a empresa mais poderosa da região, e encarou a própria imagem. Respirou fundo, ajustou o paletó justo e ergueu o queixo. Aquela era sua primeira manhã como gerente sênior da área estratégica — e ninguém ali fazia ideia de quem ela realmente era. — Bom dia — disse a recepcionista com um sorriso educado. — A senhora é...? — Catarina Vasconcelos. Gerente sênior do setor estratégico. A reunião de integração começa às nove. A moça arregalou os olhos, notando a segurança com que a mulher falava. Apontou em direção ao elevador privativo. — Pode subir direto. O RH já está aguardando. Catarina agradeceu com um leve aceno e entrou no elevador. Sozinha, ela fechou os olhos e por um segundo lembrou da última vez que vira Brany: rindo com os amigos enquanto a chamava de “fácil”, logo depois de ter tirado sua virgindade. Aquela risada ainda ecoava em sua mente. Mas agora, ela não era mais a menina apaixonada. Era a fênix renascida das cinzas. Quando as portas do elevador se abriram no 18º andar, onde ficava o setor executivo, Catarina deu o primeiro passo dentro do campo de batalha. Seus saltos fizeram um som decidido sobre o piso de mármore. Olhares se voltaram. Homens e mulheres reparavam nela. Alguns por interesse, outros por respeito e outros por pura curiosidade. Catarina carregava uma aura de mistério e poder que impunha silêncio. — Ela é a nova gerente? — sussurrou uma assistente ao fundo. — Parece. Chegou direto de São Paulo. Formada pela melhor universidade, MBA internacional… dizem que foi disputada por várias empresas. Mas ninguém sabia que aquela mulher poderosa já havia sido a garota inocente que serviu de piada nos corredores da mesma cidade. No centro da sala de reuniões, três homens conversavam de costas. Quando ela entrou, um deles se virou: Alex Montez. O mais velho dos irmãos. Olhou para Catarina com um ar curioso, mas sem demonstrar qualquer reconhecimento. — Senhorita Vasconcelos? — perguntou ele, aproximando-se e estendendo a mão. — Bem-vinda à Montez Corporation. Sou Alex Montez, diretor financeiro. Esse aqui é o Samuel, nosso gerente de TI, e... — fez uma pausa — esse é Brany Montez, nosso diretor executivo. Catarina segurou a mão de Alex, firme e elegante. Sorriu levemente para Samuel, agora um homem de 20 anos, e virou os olhos lentamente para Brany. Ele a observava em silêncio. Seu olhar percorreu cada detalhe do rosto e do corpo dela, hesitante, intrigado. Havia algo familiar naquela mulher, mas ao mesmo tempo... impossível. A última vez que vira Catarina, ela era uma menina de olhos tímidos, franja nos olhos e roupas simples. Aquela mulher à sua frente parecia saída de uma campanha de luxo — forte, sedutora, inalcançável. — Brany Montez — ele disse, por fim, estendendo a mão. Catarina aceitou. O toque deles foi breve, mas intenso. Um choque elétrico percorreu ambos, mas apenas ela soube disfarçar. — É um prazer — ela respondeu, seca. — Espero contribuir positivamente para a empresa. Ele arqueou uma sobrancelha, tentando decifrá-la. — Montez? Você é parente? — Um sobrenome comum. Pura coincidência — ela respondeu sem piscar. E ele acreditou. Alex a conduziu até a mesa, iniciando a apresentação de metas e estratégias. Catarina escutava, fazia anotações, participava com precisão. Brany, ao lado, m*l prestava atenção. Ele a observava com olhos desconfiados, atraídos. Havia algo em sua voz, em seu jeito de mexer no cabelo, em seu perfume. Aquilo o incomodava. Mexia com ele. Mas não conseguia ligar os pontos. No fim da reunião, enquanto todos se levantavam, Brany se aproximou novamente. — Catarina, certo? — Sim. — Você parece... familiar. A gente já se viu antes? Ela sorriu com elegância, fria. — Duvido. Eu lembraria de você. Virou as costas e saiu sem olhar para trás, deixando-o parado, frustrado. Horas depois, sozinha em sua nova sala de vidro, Catarina fechou a porta e girou a chave. Apoiou as mãos na mesa, respirando fundo. O primeiro passo havia sido dado. Ela estava ali. Dentro da fortaleza dos Montez. Perto o suficiente para tocá-los. Para destruir aquilo que um dia a destruiu. Sentou-se e tirou da gaveta uma foto antiga: ela e Brany, em um raro momento sorrindo juntos, antes de tudo desmoronar. Amassou o papel e jogou no lixo. — Isso é só o começo — sussurrou para si mesma. Na outra sala, Brany olhava pela janela. Ainda incomodado. Sentia-se atraído pela nova gerente de forma visceral, como se já a tivesse sentido antes. Mas não conseguia lembrar. Pegou o celular, procurou discretamente nas redes sociais pelo nome “Catarina Vasconcelos”. Nada. Sem fotos, sem passado. Alex entrou na sala logo depois. — Você tá estranho. — Aquela mulher... A Catarina. Tem alguma coisa nela. Não sei... me lembra alguém. — Tá de olho na nova gerente já? — Alex riu. — Ela parece ser de outro nível. Vai devagar. Brany não respondeu. O olhar fixo no vidro, como se tentasse enxergar através do tempo. Ao final do expediente, Catarina desceu com passos lentos, carregando consigo uma pasta de anotações. Ao passar pelo estacionamento, seu celular vibrou com uma mensagem de Isabel, sua tia. Tia Isabel: Você conseguiu. Ele não te reconheceu, né? Catarina: Não. E isso torna tudo ainda mais fácil. Tia Isabel: Só não deixa o ódio te cegar, meu amor. Você já venceu só por estar aí. Catarina: Ainda não. Mas estou perto. Dias se passaram. Catarina demonstrava eficiência, segurança e frieza. Ganhava o respeito dos funcionários, impressionava os diretores. E aos poucos, ganhava o olhar constante de Brany. — Você vai comigo na viagem de negócios a São Paulo — ele disse certo dia, entrando em sua sala sem bater. Ela levantou os olhos. — A viagem é amanhã. O motivo? — Preciso da sua presença nas reuniões. Suas análises estratégicas impressionaram o conselho. Vamos ficar três dias. Reserve o hotel. Duas suítes separadas, claro. Catarina disfarçou o sorriso. — Claro, senhor Montez. — Brany. Pode me chamar de Brany. Ela o olhou por longos segundos. — Prefiro manter a formalidade. Evita... confusões. Ele forçou um sorriso, mas sentiu o orgulho ferido. — Como quiser, Catarina. Quando ele saiu, ela encostou-se na cadeira, sentindo o gosto da vitória se aproximar. Ele estava caindo, sem perceber. Naquela noite, sozinha em seu apartamento alugado, Catarina tomou uma taça de vinho e sentou-se em frente ao computador. Abriu um arquivo chamado: Fase 2 – Aproximação. Nele, um plano escrito com frieza e detalhes de cada movimento que faria. Brany Montez havia rido da sua dor. A cidade havia a difamado. Mas agora, os papéis haviam se invertido. E ela estava disposta a fazer com que ele sentisse — pouco a pouco — o gosto amargo da rejeição. Mas no fundo, algo nela tremia. O coração, por mais blindado que estivesse, ainda batia mais forte quando ele estava por perto. E era esse detalhe que ela temia. Não por ele. Mas por si mesma
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