Corro pela floresta. A vegetação é fechada, quase não vejo o caminho à frente. Galhos grossos se cruzam acima de mim, como se quisessem engolir os raios de sol, deixando feixes de luz pela mata. Insetos passam pelo meu rosto enquanto eu avanço — ugh! — um deles entra na minha boca. Cof cof!
Olho para trás e vejo meus amigos, Alik, Maian, Luaja, me seguindo.
— Pega, vamos, vai...! — gritou Alik para os outros
Luaja pega um arco e flecha e atira na minha direção — Toma essa p*****a.
A flecha passa de raspão entre meu rosto e meu ombro, dando um pequeno corte no meu ombro — Caranho! — solto alto, sentindo a dor e, um alívio. — Vocês erraram seus sacos de coco de c***a.
Estamos jogando pega-caça, um jogo da nossa vila, onde os caçadores têm que caçar a sua presa, que, no caso, sou eu.
— Saco de coco é...? — Maian responde, e pega um estilingue da cintura, junto com um saquinho com coco de c***a dentro. E atira na minha direção. — Toma essa sua otaria.
O saco passa direto por mim, como se não fosse para me acertar.
— Errou, i****a! — me gabo e olho para trás, mostrando o dedo do meio para eles.
— Hahahahaha! — Maian ri.
Fico sem entender a risada dele. Então quando dou um passo para frente, escorrego e caio para trás. — Mas que m***a.
Quando olho para o chão, vejo que tem literalmente m***a na minha sandália.
— Não acredito nisso!
— Quem é coco de c***a agora? Hahaha!!
— HAHAHAHHA.
— Hahahahah. Olha ela!
— Vão se f***r.
— É assim que quer se preparar para o mundo dos monstros, peixinha? — diz Alik vindo em minha direção e me ajudando a levantar — Caindo em ataques de coco?
— Ah para, isso é só um jogo — pego no braço dele e me levantando. O impulso faz a gente ficar frente a frente. Nós olhamos, e eu fico meio sem graça.
— É...mas, tem que tomar cuidado lá fora, não quero que se machuque ou algo pior — ele diz quase sussurrando, e me olhando bem nos olhos.
— Eu sei, mas... já estou preparada, sabe disso — vou me aproximando mais e olhando mais fundo em seus olhos.
— Se está tão preparada, então porque caiu na bosta? HAHAHA! — a Luaja chega nos interrompendo e, falando com escárnio — E vai limpar essa m***a da sua sandália, sua c***a.
— Ah...? é verdade — fico totalmente envergonhada e constrangida — Isso é culpa sua Maian, i****a.
— Ah? o que? seu namoradinho não gosta de coco? — Maian responde zombando.
— Cala essa boca Ian. Vem vamos limpar isso — ele se aproxima mais, e pega na minha cintura — Só cuidado para não pegar nos seus dedos — solta uma leve risada.
Alik me levanta com um braço em volta da minha cintura e tira minha sandália com a outra mão, a desamarrando pela corda de couro da sandália amarrada no meu tornozelo. E a segura para lavar.
— Prontinho peixinha. — ele olha sorrindo para mim.
— Obrigada, não precisava. — fico com vergonha.
— Ai nossa, que lindos namoradinhos — Luaja zomba mais uma vez.
— Não somos namorados!
— Não somos namorados!
Nos afastamos, constrangidos.
— Temos que voltar para a vila, vamos!
— Tá bom senhor mandante — Maian responde Alik.
Andamos de volta para a vila, e no caminho Alik ouve um barulho de água correndo, e já sabe que estamos perto de um pequeno riacho, pelo qual já passamos antes.
— Vem comigo, peixinha.
Ele manda os outros irem de volta para a vila. Pega em minha mão e me leva para o riacho.
— Vamos lavar sua sandália — ele vai para a beira do riacho, se ajoelha e coloca a sandália na água.
— Obrigada Al, você é muito gentil. Nunca entendi porque gosta tanto de mim. — falo em pé atrás dele, sem jeito, mas querendo saber o porquê dessa gentileza.
— Não sabe?, como não?, acho que já te disse. Mas como sempre gosta de se fazer de desentendida né? — ele diz com um tom amargo e meio grosseiro.
— Eh...eu...Me desculpa Al, eu também gosto de você, mas eu também já te disse que não posso me distrair com um namo...
— Eu sei Iara!! Acho que eu também não tenho meus planos? Acha que é a única que quer sair por aí sonhando pelo mundo? — ele vai se levantando bravo, largando a sandália na água.
— Mas eu não sou egoísta, queria dividi-los com você, só que...!!!
Eu avanço para ele, coloco minhas mãos no seu rosto, o toco levemente, aproximo meus lábios sobre o dele rapidamente, dando-lhe um beijo.
Ele fica paralisado e sem saber como reagir.
Eu me afasto e olho para os olhos dele e digo — Também quero compartilhar meu sonho com você.
Nossos olhos brilham se encontrando em uma conexão de momento.
Ele me puxa pela cintura. Suas mãos grossas e macias deslizam pela minha pele, e eu me arrepio ao sentir seu toque.
Lambendo os lábios, se deixando olhar rapidamente para minha boca, antes de murmurar.
— Eu acredito, peixinha. — ele aproxima seu rosto ao meu.
Então coloca seus lábios entre-abertos sobre a minha boca, quente, profundo. Eu respondo ao beijo sem pensar, colocando minha língua entre os lábios quentes dele, nossas línguas se encostam ficando uma sobre a outra e entrando num ritmo que faz meu corpo inteiro arrepiar.
Ele aperta minha cintura, me cobrindo com um abraço apertado, enquanto meus dedos sobem até a nuca dele, puxando de leve seus cabelos. O beijo se aprofunda, se encaixa, cresce, esquenta...
— Hihihihi!! Que brincadeira estranha. Hihihi!!
Ouvimos uma risada, fina e aguda, vindo da mata. Nós assustamos e viramos para o lado para tentar ver quem é.
— Quem é que está aí!!!? — ele diz.
Quando um vento forte sopra bem na minha direção me deixando com o cabelo bagunçado. E depois mais um vento leve, como um sopro de provocação. Eu já percebo quem é que está por trás disso.
— Sici é você? — digo procurando uma garota travessa, de uma perna, com um gorro rosa na cabeça.
— Não, não sou eu. Hihihihih!! — diz ela fazendo barulho na mata
— Apareça agora espírito trapaceiro — Alik fica incomodado com a presença dela
— Hihihihih!!! Não, não vou! — e ela solta uma leve rajada de vento na cara do Alik.
— Ahhhh!! Não queremos brincar!!!
— Mais você estava brincando com ela.
Sici fala ressentida de pensar que não queremos brincar com ela
— Porque não querem brincar comigo?
— O que?, claro que queremos brincar com você Sici — falo tentando não deixá-la brava, para que ela não invoque um tornado.
— Não é Alik? — logo em seguida sussurro — Diga que sim p***a, quer morrer asfixiado?.
Ele ainda mais incomodado responde.
— Sim sim, claro. Queremos brincar sim.
— Mentira! Você disse que não queria.
Então ela começa a soltar uma ventania forte que vai nós empurrando para trás.
— Vocês são uns chatos mentirosooooos!!! — ela dá uma rajada que nós derruba na água
— Hihihihihih!!!
— Sici Pererê. Sua criança malcriada, vou mandar a CUCA PEGAR VOCÊ!!!
— AAAAAAHHH!! Por favor não
Ela foge como um sopro de vento forte.
— Não acredito nisso.
— Tá vendo, nisso que dá, ficar fazendo amizade com esses espíritos do mato.
— E como acha que vou sobreviver lá fora? Lutando com toda criatura que aparecer?
— É por isso que estamos treinando tanto não é?
Vejo minha sandália que estava largada na água e pego ela. Saímos da água enquanto continuamos discutindo.
— Sabe que nem todos são maus e ameaçadores. Além de que, protegem nossa vila.
— Ei! Olha para mim. A custo de que?
Ele me olha como se quisesse me contar alguma coisa, mas algo o impedisse de fazer isso. Então ele sai andando.
— Espera aí. Vai sair assim?
Não sei o que ele esconde mas eu com certeza quero saber.
— Temos que voltar logo, está ficando tarde
— O que houve? Vai ficar bravo de novo?
A gente acabou de se beijar.
— Depois conversamos — Ele diz seco, e começa a andar mais rápido.
Caminhamos até um arco de pedra em volta de árvores finas com folhas grandes, que disfarçavam ele.
— Pode tocar para eu cantar?
— Joguei o meu mimbý fora. — ele cruza os braços e revira o olho enquanto se vira de costas para mim.
— O quê..? Como assim? Porque?
— Porque é um custo que não quero pagar.
Fico em silêncio por um instante. Não entendo exatamente o que ele quer dizer com isso… mas ainda sei que tem algo por trás.
— Pode… pelo menos cantar então?
— Sabe que eu não canto. — ele suspira.
Reviro meus olhos e dou um suspiro. Ah, não acredito que vou ter que fazer isso sozinha!
Pego meu mimbý – uma flauta feita de bambu taquara, que nasce no pantano do jacaré, cortado por garras de Annis, moldado por magia e despertado com um cântico.
A superfície do mimbý parece viva ao toque. Entalhes de jacarés se enroscam por seu corpo, como se nadassem sob o bambu, e entre eles, uma textura irregular, quase pegajosa, que lembra escamas ainda molhadas. É como segurar algo que acabou de sair do pantano.
Levo aos meus lábios, e sopro, sentindo o gosto amargo de lodo. Como se sentisse o gosto da Cuca — a Black Annis, que protege nossa vila do mundo exterior.
O som que nasce não é apenas melodia — é úmido, profundo, como se viesse debaixo d’água. As notas se arrastam criando uma vibração, que ecoa até as pedras como se puxasse algo invisível delas, e, tudo que precisasse fazer era pedir, invocar, chamar essa coisa. O portal.
Eu canto:
— Cuca venha pegar, sua criança quer ir para casa, para o pantano pode me levar, e em suas escamas pode me abraçar.
Olho para Alik e ele está com os olhos revirados, como se não gostasse disso.
O som do mimbý vibra pelo ar.
As folhas ao redor do arco começam a se mover.
Então, bem no centro do arco de pedra, o espaço começa a se distorcer — como água sendo tocada. As pedras tremem baixo, quase imperceptível, como se algo do outro lado estivesse pressionando para entrar.
O ar fica mais úmido.
Um cheiro de pântano invade.
As notas que toquei parecem não desaparecer — elas se esticam, se arrastam, como fios invisíveis sendo puxados para dentro do arco.
A última palavra que canto parece ser o suspiro de ar que o arco precisa – como uma pedra lançada em um rio – então, o caminho
surge.
Não de uma vez.
Ele se constrói.
Pedra por pedra, brotando do nada, se encaixando lentamente até formar uma estrada que atravessa um vasto campo verde, cercado por árvores.
O caminho foi revelado.
Atravessamos.
E do outro lado, ela nos espera.
Guaranimia.
A vila do sul.