O céu acima de nós havia perdido qualquer vestígio de azul ou claridade natural. Uma abóbada pesada, cor de chumbo e tingida por veios escarlates, pairava sobre as Colinas dos Titãs. O vento que uivava pelas frestas da carruagem de ébano não trazia mais o perfume adocicado de flores aquáticas; cheirava a ferro cru, pedra calcinada e cinzas de fogueiras extintas há séculos. A cada milha percorrida pela carruagem suspensa, as montanhas pareciam se erguer do solo como costelas quebradas de feras colossais que um dia haviam sido donas daquela terra.
Eu olhava fixamente para a palma da minha mão direita. A marca da coroa agora possuía cinco pontas perfeitas, pulsando com um brilho duplo — o vermelho ígneo do sangue da floresta e a prata fria das águas do lago. A dor já não era mais uma ferroada desconhecida; tornara-se uma presença constante, um calor vivo sob minha pele que parecia ditar a velocidade do meu próprio coração.
Ao meu lado, o silêncio de Alik era quase ensurdecedor. Ele limpava a ponta de ferro de sua lança com um pedaço de linho rasgado, os movimentos metódicos e precisos disfarçando a tensão que endurecia seus ombros largos. Seus olhos, escuros e atentos, desviavam com frequência para o mimbý preso à sua cintura. O instrumento parecia respirar em uníssono com o ambiente, emitindo um sussurro muito baixo sempre que a carruagem oscilava.
— Você não precisa tocar se não quiser — murmurei para ele, quebrando o silêncio da cabine.
Alik parou os movimentos e ergueu os olhos para mim.
— A Cuca disse que instrumentos abandonados aprendem canções perigosas, Iara. Se eu fugir disso agora, vou passar o resto da vida sendo aquele que recuou enquanto você enfrentava o abismo. Eu fiz o juramento. Não vou deixar você carregar o peso de nós três.
Tuli, sentada do meu outro lado, terminou de misturar um ** acinzentado em uma tigela de madeira rústica, cobrindo-o com óleo de noz-moscada. Suas mãos tinham vestígios de fuligem e fulgor místico. Ela estendeu os dedos e traçou uma linha suave na minha testa, espalhando uma pasta aromática que gelou instantaneamente meus pensamentos.
— Isso vai ajudar contra o atordoamento sonoro — disse Tuli com sua voz aveludada, encarando-me com intensidade. — As lendas dizem que as Colinas dos Titãs pertencem aos clãs dos Ciclopes e dos Mapinguaris de pedra. Eles não usam magia de ilusão como os Botos, nem veneno sutil como a floresta. Eles caçam pelo som do impacto e pelo cheiro do pavor.
— Uma bruxa bem informada é um perigo raro — comentou Lady Vespera do assento oposto. A vampira ajeitou a gola alta de sua capa de veludo n***o, exibindo um sorriso frio e avaliador. — Ela está correta. A terceira prova é o Teste da Força Bruta e do Vértice Cego. Diante dos portões externos de Obsidian ergue-se o Labirinto dos Crânios de Basalto. Para que a sexta ponta da coroa seja concedida e o caminho ao castelo se abra, você deverá atravessar a Garganta de Camazotz e cravar o estandarte de Guaranímia no Altar dos Primordiais.
— E o que guarda o altar? — perguntei, sentindo o peso do desafio iminente.
— O Guardião Cego de Obsidian: o primeiro guerreiro ciclópico gerado na guerra de Vlad Philips. Ele não possui olhos, mas ouve o pulsar do coração de uma mosca a cem passos de distância. Ninguém jamais o venceu pela força física; apenas pela astúcia e pelo sangue oferecido.
A carruagem estremeceu violentamente. As quatro montarias esqueléticas relincharam em uma frequência que fez as janelas de cristal tremerem. Pousamos com um estrondo seco sobre uma plataforma de rocha n***a talhada diretamente na encosta de um abismo monumental.
As portas se escancararam com um rangido metálico. Descemos em um platô desolado. À nossa frente, dois paredões de pedra n***a elevavam-se centenas de metros em direção ao céu avermelhado, formando uma ravina estreita ladeada por estátuas arruinadas de titãs antigos. No final da f***a, pairava o contorno ameaçador do Castelo Obsidian: torres colossais esculpidas em pedra viva, pontiagudas como presas prontas para devorar a lua de sangue.
— O estandarte — Lady Vespera entregou-me uma haste de ferro n***o encimada por um tecido carmesim com o símbolo da nossa vila gravado em ouro opaco. — Se vocês três não cruzarem o arco antes que a última badalada do sino de Obsidian ecoe, o labirinto se fechará e as pedras esmagarão vossos ossos.
Trocamos olhares rápidos. Não havia tempo para discursos.
— Juntos — sussurrou Tuli, pegando três frascos de líquido inflamável de sua algibeira.
— Juntos — confirmou Alik, firmando os pés e erguendo a lança com postura de combate.
Cruzamos o limiar da garganta. No exato instante em que meus pés ultrapassaram a primeira coluna de basalto, o chão estremeceu. As paredes do desfiladeiro começaram a se mover com um ranger de engrenagens de rocha viva, fechando a entrada e alterando os corredores à nossa volta.
Um rugido titânico ecoou pelas paredes, tão denso que fez o ar vibrar e a poeira cair sobre nossas cabeças.
Das sombras do corredor principal, uma criatura monumental emergiu. Media quase quatro metros de altura, com uma couraça de pele cinzenta tão espessa quanto granito. No lugar dos olhos, havia apenas uma placa de osso maciço esculpida com cicatrizes de guerra, mas suas orelhas compridas e pontiagudas moviam-se em rotação constante, captando até mesmo o roçar das nossas roupas contra o chão de cascalho. Em sua mão direita, repousava uma clava feita de ferro fundido e crânios fossilizados.
— Ele está ouvindo nossa respiração! — sussurrou Alik quase sem mexer os lábios.
O ciclope virou a cabeça monstruosa diretamente na nossa direção. Com um rugido que partiu uma das colunas laterais, ele desferiu um golpe devastador com a clava. O impacto no chão arremessou pedras e estilhaços para todos os lados.
— Espalhem-se! — gritei, rolando para a esquerda enquanto a rocha onde eu estava se desfazia em **.
Tuli agiu com rapidez assombrosa. Ela arremessou um dos seus frascos contra a parede oposta à fera. No choque, uma nuvem espessa de fumaça acre e faíscas estalantes explodiu com um som agudo, desorientando a audição ultrassensível do guardião. O monstro urrou de agonia, cobrindo os ouvidos com o antebraço colossal e girando às cegas.
— O altar está atrás dele! — gritou Alik. — Mas a fumaça não vai segurá-lo por muito tempo!
O ciclope sacudiu a cabeça e avançou enfurecido, guiando-se pelo eco da voz de Alik. A clava desceu em um arco mortal na direção do caçador. Alik usou a haste de sua lança para aparar de raspão o golpe, sendo lançado contra a parede de pedra. O impacto arrancou o mimbý de sua cintura, que rolou pelo chão poeirento parando a poucos passos dos pés da fera.
— Alik! — Tuli correu para ampará-lo, puxando uma poção de ervas para estancar o sangue que escorria de sua têmpora.
O monstro ergueu a clava para o golpe final contra eles.
Não hesitei. Corri com toda a velocidade que minhas pernas permitiam, me jogando sobre o chão para alcançar a flauta de taquara antes que o pé de granito do gigante a esmagasse. Alcancei o mimbý, rolei por baixo da perna da criatura e me levantei diante do altar de pedra n***a que se erguia no fim do corredor.
Levei o mimbý aos lábios. Desta vez, não houve hesitação nem gosto amargo de medo. Soprei uma nota tão cristalina, potente e ressonante que as próprias rochas do labirinto responderam com uma vibração harmônica. Era a canção que aprendi no pântano, combinada com a fúria das águas do lago.
O som paralisou o gigante. As ondas acústicas atingiram sua audição como uma torrente de agulhas de gelo. Ele caiu de joelhos diante do altar, largando a clava e arquejando sob o peso da melodia ancestral que dominava os primórdios de Mittér.
Com um movimento rápido e firme, encerrei o sopro, agarrei o estandarte de ferro com a mão marcada e o cravei com força no centro do altar de basalto.
Um clarão ofuscante irrompeu do altar. A pedra absorveu o sangue da minha palma e o tecido carmesim se acendeu em chamas douradas que não o consumiam. A sexta e última ponta da coroa se desenhou na minha pele em um traço de fogo púrpuro e majestoso. A coroa agora estava completa, queimando com autoridade indiscutível na minha carne.
O guardião ciclópico inclinou seu tronco colossal até o chão em uma reverência submissa. As paredes móveis do labirinto se recolheram com estrondo, revelando a passagem final.
Diante de nós, os portões monumentais do Castelo Obsidian começaram a se abrir lentamente, deixando escapar a luz de milhares de tochas, o murmúrio de vozes monstruosas e os primeiros acordes do Baile de Skotous.
Alik levantou-se, apoiando-se em sua lança com um sorriso cansado e orgulhoso nos lábios. Tuli veio ao meu encontro, segurando minha mão com força enquanto contemplávamos a imensidão do castelo.
— As provas terminaram, princesa — sussurrou Alik.
— Não — respondi, erguendo o queixo e encarando o salão dos monstros que nos aguardava. — A verdadeira batalha acabou de começar.