E L I Z A F I T Z
— Senhorita Fitz? — a secretária me chama, vendo que ainda estou imóvel, petrificada no mesmo lugar desde que ele saiu.
Não é possível.
Essa só pode ser uma brincadeira de muito m*l gosto.
— Senhorita Fitz? A senhora conseguiu a vaga. Pode me acompanhar, por favor? Me chamo Beatrice e vou dar continuidade na sua contratação.
Essa deveria ser uma notícia que me deixaria feliz, mas neste momento, estou apavorada.
Deus! Que vergonha!
Ele não fez nenhuma pergunta. Deve ter achado que me contratando, serei sua prostituta particular.
Meu Deus! Como serei capaz de olhar nos olhos desse homem que já viu até os b***s dos meus s***s de fora?
— Preciso desses documentos — a secretária diz, estendendo-me uma folha impressa. Para a minha sorte, trouxe todos. — Vamos dar entrada na contratação aqui na administração, mas seu registro acontecerá através da empresa terceirizada. Isso porque eles precisam do seu serviço urgente.
— Já tem alguma data prevista para começar? — pergunto.
— Amanhã — ela responde com medo da minha reação. — Teria algum problema?
— Não. Hã…
— Fica muito em cima pra você?
Com medo de perder a oportunidade, n**o.
— Não, é que… eu tenho uma filha, mas posso dar um jeito.
A secretária me lança um olhar hesitante antes de tirar outra folha da impressora.
— A senhora Ford pediu para entregar também algumas normas da casa. Precisam ser seguidas à risca se quiser continuar lá — ela diz, entregando a folha.
Observo a lista de exigências e me assusto com o que leio.
Basicamente, a lista se resume em nada de barulho ou qualquer coisa que se aproxime disso. O senhor Ford também não quer ser incomodado em nenhuma hora do dia, nem esbarrar com a suposta empregada pela casa.
Tudo é muito detalhado, até os equipamentos de limpeza que são proibidos. Resumindo também: Todos que façam barulho.
São várias exigências até sobre deixar objetos caírem no chão ou bater portas e janelas. Solados de sapatos que façam barulho também são proibidos. Entre parênteses, a informação de que um modelo de borracha será disponibilizado.
É claro que não pensei ainda o que vou fazer com Aelin no período em que eu estiver trabalhando, mas terei que dar um jeito. Não posso perder essa oportunidade.
— Posso começar amanhã, sem problemas — confirmo após ler a lista completa.
— Amanhã de manhã, você precisa comparecer neste endereço para assinar o contrato e pegar o seu uniforme.
— Tudo bem — sorrio agradecida e ela me entrega mais uma folha com o endereço e horário.
— E após preencher esse formulário com o seu endereço, tamanho de roupa e dados bancários, está liberada — ela diz, também me entregando uma prancheta.
Sigo todas as instruções que ela me passa, e após guardar todos os papéis que ela me entrega, Beatrice me acompanha até o elevador.
— Parabéns pela vaga e boa sorte! — Ela sorri, esperançosa, e quando as portas do elevador se fecham, comemoro silenciosamente até as portas se abrirem de volta no térreo do prédio.
Basicamente, o senhor Ford, precisa de um fantasma lavando, passando e cozinhando e será um prazer para mim passar despercebida por ele.
***
Pelo que Charlie comenta comigo, Aelin se comportou, então peço mais uma vez para que ele fique com ela amanhã.
— Ela não tem ido para a escolinha? — ele questiona.
— A professora dela está doente — minto.
— Bom, se ela ainda quiser, eu posso cuidar dela, mas não levo muito jeito com criança. Elas se entediam fácil comigo — ele se explica.
— É só amanhã. Prometo. — Uno as duas mãos.
Não quero contar para Charlie que não tenho com quem deixar Aelin, mas também não posso levá-la comigo. Provavelmente, eu tenha que deixar ela sozinha como já fizemos algumas vezes, pelo menos até colocá-la em uma escolinha em tempo integral.
Aelin é obediente, sei que se eu prometer um saco de M&Ms no final do dia, se ela se comportar sozinha, ela com certeza vai tirar de letra. Além disso, ela nunca foi uma criança muito barulhenta, então até encontrar uma escolinha onde ela possa passar o dia, não teremos problemas quanto a isso.
Apesar da lista de exigências do senhor Ford ter me assustado, não existe a mínima possibilidade de deixar essa oportunidade escapar das minhas mãos. Em outra ocasião, eu teria recusado assim que visse ser ele o meu novo chefe, mas não estou em posição de escolha. Pelo menos agora, consigo garantir a Simon que pagarei a dívida do aluguel. É só uma questão de tempo.
— Mamãe. Hoje a gente vai comer? — Aelin pergunta enquanto caminhamos pela calçada de volta para casa.
São uma da tarde e ela ainda não almoçou.
— Vamos, sim — respondo, para ela que segura a minha mão com seus pequenos dedinhos.
Não temos comida no armário, mas tenho ainda algum valor para pedir um delivery.
— O tio Charlie deixou eu escolher um doce da banca dele — ela conta.
— O que você escolheu? — pergunto curiosa.
— Um pacote de cookies para dividir com você — ela conta, balançando a pequena sacola que traz consigo.
Olho para ela orgulhosa e penso até em chorar, porque Aelin já está tão acostumada com a situação em que vivemos, que nossa sobrevivência, até para ela, vem em primeiro lugar.
Não me permito derrubar uma lágrima sequer, ou me sentir menos mãe com isso. Nossa situação de agora em diante vai mudar.
— Guarde para comer mais tarde, pequena. Agora irei pedir comida para nós — digo, pegando as chaves do cadeado do pequeno cômodo em que moramos. — Como foi ficar com o senhor Charlie? — tento saber, dando passagem para ela entrar.
Ela dá de ombros, subindo na cama.
— Lá não tem muitas coisas para fazer. Eu fiquei sentada no banquinho enquanto ele atendia as pessoas — ela diz.
— Mas você recebeu sua recompensa, não recebeu? — ela assente, considerando meu argumento. — A mamãe conseguiu um trabalho, e você ficará com ele amanhã novamente, tudo bem?
Ela não parece satisfeita com o que ouve, mas assente.
— Você vai demorar?
— Irei voltar o mais rápido que puder — prometo.
Ela assente, encolhendo os ombros.
— Quando a gente vai ter uma TV?
— Em breve, amor. Em breve, não estaremos mais aqui. Vamos morar em outro lugar, mais legal e com mais espaço — conto, e os olhos dela brilham enquanto abro a janela para deixar a luz do dia entrar e ventilar o ambiente, que cheira a mofo e umidade. — Agora vá pegar suas sapatilhas para praticar os novos passos que a mamãe ensinou, enquanto o entregador não chega.
— Você me ajuda? — ela pergunta ao encontrar seu par de sapatilhas meia ponta em uma caixinha no guarda-roupa de solteiro que dividimos. Em seguida, senta-se na cama para colocá-las.
Aelin não tem muitos brinquedos para se entreter e desde que aprendeu a andar, comecei a ensinar a ela o ballet. Essa é a única coisa que tenho para deixar como legado para ela. É a única coisa que tenho e o que eu mais amo depois dela. Hoje, essa é a nossa paixão em comum e sei que ela pode ter as mesmas chances que eu quando crescer. Essas são as asas dela, e eu quero ser a responsável por ensiná-la a voar quando a oportunidade aparecer.
Ela costuma praticar a maior parte do dia. Antes era a vovó quem a assistia, agora ela só tem a mim para dar esse apoio. Aelin gosta de se sentir em um espetáculo, ela odeia ter que praticar sozinha, então sempre estou observando e corrigindo seus passos e a postura.
— Vamos começar com o plié hoje — digo, posicionando a haste da cadeira que temos em casa ao lado dela para usar como apoio. — E não vamos esquecer de alinhar a…
— postura — ela completa a minha fala enquanto mostro a ela a postura correta e ela me copia, posicionando-se ao meu lado.
— Plié, Fondu, Adagio, Grand battement — enquanto digo, relembro como efetuar os passos.
Aelin me olha o tempo inteiro com os olhinhos brilhantes.
Após me ver demonstrar, é a vez dela fazer.
Damos apenas uma pausa para comer e decido não almoçar para deixar a janta para ela. Preciso guardar o dinheiro que tenho para ir até a Residência Ford, até que eles comecem a pagar minha passagem. Provavelmente terei essa resposta amanhã na assinatura dos contratos.
E assim nós duas ficamos pelo resto da tarde. Fazendo passos de ballet de mãos dadas como se fosse uma brincadeira.