Os tambores recomeçaram a pulsar. As flautas de osso entoaram um acorde agudo e sedutor.
— Primeira volta: o peso do passado — sussurrou o Boto em meu ouvido. Sua mão envolveu minha cintura com uma firmeza macia, conduzindo-me em um giro veloz.
O mundo ao redor começou a se dissolver. A margem, a carruagem de Lady Vespera e as figuras de Alik e Tuli desapareceram, substituídas por imagens flutuantes de água translúcida. Vi minha infância em Guaranímia: os gritos furiosos da minha mãe me chamando de selvagem, as broncas do conselho dos anciãos, os olhares de desdém dos outros caçadores. A dor da rejeição ardeu no meu peito.
— Por que carregar cicatrizes de quem nunca te compreendeu? — o Boto sussurrou, girando meu corpo colado ao seu. O rosto dele mudava a cada fração de segundo, assumindo traços que me confortavam, um sorriso doce que nunca recebi em casa. — Entregue as memórias da vila às correntes. Aqui nas águas, ninguém exige que você seja uma donzela ou uma rainha. Seja apenas leve.
Senti uma pontada de esquecimento: o nome da minha rua começou a sumir da mente. O rosto da minha mãe ficou cinzento e sem foco na memória. Desesperada, apertei o amuleto de Tuli até a seiva das folhas manchar meus dedos. O cheiro ardido de cânfora cortou a ilusão.
— Eu sou Iara! — exclamei entre dentes, encarando os olhos âmbar da criatura. — Filha de Guaranímia! O meu passado não é um fardo... é o fogo que me fez andar até aqui!
A primeira volta terminou com um trovão aquático. O Boto estreitou os olhos, surpreso pela resistência.
— Segunda volta: a fraqueza do afeto — declarou ele, puxando-me com mais força e acelerando a dança. O ritmo tornou-se frenético, vertiginoso.
A névoa ao redor formou dois reflexos sobre a água. De um lado, vi Alik me abraçando no riacho, mas em vez de carinho, a ilusão mostrava-o acorrentado, morrendo nos portões de Obsidian por minha causa. Do outro lado, vi Tuli sendo consumida pelas chamas azuis de um caldeirão quebrado, sufocada pelas próprias visões de sangue.
— Você os trouxe para a morte — acusou o monstro, com uma voz que agora imitava o tom de repreensão do meu pai. — O amor dos mortais é egoísmo puro. Liberte-os do juramento. Se você afundar comigo, eles poderão voltar para casa e viver em paz.
A culpa tentou me paralisar. Meus joelhos fraquejaram, e senti a água começar a ceder sob os meus calcanhares, fria e gananciosa, tentando tragar minhas pernas para o fundo. Mas através do reflexo borrado, lembrei-me das palavras de Tuli e do toque de Alik ao aceitar a lança.
— Eles não vieram porque sou fraca! — rugi, cravando os calcanhares na superfície líquida e erguendo a cabeça. — Vieram porque escolheram lutar ao meu lado! Nós não nos escondemos na segurança da covardia!
A marca de quatro pontas na minha mão explodiu em um clarão escarlate. A ilusão de Alik e Tuli estilhaçou-se como vidro.
— Terceira volta: a ilusão da coroa! — gritou o Senhor do Lago, perdendo a polidez aristocrática. Sua pele dourada começou a se romper, revelando escamas cinzentas e rosadas de monstro marinho por baixo do terno branco. Ele avançou para o giro final, tentando me afogar em uma espiral de água n***a.
Nesta última miragem, vi o Castelo Obsidian em glória. Eu estava sentada no trono de pedra n***a, coberta de ouro, adorada por milhares de criaturas. Mas ao olhar para os meus próprios braços no reflexo, não havia mais carne nem humanidade: eu era apenas uma sombra de asas negras e olhos ocos, idêntica à abominação que roubara o coração da Cuca.
— É isso que te espera no fim da estrada! — sibilou a fera aquática, abrindo uma boca cheia de presas afiadas enquanto a máscara caía na água. — Um monstro devorado pelo próprio poder!
— Então que seja! — gritei, recusando o medo. — Mas serei eu quem escolherá o meu próprio destino!
Em vez de recuar do giro, avancei contra o corpo do monstro. Envolvi seu pescoço com o braço esquerdo e, com a mão direita em chamas pela marca mágica, cravei meus dedos diretamente sobre o broche de prata em seu peito. A criatura soltou um uivo gutural que fez o lago inteiro estremecer. Puxei com toda a força que me restava, arrancando a Pérola da Memória de sua carne submersa.
Um turbilhão de luz prateada explodiu ao nosso redor. Os dançarinos de branco dissolveram-se em espuma e bolhas de ar. O Senhor do Lago mergulhou em uma cambalhota desesperada, retornando à sua forma monstruosa de cetáceo de olhos cintilantes antes de desaparecer nas profundezas do leito.
Caí de joelhos sobre a areia da margem, arfando pesadamente, com a pérola brilhando intensamente em minha mão esquerda. A esfera de repente se desfez em pura luz líquida, sendo absorvida diretamente pela minha palma direita.
Uma dor aguda e triunfante correu por minhas veias. A marca se redesenhou: a quinta ponta da coroa se ergueu, reluzindo agora com um brilho prateado e imponente.
Tuli correu até mim e me envolveu em um abraço apertado, tremendo de alívio contra o meu peito. Alik se ajoelhou ao nosso lado, pousando a mão firme em meu ombro com os olhos marejados de admiração silenciosa.
Na entrada da carruagem, Lady Vespera bateu palmas pausadamente, um som seco e solene que cortou o silêncio da alvorada que começava a tingir o céu de vermelho sangue.
— Duas provas vencidas, Iara de Guaranímia — proclamou a emissária. — A última barreira nos separa dos portões de Obsidian. Preparem-se... pois nas Colinas dos Titãs, os monstros não pedem danças nem rituais. Eles apenas caçam.