CAPÍTULO XI

1196 Words
O murmúrio das centenas de feras vestidas em sedas e armaduras transformou-se em uma vibração grave, como o rosnado de um predador colossal prestes a saltar sobre a presa. O estrado dos líderes, iluminado pelas tochas de fogo alquímico azul e carmesim, parecia um cadafalso onde qualquer passo em falso significaria a nossa condenação imediata. O cheiro de mirra e especiarias adocicadas não conseguia mais ocultar o odor metálico do sangue fresco que transbordava das taças de cristal n***o dos nobres vampiros. Lorde Malakar ergueu a mão direita, fazendo os anéis de rubi reluzirem. O gesto silenciou os músicos no mezanino de ferro fundido. — As leis do Baile de Skotous são sagradas e inquebráveis — proclamou o grão-duque da Casa Dracul com sua voz cavernosa. — Uma candidata que carrega a marca das seis pontas tem o direito de requerer o trono da Titã, mas a Coroa rejeita cabeças que não suportam o peso da soberania. Diante de todas as cortes de Mittér, abro o Círculo da Contenda. Quem dentre os príncipes reivindica o sangue da forasteira? Antes que o eco da voz de Malakar morresse nas abóbadas de basalto, um vulto imponente saltou do círculo dos clãs do norte, aterrissando no mosaico central com um estrondo de garras afiadas contra a pedra polida. Era o Príncipe Fenrir de Lycaonia. Seus ombros eram largos e cobertos por uma capa de pele de urso acinzentada, trajes de veludo rasgados pela musculatura proeminente e olhos dourados que ardiam com a fome primitiva da lua cheia. Sua mandíbula alongada exibia dentes afiados como adagas de caça, e o vapor quente que saía de suas narinas espalhava o cheiro pungente de terra e pinho molhado. — Um lobo não curva a cerviz para quem cheira a leite e rio doce! — rugiu Fenrir, arrancando urros de aprovação da bancada dos lobisomens. — Eu reivindico a primeira dança da morte! Alik deu um passo à frente, girando a lança em um movimento rápido e firme. O metal da lâmina refletiu o brilho rubro dos lustres. — Para tocar nela, vai ter que passar pela minha ponta primeiro, cão sarnento. — Alik, não! — segurei o braço dele com firmeza, sentindo a rigidez de seus músculos sob a camisa de couro. — O desafio foi feito a mim. Se você lutar no meu lugar, eles dirão que sou a donzela indefesa que meus pais sempre quiseram que eu fosse. Isso acaba aqui. Tuli aproximou-se pelo meu outro lado, seus dedos tocando suavemente a minha nuca antes de deslizar até a minha mão esquerda. Seus olhos castanhos brilhavam com uma determinação feroz que superava qualquer feitiço guardado em seus frascos. — Lembre-se do que você é, Iara — sussurrou a jovem bruxa, sua respiração quente roçando minha bochecha. — Você tem o veneno da Cuca, a astúcia das correntes do Boto e a força dos Titãs. Deixe a marca falar por você. Soltei o braço de Alik e avancei até o centro do círculo de mosaicos. Fenrir sorriu, mostrando as presas prontas para rasgar minha garganta, e flexionou as patas traseiras. Os tambores de guerra e os violinos fúnebres de Obsidian explodiram em uma melodia veloz e ensurdecedora. Fenrir atacou com a velocidade de um relâmpago. Suas garras rasgaram o ar em direção ao meu peito, mas eu não tentei recuar. Guiada pela pulsação da sexta ponta da marca, deslizei para o lado como a água do rio contornando uma rocha escarpada. A garra do lobo passou a um centímetro do meu rosto, cortando uma mecha do meu cabelo escuro. Girei sobre o calcanhar e, com a mão direita em chamas prateadas e purpúreas, desferi um golpe certeiro na lateral do tórax da fera. A energia acumulada das três provações explodiu no contato. O impacto emitiu um estrondo ressonante que arremessou o príncipe lobo contra a balaustrada de mármore do salão, rachando a pedra maciça. O salão inteiro congelou. Fenrir tossiu sangue n***o, erguendo a cabeça com os olhos marejados de espanto e respeito forçado, incapaz de se levantar antes da contagem do arauto. — Mais alguém?! — gritei para as galerias apinhadas de monstros, sentindo a adrenalina queimar em minhas veias e a marca pulsar como um segundo coração. — Ou vão continuar se escondendo atrás de linhagens antigas enquanto uma humana faz o que nenhum de vocês teve coragem de fazer? Um silêncio sepulcral engoliu a aristocracia de Mittér. Nenhum outro príncipe deu um passo à frente. Até mesmo as górgonas recolheram suas serpentes sob os mantos, e os lordes vampiros trocaram olhares carregados de tensão. Lady Vespera deu um passo à frente no estrado, erguendo os braços compridos envoltos em seda. — O Círculo da Contenda está encerrado! Pelo sangue derramado nas provações e pela vitória no salão de Vlad Philips IV, a Coroa da Titã reclama sua soberana! Caminhei lentamente em direção aos sete degraus de ônix. Cada passo parecia carregar o eco de toda a minha vida: os avisos da minha mãe, as dúvidas protetoras do meu pai, as brincadeiras sujas de terra com os caçadores da floresta e os sonhos que me diziam ser impossíveis para uma mera filha de Guaranímia. Alik e Tuli subiram ao meu lado, postando-se nos degraus imediatamente inferiores como meus guardiões jurados. O caçador mantinha o queixo erguido e os olhos fixos na corte com orgulho inabalável; a jovem bruxa segurava a barra do meu vestido com carinho solene, suas mãos firmes transmitindo toda a coragem que compartilhamos na jornada. Parei diante do altar do trono. A Coroa da Titã flutuava lentamente acima da almofada carmesim. Seus espinhos retorcidos de metal escuro e suas constelações prisioneiras giravam em um vórtice luminoso que refletia nos meus olhos. Ao estender minhas mãos marcadas, a coroa não queimou com dor: ela se acomodou sobre a minha fronte com a leveza de um suspiro e a solidez de uma montanha inabalável. Uma onda de choque estelar percorreu todo o Castelo Obsidian. As chamas das tochas mudaram de cor, tingindo o salão em um roxo majestoso e dourado. As pequenas estrelas da coroa desceram em fios de luz pelos meus cabelos, entrelaçando-se em minhas tranças e brilhando sobre a minha pele acobreada como armadura celestial. No mesmo instante, milhares de criaturas — lordes, servos, feiticeiras e guerreiros — caíram de joelhos em uma reverência uníssona que fez as pedras do chão vibrarem. Até mesmo Lorde Malakar curvou a cabeça diante do trono. — Salve Iara de Guaranímia! — a aclamação de milhares de vozes ecoou como um trovão que rompeu as nuvens da noite. — A primeira Princesa Humana de Mittér-Skotous! A Senhora dos Monstros e Herdeira da Noite! Sentei-me no trono de pedra viva. Olhei para Alik à minha direita, que sorria com lágrimas contidas nos olhos, e para Tuli à minha esquerda, cujos olhos castanhos me guardavam com a ternura e a devoção de quem dividia a própria alma comigo. Eu não era mais a garota que precisava ser salva por caçadores, nem a filha submissa que se encolhia sob gritos em um quarto sem porta. Eu era a coroa. Eu era a tempestade. E o reino dos monstros agora respondia à minha voz.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD