CAPÍTULO XII

1465 Words
O eco das vozes monstruosas aclamando meu nome ainda reverberava nas abóbadas de basalto quando senti o verdadeiro peso da Coroa da Titã sobre a minha fronte. Não era um peso de ouro ou de ferro fundido, mas uma gravidade viva, silenciosa e pulsante, como se as próprias montanhas de Mittér tivessem assentado suas raízes dentro da minha mente. As constelações aprisionadas no metal escuro sussurravam em uma frequência que apenas o meu sangue compreendia, tecendo fios de luz estelar por entre meus cabelos e desenhando runas incandescentes ao longo dos meus braços acobreados. Permaneci imóvel no Trono dos Titãs, sustentando o olhar diante da multidão ajoelhada. Abaixo dos sete degraus de ônix, os rostos antes desdenhosos dos lordes de Obsidian exibiam uma mistura volátil de reverência forçada e rancor contido. Lorde Malakar levantou-se lentamente, ajeitando as dobras do seu manto escarlate com uma calma teatral. Seus olhos rubros faiscavam na penumbra, desprovidos da zombaria inicial, mas carregados de uma astúcia ainda mais letal. — O Baile de Skotous tem uma nova senhora — anunciou o grão-duque da Casa Dracul, com a voz cortando o murmúrio da corte como aço frio. — Mas que a mortal não confunda reverência com s******o. Em Mittér, a coroa é um alvo esculpido sobre a cabeça de quem a ostenta. A música deve continuar, mas os aposentos reais aguardam a princesa e sua guarda jurada. Lady Vespera aproximou-se com passos flutuantes, fazendo uma mesura precisa com as mãos entrelaçadas sob a seda n***a. — Por aqui, Vossa Alteza — disse a emissária, com uma sombra de orgulho predatório curvando seus lábios alvos. — Antes que os nobres encontrem novas brechas nos tratados para testar a vossa paciência. Desci os degraus com passos firmes, embora cada músculo do meu corpo protestasse contra a exaustão acumulada das provações. Alik colocou-se imediatamente à minha direita, mantendo a lança em riste e o queixo erguido; seus olhos escuros varriam cada sombra do mezanino, atentos a qualquer movimento súbito dos guerreiros licantropos que ainda arrastavam o Príncipe Fenrir desacordado para fora do salão. Tuli caminhava colada ao meu ombro esquerdo, com as pontas dos dedos segurando discretamente a dobra do meu vestido rasgado, servindo de âncora para que meus joelhos não vacilassem diante da corte. Deixamos o grande salão através de um arco monumental guardado por estátuas colossais de quimeras em repouso. O corredor que levava à ala imperial era escavado diretamente na pedra viva do castelo, iluminado apenas por tochas de fogo púrpura que crepitavam sem soltar fumaça. As portas duplas da câmara real, forjadas em ébano e cravadas com escamas petrificadas de dragões primordiais, fecharam-se atrás de nós com um estrondo abafado, isolando o tumulto do baile no mundo exterior. No instante em que o trinco de ferro se encaixou, deixei o ar escapar do peito e apoiei as costas contra a madeira fria da porta. O peso do mundo parecia desabar de uma só vez. — Pelos espíritos da mata... — sussurrei, levando as mãos trêmulas ao peito. — Nós realmente sobrevivemos a isso. — Sobrevivemos à primeira noite, Iara — corrigiu Alik, fincando a base de sua lança no tapete de veludo carmesim que forrava o aposento. Ele passou a mão livre pelo rosto suado, limpando a poeira e o sangue seco que manchavam sua mandíbula. Havia uma tempestade em seus olhos castanhos — um contraste violento entre o alívio de me ver inteira e o desespero pelo território hostil onde havíamos nos metido. — Você viu os olhares deles? Aqueles vampiros não querem uma rainha mortal; eles querem um pretexto para anular o pacto e marchar sobre o sul. — Eles não marcharão sobre lugar nenhum enquanto ela carregar a marca da Titã — retrucou Tuli com firmeza, abrindo sua bolsa de couro e dispondo frascos de cerâmica e unguentos aromáticos sobre uma mesa de pedra n***a. A jovem bruxa virou-se para mim, seus olhos amendoados brilhando com um carinho que desfez a frieza do castelo. — Venha aqui, peixinha. Sente-se antes que o veneno residual daquele lobo comece a queimar a sua derme. Caminhei até um divã forrado com peles macias e sentei-me devagar. Tuli ajoelhou-se diante de mim, segurando delicadamente minha mão direita. A marca da coroa continuava desenhada na minha palma com perfeição cirúrgica, mas as bordas do corte pulsavam em um tom escuro e arroxeado. Com dedos ágeis e suaves, ela espalhou uma pasta espessa de folhas de mastruz, óleo de copaíba e cânfora sobre a ferida. O ardor foi imediato, arrancando-me um suspiro entre dentes, seguido por uma onda restauradora de frescor que acalmou a queimação dos meus nervos. — Você lutou como uma tempestade — murmurou Tuli em tom baixo, sem erguer os olhos da minha mão, enquanto seus polegares massageavam meus pulsos com uma ternura quase reverente. — Quando você rebateu o ataque de Fenrir... eu vi nos olhos dele o mesmo pavor que os espíritos do pântano sentem diante do fogo. — Eu só não queria que vocês fossem arrastados para a morte por minha causa — respondi, tocando de leve os fios escuros de cabelo que caíam sobre a testa de Tuli. Alik deu dois passos na nossa direção, cruzando os braços fortes sobre o peito marcado por cicatrizes de caça. Sua postura continuava tensa, como uma corda de arco prestes a se romper. — Nós fizemos o juramento por livre vontade, Iara. Mas agora não há volta para Guaranímia. Seus pais... a vila inteira já deve saber da proclamação através dos mensageiros alados de Obsidian. Como acha que eles vão reagir ao descobrirem que a garota que chamavam de selvagem agora é a soberana do mundo dos monstros? — A reação dos mortais é a menor das vossas preocupações — a voz gélida de Lady Vespera cortou o ar antes mesmo que eu pudesse formular uma resposta. A vampira materializou-se das sombras junto à sacada de ônix do quarto, onde a névoa vermelha da lua de sangue banhava as torres pontiagudas da fortaleza. — Os anciãos de Guaranímia se curvarão ou perecerão no esquecimento. A verdadeira tempestade não virá dos campos humanos, mas do abismo que se abriu sob as raízes de Mittér. Ergui o queixo, sentindo a Coroa da Titã queimar de leve sobre a minha fronte ao encarar a nobre de presas afiadas. — Você prometeu respostas quando chegássemos vivos a Obsidian, Lady Vespera. Quem era aquela criatura de chifres e asas no pântano? A coisa que arrancou o coração da Cuca e que sussurrou meu nome quando atravessei as colinas? A emissária perdeu o sorriso altivo. Suas feições aristocráticas endureceram como mármore antigo, e os olhos escarlates fixaram-se na escuridão além da sacada. — Aquele a quem vocês viram é Morvath, o Senhor dos Eclipses — revelou Vespera em um sussurro solene. — Uma entidade primordial banida durante a primeira guerra de Vlad Philips IV. Durante séculos, acreditamos que ele permanecia acorrentado sob o leito de Camazotz. No entanto, o enfraquecimento do pacto ancestral e a decadência das linhagens monstruosas permitiram que sua influência rastejasse de volta às bordas do nosso reino. — E por que a coroa me escolheu? — perguntei, levantando-me do divã e dando um passo em direção à vampira. — Por que uma mortal, e não um dos guerreiros de Drácula ou um príncipe de sangue nobre? Lady Vespera virou-se lentamente, fitando a marca de seis pontas gravada em minha carne. — Porque o sangue dos monstros já está viciado em suas próprias rivalidades e vaidades imperiais. A Titã foi a mãe de todas as criaturas da terra, mas seus primeiros filhos foram forjados no barro e no calor humano. A Coroa não buscou um monstro para dominar os homens; buscou uma humana capaz de domar as feras e unir os dois mundos antes que a escuridão de Morvath engula ambos. Um calafrio percorreu minha espinha. Olhei para a sacada. Lá fora, sob a lua rubra, os vales e florestas de Mittér estendiam-se em uma imensidão selvagem e perigosa. Lembrei-me das palavras da Cuca no coração do pântano: a coroa não chamou uma princesa; chamou uma guerra. Tuli aproximou-se, pousando a mão sobre o meu ombro com firmeza inabalável. Alik posicionou-se ao meu lado, segurando o mimbý restaurado em uma das mãos e a lança na outra, pronto para o que quer que o destino reservasse. — Se eles querem uma guerra — murmurei, sentindo a energia das estrelas pulsar no fundo dos meus olhos e a marca na minha mão brilhar com autoridade régia —, descobrirão que a filha de Guaranímia não foi feita para recuar. Bem distante, nos picos mais sombrios das montanhas além de Obsidian, um rugido abafado fez as fundações do castelo tremerem. A noite da consagração estava encerrada; o amanhecer de sangue estava apenas começando.
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