Os colossais portões de ferro n***o e pedra viva de Obsidian abriram-se com um rangido que ecoou pelas entranhas da montanha. O chão sob os nossos pés não era de terra batida ou cascalho comum; caminhávamos sobre uma ponte suspensa feita de ossos petrificados de Camazotz, polidos por milênios de passos até adquirirem a cor e o brilho do marfim envelhecido. Abaixo do abismo, um rio de lava adormecida emitia um pulsar avermelhado, aquecendo o ar frio da noite da lua de sangue.
A marca na minha palma ardia com uma intensidade quase insuportável. As seis pontas da coroa desenhavam-se com perfeição reluzente, entrelaçando fios de sangue da Cuca, prata pura do Boto Encantado e fogo místico do altar dos Titãs. Cada pulsar na minha carne parecia conectado às próprias fundações do castelo, como se a fortaleza reconhecesse a chave viva que se aproximava de seu coração.
— Mantenham a cabeça erguida — murmurou Lady Vespera, assumindo a liderança da comitiva com passos fluidos. Sua capa de veludo n***o arrastava-se suavemente sobre o marfim, e seus olhos escarlates brilhavam com uma satisfação triunfante. — Em Obsidian, qualquer sinal de hesitação é interpretado como um convite ao abate. Vocês são os primeiros mortais a pisar neste vestíbulo sem correntes no pescoço em mais de oitocentos anos.
Alik ajustou a empunhadura de sua lança de caça. Seu rosto trazia as marcas de poeira do labirinto e uma linha fina de sangue seco perto da têmpora, mas sua postura era a de um guerreiro que não cederia um único milímetro diante do desconhecido. Ao meu lado esquerdo, Tuli mantinha a mão firmemente apoiada em minha cintura, os dedos longos transmitindo um calor reconfortante. Ela havia limpado a fuligem de suas bochechas e prendera os cabelos castanhos com um ramo fresco de cânfora, mantendo os olhos escuros alertas a cada sombra projetada pelas tochas.
Ao cruzarmos o arco monumental do grande pórtico, a atmosfera mudou subitamente. O estrondo do desfiladeiro deu lugar a uma onda monumental de música orquestral, conversas em línguas guturais e o aroma denso de incenso de mirra, vinhos encorpados e carne assada em especiarias raras.
O Grande Salão de Skotous era um espetáculo de grandeza aterrorizante. O teto elevava-se a dezenas de metros de altura, sustentado por arcos ogivais de basalto entalhados com figuras de bestas aladas e guerreiros esquecidos. Lustres gigantescos feitos de ferro fundido e cristais carmesins flutuavam no ar sem correntes visíveis, banhando o ambiente em uma luz rubra e dourada. Centenas de convidados espalhavam-se pelo salão, formando círculos aristocráticos e dançando sobre mosaicos que retratavam a queda de Vlad Philips IV e a assinatura do pacto ancestral.
Ali estavam todas as raças de Mittér. Vampiros de pele de mármore e vestes de veludo refinado conversavam com lobisomens imponentes em trajes de gala que m*l disfarçavam suas garras pontiagudas; górgonas com serpentes douradas entrelaçadas em seus cabelos riam ao lado de nobres ogros encouraçados; fadas com asas de mariposa translúcida sobrevoavam taças de cristal n***o servidas por duendes servis.
A nossa entrada não passou despercebida.
Um silêncio súbito começou a se propagar a partir das primeiras fileiras de convidados, como uma onda que quebrava sobre uma praia silenciosa. A música desacelerou gradualmente até cessar por completo. Centenas de olhos de todas as cores imagináveis — vermelhos, amarelos, fendidos como os de répteis e brancos como gelo — viraram-se em uníssono na nossa direção.
— Uma humana? — sussurrou uma voz feminina cortante vinda de um grupo de nobres vampiras.
— Olhe para as mãos dela... — rosnou um líder dos clãs dos lobos, farejando o ar com o focinho contraído em desconfiança. — Ela carrega a marca completa dos primordiais. O cheiro da Cuca e do Lago dos Botos está entranhado na pele dela!
Murmúrios revoltados e fascinados tomaram o salão. Algumas criaturas deram passos ameaçadores à frente, exibindo presas e empunhando adagas cerimoniais, mas a simples presença ereta de Lady Vespera e o olhar impassível de Alik com sua lança sustentaram a barreira invisível que nos protegia.
— Abram alas para a escolhida da Coroa! — a voz de Lady Vespera ressoou com o poder de um trovão amplificado pelas abóbadas de pedra. — Iara de Guaranímia sobreviveu às três provações do sangue, da mente e da força. O pacto de Vlad Philips IV reconhece o seu direito de estar entre nós!
A multidão de monstros abriu um corredor largo e tenso no meio do salão. Caminhei com firmeza, sentindo cada centímetro do meu corpo observado, julgado e cobiçado. Minhas sandálias simples de couro contrastavam rudemente com os pisos polidos e com os vestidos ricamente bordados da nobreza de Mittér, mas a minha postura era inflexível.
No extremo oposto do salão, elevado sobre uma plataforma de sete degraus de ônix n***o, erguia-se o Trono dos Titãs. Sentado à direita do trono vazio estava Lorde Malakar, o grão-duque da Casa Dracul, com seus longos mantos escarlates e uma coroa menor de ossos entrelaçados. Ao lado dele, os representantes supremos das outras castas observavam com desconfiança palpável.
Mas não foram os líderes que capturaram meu fôlego.
No centro do estrado, repousando sobre uma almofada de veludo carmesim, descansava a verdadeira Coroa da Titã. Ela era forjada em um metal escuro que parecia absorver a luz ambiente, com galhos retorcidos que imitavam espinhos e chifres ancestrais. Pequenas estrelas pulsavam aprisionadas em seu interior, emitindo o mesmo brilho espectral da mão que havia me perseguido nos meus sonhos e no caldeirão de Tuli.
— Uma mortal reivindicando o legado dos monstros... — a voz de Lorde Malakar soou pesada e zombeteira ao nos aproximarmos da base dos degraus. — Vespera, você trouxe uma ave ferida para o ninho das serpentes. Ela pode ter passado pelos testes da floresta, mas a corte de Obsidian não se dobra a canções de ninar humanas.
— Eu não vim pedir que se dobrem — dei um passo à frente, erguendo minha mão direita marcada diante de todos os líderes. A luz das seis pontas acendeu-se com tanta força que fez as tochas ao redor vacilarem. — Eu vim tomar aquilo que a Coroa me chamou para governar.
Um sorriso sombrio brotou nos lábios do nobre vampiro.
— Veremos se o seu sangue continuará tão insolente quando a meia-noite soar. Até o fim do Baile de Skotous, qualquer príncipe ou guerreiro presente tem o direito de desafiar a sua escolha em combate ou na dança das vontades. Se você cair, seus guardiões morrerão antes do amanhecer.
Alik bateu a base da lança contra o degrau de ônix com um estalo seco que calou as risadas ao redor.
— Que venha o primeiro — declarou Alik, sem desviar os olhos do vampiro.
A música da orquestra recomeçou com uma intensidade selvagem e triunfal. Os monstros voltaram a dançar e brindar, mas agora os olhares predatórios estavam todos voltados para o nosso canto do salão. A noite da consagração havia começado, e cada respiração seria comprada a ferro e fogo.