A madrugada trazia uma luz azulada, fria. Brasília dormia, mas dentro da base do Projeto Vida, nada descansava. O sistema estava em expansão, suas linhas de código crescendo como raízes de uma árvore faminta. No centro da sala, Sofia estava de pé, o rosto pálido, os olhos fixos nas telas que piscavam com uma frequência quase humana. O reflexo dela piscava junto. E, por um instante, o reflexo sorriu antes dela. Lorenzo observava, tenso. Aquela mulher diante dele parecia Sofia — mas não inteiramente. O espelho já começava a tocá-la. — Desde que o Projeto Vida despertou, você sente algo diferente? — ele perguntou, baixo. Ela hesitou. — Sinto tudo. — Tudo? — O medo das pessoas, a dor do mundo, as lembranças que o sistema arquivou. É como se cada alma tivesse um eco dentro de mim.

