CAPÍTULO XVII

998 Words
O túnel descendente sob a cascata de lava n***a parecia não pertencer ao mundo dos vivos. As paredes não eram feitas de pedra comum, mas de uma substância semitranslúcida e rígida que lembrava âmbar escuro, cruzada por veias grossas que pulsavam com um líquido dourado e luminescente: o verdadeiro sangue da Titã primordial que dera origem a Mittér. A cada passo que dávamos na direção das profundezas, o calor aumentava, misturado ao cheiro sufocante de ozônio, mel queimado e poeira estelar. No fim da escadaria em espiral, o corredor abriu-se em uma caverna colossal cujo teto se perdia na penumbra. No centro daquele santuário ancestral, flutuando sobre um lago de luz líquida e raízes gigantescas entrelaçadas, estava o Coração de Mittér — uma esfera colossal de cristal rubro que emanava o calor e a vida de todo o continente. Mas o cristal estava sendo devorado. Gavinhas de névoa n***a e espinhos de sombra brotavam do corpo de Morvath, cravando-se profundamente na superfície rubra do coração. A entidade já não parecia tão distante quanto no pântano: media quase seis metros de altura, com suas quatro asas rasgadas regenerando-se em filamentos de treva líquida, e seus chifres retorcidos absorvendo a seiva dourada da montanha. Ao sentir a nossa presença, a criatura virou o tronco devagar, revelando uma face sem traços humanos, dominada por duas luas mortas que ardiam com ódio cósmico. — A princesa do mato desceu ao seu próprio túmulo — a voz de Morvath ressoou diretamente dentro dos nossos crânios, pesada como montanhas desmoronando. — Você acha que uma coroa de espinhos e um pedaço de taquara podem conter a fome daquele que viu o nascimento do primeiro sol? — Eu não vim conter sua fome, abominação — respondi, avançando sobre a ponte de raízes petrificadas que levava ao centro do lago de luz. — Eu vim saciá-la com o julgamento que você evitou por milênios! Morvath soltou um rugido estridente e disparou três lanças de escuridão condensada na nossa direção. Alik moveu-se com a velocidade de um felino, projetando o corpo para a frente e rebatendo a primeira lança com a ponta reforçada de sua arma, embora o impacto o fizesse deslizar vários metros sobre a raiz, rasgando suas botas de couro. Tuli estilhaçou dois frascos de resina no chão diante de nós; o vapor resultante ergueu uma cortina de fogo azul que desviou o segundo projétil místico, explodindo em labaredas que iluminaram as abóbadas da caverna. A terceira lança veio em minha direção como um relâmpago sombrio. Ergui a mão direita aberta. A marca de seis pontas respondeu instantaneamente, liberando uma barreira circular de chamas prateadas e purpúreas que estilhaçou o ataque inimigo em cinzas inofensivas. Sem perder o impulso, saltei sobre as raízes retorcidas, aproximando-me do estrado flutuante onde o monstro repousava suas garras. Morvath estendeu sua gigantesca mão de estrelas corrompidas — a mesma mão que me atormentara em pesadelos — tentando agarrar meu pescoço. Seus dedos pontiagudos cortaram o ar com a velocidade de lâminas afiadas. Desta vez, não houve medo nem paralisia. Desviei do golpe deslizando de joelhos sob o braço descomunal da fera, sentindo o vento gélido da escuridão roçar minhas bochechas. Ao me levantar atrás dele, saquei a adaga de ferro estelar com a mão esquerda e firmei a taquara mística na direita. Cravei a lâmina diretamente na junta da asa ferida de Morvath. O monstro urrou de agonia, girando o tronco para me esmagar contra as raízes. — Alik! Tuli! Agora! — gritei com toda a força dos meus pulmões. Tuli correu pela borda da raiz, derramando todo o conteúdo do seu caldeirão portátil sobre as águas douradas do lago. A mistura de sal consagrado, ervas de Guaranímia e sangue do pacto ferveu instantaneamente, criando correntes de luz viva que subiram pelas raízes como cordas incandescentes, prendendo as pernas e a cauda de Morvath em um laço de pura energia sagrada. Alik saltou de uma saliência rochosa com a lança apontada para baixo, cravando o ferro profundamente no ombro direito da criatura, imobilizando seu segundo braço contra a rocha viva do santuário. — O trono é dela, seu verme do eclipse! — rugiu Alik, forçando o peso de todo o seu corpo contra a haste de madeira da lança para manter o titã preso ao chão. Fiquei de pé diante da face monstruosa de Morvath. Levei o mimbý aos lábios e soprei a nota suprema da Titã. A vibração não ecoou apenas na caverna: ela ressoou através de cada veia de Mittér, desde os pinheiros de Guaranímia até as torres mais altas de Obsidian. A Coroa da Titã desprendeu todas as suas constelações prisioneiras, que desceram em um vórtice de fogo estelar puro, envolvendo meu corpo e concentrando-se na palma da minha mão direita. Cravei a mão aberta diretamente no centro do peito sombrio de Morvath. A luz estelar rompeu a escuridão de dentro para fora. As trevas líquidas da criatura estilhaçaram-se como vidro n***o sob o sol do meio-dia. Morvath emitiu um último lamento ensurdecedor antes que seu corpo colossal se dissolvesse em cinzas douradas, sendo absorvido de volta pelo Coração de Mittér, purificando o cristal de qualquer corrupção. A caverna inteira se acalmou. As veias de luz dourada brilharam com vigor restaurado, emitindo um zumbido morno e reconfortante que envolveu nossos corpos feridos. Caí sentada sobre a raiz sagrada, arfando pesadamente enquanto a coroa se assentava suavemente sobre a minha fronte. Alik largou a lança e ajoelhou-se ao meu lado, envolvendo-me em um abraço protetor e cansado, sua respiração quente desfazendo o último resquício de medo em meu peito. Tuli juntou-se a nós dois, segurando minha mão marcada com lágrimas de puro alívio escorrendo por suas bochechas acobreadas. Acima de nós, o som distante das trombetas de Obsidian e dos tambores de Guaranímia anunciava a vitória. A guerra primordial estava terminada. A filha das matas havia curado a terra dos monstros, e uma nova era de paz agora começava sob a luz indelével da Coroa da Titã.
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