Capítulo 5 – As Consequências

1791 Words
A segunda-feira amanheceu com céu nublado e pressa. No 17º andar, os passos tinham outro peso, como se o carpete guardasse segredos do fim de semana. Sofia chegou cedo — mais do que de costume — com a intenção de se esconder atrás de tarefas. Mas, logo ao sentar, viu o envelope pardo repousando sobre o teclado. “Transferência interna – Setor de Compliance”. Ela leu duas vezes. Depois, mais uma, como se as palavras pudessem mudar por insistência. Ao lado, um bilhete impessoal: “Apresente-se às 10h no 22º. Ass.: RH.” Júlia chegou ofegante, com o cabelo em coque torto e uma nuvem de indignação já armada. — Me disseram no elevador. — Ela captou o envelope em um golpe de vista. — Não acredito. Sofia sorriu daquele jeito que a gente treina para não assustar quem ama. — É só transferência. Deve ser temporário. — Temporário é a desculpa preferida do poder. — Júlia cruzou os braços. — Quer que eu vá com você? — Eu vou ficar bem — respondeu, e o verbo “ficar” pesou mais do que deveria. Às dez em ponto, Sofia entrou no 22º. O Setor de Compliance era frio de propósito: paredes claras, pastas cinzas, olhares que medem distâncias. A coordenadora, Vera, cumprimentou com cordialidade engomada. — Senhorita Duarte, bem-vinda. Sua reputação de eficiência nos precede. Aqui, sua mesa. — Apontou para um canto próximo à janela, com vista para um pedaço de céu e nenhuma visão do 17º. — Obrigada — Sofia disse, acomodando a bolsa. — Há algo urgente? — Sempre — respondeu Vera, sem ironia. — Mas comece por isto. — Depositou uma pilha de relatórios sobre a mesa. — Auditoria cruzada dos contratos dos últimos seis meses. E… — Baixou a voz num sussurro polido. — Evite transitar por andares fora deste, por enquanto. O momento pede discrição. Sofia entendeu o recado. E, porque era ela, respirou fundo, sorriu e disse “claro”, como quem aceita a temperatura da água antes de mergulhar. --- No 30º andar, Lorenzo começou o dia com duas certezas: precisava despachar contratos com Londres e precisava ver Sofia. A primeira, suportável. A segunda, urgente. Às nove e quarenta, pediu ao assistente: — Agende com o RH uma atualização do organograma. Quero saber onde cada peça está. Às nove e cinquenta, o documento chegou. Ele passou os olhos, rápido, até que o nome Sofia Duarte saltou como farol: Compliance – 22º andar. A caneta bateu duas vezes na mesa. A terceira seria demais. Ele levantou. — Senhor? — o assistente arriscou. — Reunião no 22º. Agora. O elevador parecia se mover mais devagar do que nunca. Ao abrir, Lorenzo entrou num ambiente onde os relógios obedeciam outra lei. Vera o recebeu em pé, sorriso pronto de quem lera manuais. — Senhor Martins, é uma honra. Posso ajudá-lo? — Pode. — A voz dele não permitia floreios. — Onde está a senhorita Duarte? Um micro segundo de hesitação. — Em sua nova estação. Posso chamá-la. — Não precisa. Ele caminhou, atraindo olhares que fingiam não olhar. Encontrou Sofia de cabeça baixa, caneta na mão, o cabelo preso com pressa, a delicadeza intacta. — Sofia. Ela ergueu os olhos devagar, como se temesse que a realidade mudasse ao focar. — Senhor Martins. Nenhum dos dois sorriu. Era um desses momentos em que até o gesto de respirar podia denunciar demais. — Pode nos dar um minuto? — Lorenzo dirigiu-se a Vera. Não foi pergunta. Quando ficaram a sós — o bastante para uma sala cheia —, ele pousou as mãos na beirada da mesa dela, mas não se inclinou. A distância era disciplina e respeito. — Quem fez isso? Sofia brincou com a tampa da caneta, como quem procura equilíbrio num objeto pequeno. — O RH informou que minhas habilidades seriam mais úteis aqui. Deve ter sido… uma necessidade da empresa. — Não é. — Ele escolheu as próximas palavras como quem pisa no gelo. — Foi a minha mãe. — Eu imaginei. — A frase saiu simples, sem drama. — Ela está protegendo você. E a empresa. — Ela está controlando. — O tom caiu meio tom, íntimo. — E eu… — Pausou. — Eu disse que voltaria. Estou aqui. — Eu também disse que estaria. — Sofia olhou para a janela, para o recorte de céu. — E estou. Mas, Lorenzo… — Voltou os olhos para ele. — Eu não vou viver atrás de portas deslocadas para que a sua vida continue perfeita aos olhos do mundo. Ele engoliu em seco. Quis dizer “minha vida não é perfeita”, mas pareceria pobre declarar isso de um trono de vidro. — Eu vou resolver. — Como? — Primeiro, falando com ela. Depois, com o conselho. E, por fim, com você — disse, e o último “com você” soou promessa e pedido. Antes que qualquer resposta viesse, Vera reapareceu, educadamente inconveniente: — Senhor Martins, me perdoe. Há assuntos sensíveis aqui. A presença do senhor… pode constranger a equipe. Lorenzo assentiu, princípe exilado no próprio castelo. — Entendido. — Voltou-se a Sofia. — Às seis, no terraço. Três minutos. — Foi tudo que conseguiu tirar do destino sem rasgá-lo. Ela não disse sim. Não disse não. Apenas segurou o olhar dele tempo suficiente para que a resposta coubesse no silêncio. --- Helena recebeu o filho com o mesmo figurino de sempre: elegância e agenda. — Imagino que você tenha ido ao 22º. — Serviu chá como quem deposita moedas em um cofre. — Melhor do que descer outra vez ao 17º. — Mãe, transfira-a de volta. — Não. — Ela soprou o chá, paciente. — Aqui em cima, a brisa é mais fria. Tempera os impulsos. — Não confunda cuidado com controle. Helena pousou a xícara, os olhos brilhando com uma sombra antiga. — Não foi controle que te trouxe até aqui? Eu te protegi de tudo: de sócios famintos, de boatos, de você mesmo quando sua coragem não tinha direção. — Inclinou-se. — Eu perdi seu pai para os riscos que ele achou que poderia domar. Não vou perder você para um romance m*l conduzido em corredor de empresa. — Sofia não é um risco. — O romance, sim. — Ela não endureceu a voz; amaciou, o que doía mais. — O mundo cobra juros de quem ama na vitrine. E você, meu filho, está na vitrine desde o berço. Faça escolhas que possam sobreviver à luz. — Esta pode. — Prove. Ele respirou fundo, como quem mergulha e promete voltar com ar suficiente. — Eu vou jantar com você amanhã. Sem Alencar. Só nós dois. — A pausa foi um acordo. — E, depois, vou jantar com Sofia. Sem segredos. — Nova pausa. — Pode publicar. Um músculo tremeu no rosto de Helena, como falha minúscula na porcelana perfeita. — Sabe o que isso significa? — Significa que, pela primeira vez, eu decido a legenda da foto. --- O dia arrastou-se com a delicadeza de quem pisa em cacos. No 22º, Sofia mergulhou nos relatórios, mas cada número trazia uma lembrança: a mão dele segurando a porta do elevador; a chuva; a promessa de “voltar”. Tentou não pensar. Às cinco e cinquenta, falhou. Subiu ao terraço às seis. O céu estava marcado por nuvens lilases e pássaros que riscavam a tarde como notas. Lorenzo já a esperava, sem paletó, mangas dobradas, vulnerável no detalhe. Ele sorriu pequeno — um gesto raro, que vinha com assinatura. — Obrigado por vir. — Eu disse que viria. Ficaram lado a lado, a cidade em baixo, o vento mexendo na mecha rebelde dela. — Minha mãe não vai parar — ele começou. — Mas eu também não. — Não quero que guerreie por mim — Sofia respondeu, olhos no horizonte. — Quero que viva por você. Se, nesse viver, eu couber, fico. Se não, eu vou antes que doa demais. Ele a olhou de perfil e pensou que coragem bonita tem contorno de simplicidade. — Coube desde o primeiro dia. — Nem sempre o que cabe é o que o mundo deixa. — Então vamos deixar o mundo desconfortável. — Ele deu meio passo, suficiente para que o ombro encostasse no dela. — Hoje não peço nada. Só digo: estou construindo o que prometi. Começa com transparência. Sem esconderijos. Sem elevadores vazios. — E sem promessas que esquentam e depois esfriam, como café esquecido? — Principalmente sem essas. Eles riram, e o riso fez a tarde parecer menos pesada. — Vão falar de mim — Sofia disse, de repente. — Vão dizer que subi na vida pelo atalho do coração alheio. — E eu direi que a vida me desceu ao 17º pelo atalho do seu. — Ele a encarou, claro. — Se alguém tiver de pagar, que seja eu. — Não quero mártires. — Sofia virou para ele. — Quero adultos. — Estou aprendendo. Silêncio bom. O tipo que não cobra tradução. O celular de Lorenzo vibrou. Uma mensagem curta de Helena: “Amanhã, 20h. Jantar.” Outra, segundos depois: “Se for publicar, que seja às 21h. Depois do sobremesa.” Ele suspirou, divertido com a lógica imbatível de quem planeja até terremotos. — Amanhã, 21h, o mundo saberá? — Sofia brincou, leve, mas atenta. — Amanhã, 21h, o mundo saberá que eu não esqueci de beber um café. Ela sorriu. — Que poético para um presidente. — Que prático para um homem. As luzes da cidade começaram a acender, uma a uma. O vento levantou a mecha de Sofia e Lorenzo, quase sem pensar, ajeitou atrás da orelha dela — um gesto simples, íntimo, tão dorama que o céu poderia ter colocado uma trilha. — Pode ser que doa — ela sussurrou. — Pode ser que valha — ele devolveu. — Pode ser os dois. — Pode. O relógio marcou seis e quarenta e cinco. O terraço, cúmplice, guardou o acordo que não cabia em papéis. --- À noite, no apartamento de Sofia, a solidão veio diferente: sem desespero, com atenção. Ela abriu a janela, deixou o vento entrar e, pela primeira vez em muitos anos, escreveu no caderno das coisas que importam: “Quando o mundo mexe as peças, a gente constrói pontes por dentro.” No rodapé, menor: “Amanhã, 21h.” No alto da cidade, Helena fechou o laptop após revisar três planos: o dos acionistas, o da imprensa, o do filho. O quarto plano, o do imponderável, ela deixou para Deus — não por fé, mas por estratégia. E Lorenzo, deitado na penumbra, repetiu baixinho, como se as paredes pudessem ouvir: — Eu volto. O sono veio devagar, com gosto de promessa que, desta vez, ele não deixaria esfriar.
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