Capítulo 1

1464 Words
Alessandra tinha 9 anos e conhecia cada canto do morro onde morava. Conhecia a escadaria que levava até a venda do seu Zé, o campinho onde costumava brincar com os amigos e até o barulho dos fogos que, de longe, anunciavam quando alguma coisa estava acontecendo. Morava com o pai, Roberto, e a madrasta, Sônia, em uma pequena casa de dois cômodos no alto da comunidade. Roberto era um homem simples, trabalhador e, acima de tudo, carinhoso com a filha. — Acorda, filha. Você vai perder a hora da escola. Alessandra puxou o cobertor até o rosto. — Só mais cinco minutos, pai. Roberto riu e abriu a janela. — Você fala isso todos os dias. — Porque todos os dias eu preciso de mais cinco minutos. — E todos os dias eu tenho que ouvir a mesma desculpa. Alessandra finalmente abriu os olhos. — Bom dia, pai. — Bom dia, minha princesa. Ele beijou a testa dela. Da cozinha, Sônia soltou um suspiro impaciente. — Princesa… Só falta colocar uma coroa nessa menina. Roberto olhou para a esposa. — Sônia, não começa. — Eu não comecei nada. Alessandra levantou da cama e foi até a cozinha. — Bom dia. Sônia continuou mexendo o café sem sequer olhar para ela. — Tem pão na mesa. — Obrigada. — E não deixa essa louça aí depois. Alessandra respirou fundo. — Eu não ia deixar. — Sempre fala isso. Roberto percebeu o clima e tentou mudar de assunto. — Alessandra, hoje você vai encontrar a Joana? O rosto da menina se iluminou. — Vou! A gente combinou de estudar depois da escola. — Estudar ou conversar? — Os dois. — Então estudem primeiro. — Pode deixar. Sônia colocou a xícara sobre a mesa com força. — Essa menina passa mais tempo na rua do que dentro de casa. Alessandra baixou os olhos. Roberto se aproximou da filha. — Não liga. Vai se arrumar. Antes de sair, ele segurou a mão dela. — Qualquer coisa, me liga. — Tá bom. — Eu te amo. Alessandra sorriu. — Também te amo, pai. Sônia observou os dois em silêncio. ⸻ Na escola, Alessandra encontrou Joana sentada no muro em frente ao portão. — Até que enfim! — Minha madrasta estava implicando comigo. Joana revirou os olhos. — De novo? — Como sempre. — Eu não sei como você aguenta. — Meu pai faz tudo ficar mais fácil. Joana sorriu. — Seu pai é incrível. — É mesmo. As duas começaram a caminhar. Foi quando Pedro apareceu correndo atrás delas. — Espera aí! Joana olhou para trás. — Você está atrasado de novo. — Eu não estou atrasado. Vocês que chegaram cedo demais. Alessandra riu. — Essa foi boa. Pedro era um dos melhores amigos das duas. Tinha11 anos e vivia tentando parecer corajoso, mesmo quando estava morrendo de medo. — Vocês vão para o campinho depois? — perguntou ele. — Eu vou — respondeu Alessandra. — Eu também — disse Joana. — Então fechado. Os três seguiram juntos. Naquele dia, Alessandra estava feliz. Não fazia ideia de que seria a última manhã em que veria o pai vivo. ⸻ No fim da tarde, a comunidade começou a mudar. Primeiro vieram os boatos. Depois, as pessoas começaram a fechar portas e janelas. Joana estava na rua quando ouviu alguém gritar: — Entra todo mundo para casa! Ela correu. — Alessandra! A amiga apareceu no fim da viela. — O que aconteceu? — Não sei. Estão dizendo que vai ter invasão. O coração de Alessandra disparou. — Meu pai está trabalhando. — Ele já deve estar voltando. — Eu preciso ir para casa. Joana segurou o braço dela. — Espera! — Eu preciso saber se ele chegou. — Alessandra, é perigoso! — É meu pai! Ela saiu correndo. Joana ficou parada por alguns segundos e depois foi atrás. — Alessandra! ⸻ Quando Alessandra chegou em casa, Sônia estava trancando a porta. — Onde você estava? — Eu estava com a Joana. Cadê meu pai? Sônia não respondeu. — Cadê meu pai? — Ele ainda não chegou. Alessandra pegou o celular. — Vou ligar para ele. — Não adianta. — Por quê? — A rede caiu. Alessandra olhou pela janela. Ao longe, era possível ouvir gritos, sirenes e sons de tiros. Ela ficou pálida. — Ele vai chegar. Sônia permaneceu em silêncio. — Ele sempre chega — Alessandra repetiu. A madrasta olhou para ela. Por um instante, toda a raiva que costumava demonstrar desapareceu. — Vai para o quarto. — Eu quero esperar meu pai. — Alessandra… — Eu quero esperar! A menina se sentou no chão, perto da porta. — Ele prometeu que ia voltar. ⸻ Horas se passaram. Joana apareceu na porta acompanhada de sua mãe, Dona Lúcia, uma mulher conhecida por sempre ajudar os moradores da comunidade. — Alessandra! Ela correu até a amiga. — Joana… — Você está bem? — Meu pai ainda não voltou. Joana não conseguiu responder. Dona Lúcia se aproximou. — Minha filha, vamos ficar aqui com vocês. — Eu quero meu pai. — Eu sei. — Ele está vivo, não está? Dona Lúcia olhou para Sônia. As duas trocaram um olhar que Alessandra não percebeu. — Vamos esperar notícias — disse Dona Lúcia. A noite parecia não terminar. ⸻ Já passava da meia-noite quando alguém bateu na porta. Todos ficaram em silêncio. Sônia se levantou. — Quem é? — Sou eu. Marcos. Era um vizinho. Sônia abriu apenas uma fresta. Marcos entrou rapidamente. Seu rosto estava sério. — Eu tenho uma notícia. Alessandra se levantou. — É meu pai? Marcos abaixou os olhos. — Roberto estava voltando para casa. — Ele está machucado? Marcos respirou fundo. — Alessandra… — Fala! — Seu pai foi atingido durante a invasão. O mundo pareceu parar. — Não. — Sinto muito. — Não. Ela começou a balançar a cabeça. — Não, não, não… Joana a abraçou. — Alessandra… — Meu pai não morreu. Ninguém respondeu. — Ele não morreu! — gritou ela. Sônia ficou imóvel. Alessandra correu até a porta. — Eu quero ver meu pai! Marcos segurou seus ombros. — Não dá. — Eu quero ver! — Alessandra, não dá. Ela caiu de joelhos. — Ele prometeu… Joana se ajoelhou ao lado dela. — Estou aqui. — Ele prometeu que ia voltar… — Eu sei. — Eu falei que amava ele hoje de manhã. Joana começou a chorar. — Ele sabia. Alessandra apertou os olhos. — Eu devia ter ficado em casa. — Não fala isso. — Eu devia ter ligado mais vezes. — Você não tem culpa. — Eu devia ter dito mais coisas. Joana segurou seu rosto. — Ele sabia que você amava ele. ⸻ Na manhã seguinte, o morro parecia diferente. As ruas estavam vazias. As pessoas falavam baixo. Alessandra estava sentada na escadaria em frente à casa, segurando uma fotografia do pai. Joana sentou ao lado dela. Por alguns minutos, nenhuma das duas falou. — Ele me chamava de princesa — disse Alessandra. — Eu lembro. — Eu achava engraçado. — Você sempre reclamava. Alessandra sorriu entre as lágrimas. — Eu dizia que não era criança. Joana segurou sua mão. — E agora? — Agora eu queria ser criança de novo. Joana não soube o que dizer. Alessandra olhou para a fotografia. — Eu não tenho mais ninguém. — Tem a mim. — Você não entende. — Talvez eu não entenda tudo. Mas não vou deixar você sozinha. Alessandra encostou a cabeça no ombro da amiga. ⸻ Dentro de casa, Sônia observava as duas pela janela. Dona Lúcia estava atrás dela. — Você precisa conversar com ela. Sônia cruzou os braços. — Ela nunca gostou de mim. — E você nunca facilitou. Sônia ficou em silêncio. — Roberto amava aquela menina — continuou Dona Lúcia. — E agora ela precisa de alguém. — Eu também perdi meu marido. — Eu sei. Sônia olhou para a fotografia que estava sobre a mesa. — Eu amava Roberto. — Então demonstre isso. Sônia respirou fundo. Pela primeira vez, parecia não saber o que fazer. Ela saiu de casa e caminhou até Alessandra. — Alessandra… A menina levantou os olhos. — O que foi? Sônia sentou ao lado dela. — Eu sei que você está sofrendo. Alessandra ficou em silêncio. — Seu pai também era importante para mim. — Você não gostava de mim. Sônia abaixou a cabeça. — Talvez eu tenha descontado em você coisas que não eram culpa sua. Alessandra não respondeu. — Eu sinto muito. A menina apertou a fotografia contra o peito. — Eu só queria meu pai de volta. Sônia começou a chorar. — Eu também. As duas ficaram em silêncio. Não houve abraço. Não naquele momento. Ainda havia muita mágoa entre elas. Mas, pela primeira vez, havia uma pequena a******a. ⸻
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