Alessandra tinha 9 anos e conhecia cada canto do morro onde morava.
Conhecia a escadaria que levava até a venda do seu Zé, o campinho onde costumava brincar com os amigos e até o barulho dos fogos que, de longe, anunciavam quando alguma coisa estava acontecendo.
Morava com o pai, Roberto, e a madrasta, Sônia, em uma pequena casa de dois cômodos no alto da comunidade.
Roberto era um homem simples, trabalhador e, acima de tudo, carinhoso com a filha.
— Acorda, filha. Você vai perder a hora da escola.
Alessandra puxou o cobertor até o rosto.
— Só mais cinco minutos, pai.
Roberto riu e abriu a janela.
— Você fala isso todos os dias.
— Porque todos os dias eu preciso de mais cinco minutos.
— E todos os dias eu tenho que ouvir a mesma desculpa.
Alessandra finalmente abriu os olhos.
— Bom dia, pai.
— Bom dia, minha princesa.
Ele beijou a testa dela.
Da cozinha, Sônia soltou um suspiro impaciente.
— Princesa… Só falta colocar uma coroa nessa menina.
Roberto olhou para a esposa.
— Sônia, não começa.
— Eu não comecei nada.
Alessandra levantou da cama e foi até a cozinha.
— Bom dia.
Sônia continuou mexendo o café sem sequer olhar para ela.
— Tem pão na mesa.
— Obrigada.
— E não deixa essa louça aí depois.
Alessandra respirou fundo.
— Eu não ia deixar.
— Sempre fala isso.
Roberto percebeu o clima e tentou mudar de assunto.
— Alessandra, hoje você vai encontrar a Joana?
O rosto da menina se iluminou.
— Vou! A gente combinou de estudar depois da escola.
— Estudar ou conversar?
— Os dois.
— Então estudem primeiro.
— Pode deixar.
Sônia colocou a xícara sobre a mesa com força.
— Essa menina passa mais tempo na rua do que dentro de casa.
Alessandra baixou os olhos.
Roberto se aproximou da filha.
— Não liga. Vai se arrumar.
Antes de sair, ele segurou a mão dela.
— Qualquer coisa, me liga.
— Tá bom.
— Eu te amo.
Alessandra sorriu.
— Também te amo, pai.
Sônia observou os dois em silêncio.
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Na escola, Alessandra encontrou Joana sentada no muro em frente ao portão.
— Até que enfim!
— Minha madrasta estava implicando comigo.
Joana revirou os olhos.
— De novo?
— Como sempre.
— Eu não sei como você aguenta.
— Meu pai faz tudo ficar mais fácil.
Joana sorriu.
— Seu pai é incrível.
— É mesmo.
As duas começaram a caminhar.
Foi quando Pedro apareceu correndo atrás delas.
— Espera aí!
Joana olhou para trás.
— Você está atrasado de novo.
— Eu não estou atrasado. Vocês que chegaram cedo demais.
Alessandra riu.
— Essa foi boa.
Pedro era um dos melhores amigos das duas. Tinha11 anos e vivia tentando parecer corajoso, mesmo quando estava morrendo de medo.
— Vocês vão para o campinho depois? — perguntou ele.
— Eu vou — respondeu Alessandra.
— Eu também — disse Joana.
— Então fechado.
Os três seguiram juntos.
Naquele dia, Alessandra estava feliz.
Não fazia ideia de que seria a última manhã em que veria o pai vivo.
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No fim da tarde, a comunidade começou a mudar.
Primeiro vieram os boatos.
Depois, as pessoas começaram a fechar portas e janelas.
Joana estava na rua quando ouviu alguém gritar:
— Entra todo mundo para casa!
Ela correu.
— Alessandra!
A amiga apareceu no fim da viela.
— O que aconteceu?
— Não sei. Estão dizendo que vai ter invasão.
O coração de Alessandra disparou.
— Meu pai está trabalhando.
— Ele já deve estar voltando.
— Eu preciso ir para casa.
Joana segurou o braço dela.
— Espera!
— Eu preciso saber se ele chegou.
— Alessandra, é perigoso!
— É meu pai!
Ela saiu correndo.
Joana ficou parada por alguns segundos e depois foi atrás.
— Alessandra!
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Quando Alessandra chegou em casa, Sônia estava trancando a porta.
— Onde você estava?
— Eu estava com a Joana. Cadê meu pai?
Sônia não respondeu.
— Cadê meu pai?
— Ele ainda não chegou.
Alessandra pegou o celular.
— Vou ligar para ele.
— Não adianta.
— Por quê?
— A rede caiu.
Alessandra olhou pela janela.
Ao longe, era possível ouvir gritos, sirenes e sons de tiros.
Ela ficou pálida.
— Ele vai chegar.
Sônia permaneceu em silêncio.
— Ele sempre chega — Alessandra repetiu.
A madrasta olhou para ela.
Por um instante, toda a raiva que costumava demonstrar desapareceu.
— Vai para o quarto.
— Eu quero esperar meu pai.
— Alessandra…
— Eu quero esperar!
A menina se sentou no chão, perto da porta.
— Ele prometeu que ia voltar.
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Horas se passaram.
Joana apareceu na porta acompanhada de sua mãe, Dona Lúcia, uma mulher conhecida por sempre ajudar os moradores da comunidade.
— Alessandra!
Ela correu até a amiga.
— Joana…
— Você está bem?
— Meu pai ainda não voltou.
Joana não conseguiu responder.
Dona Lúcia se aproximou.
— Minha filha, vamos ficar aqui com vocês.
— Eu quero meu pai.
— Eu sei.
— Ele está vivo, não está?
Dona Lúcia olhou para Sônia.
As duas trocaram um olhar que Alessandra não percebeu.
— Vamos esperar notícias — disse Dona Lúcia.
A noite parecia não terminar.
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Já passava da meia-noite quando alguém bateu na porta.
Todos ficaram em silêncio.
Sônia se levantou.
— Quem é?
— Sou eu. Marcos.
Era um vizinho.
Sônia abriu apenas uma fresta.
Marcos entrou rapidamente.
Seu rosto estava sério.
— Eu tenho uma notícia.
Alessandra se levantou.
— É meu pai?
Marcos abaixou os olhos.
— Roberto estava voltando para casa.
— Ele está machucado?
Marcos respirou fundo.
— Alessandra…
— Fala!
— Seu pai foi atingido durante a invasão.
O mundo pareceu parar.
— Não.
— Sinto muito.
— Não.
Ela começou a balançar a cabeça.
— Não, não, não…
Joana a abraçou.
— Alessandra…
— Meu pai não morreu.
Ninguém respondeu.
— Ele não morreu! — gritou ela.
Sônia ficou imóvel.
Alessandra correu até a porta.
— Eu quero ver meu pai!
Marcos segurou seus ombros.
— Não dá.
— Eu quero ver!
— Alessandra, não dá.
Ela caiu de joelhos.
— Ele prometeu…
Joana se ajoelhou ao lado dela.
— Estou aqui.
— Ele prometeu que ia voltar…
— Eu sei.
— Eu falei que amava ele hoje de manhã.
Joana começou a chorar.
— Ele sabia.
Alessandra apertou os olhos.
— Eu devia ter ficado em casa.
— Não fala isso.
— Eu devia ter ligado mais vezes.
— Você não tem culpa.
— Eu devia ter dito mais coisas.
Joana segurou seu rosto.
— Ele sabia que você amava ele.
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Na manhã seguinte, o morro parecia diferente.
As ruas estavam vazias.
As pessoas falavam baixo.
Alessandra estava sentada na escadaria em frente à casa, segurando uma fotografia do pai.
Joana sentou ao lado dela.
Por alguns minutos, nenhuma das duas falou.
— Ele me chamava de princesa — disse Alessandra.
— Eu lembro.
— Eu achava engraçado.
— Você sempre reclamava.
Alessandra sorriu entre as lágrimas.
— Eu dizia que não era criança.
Joana segurou sua mão.
— E agora?
— Agora eu queria ser criança de novo.
Joana não soube o que dizer.
Alessandra olhou para a fotografia.
— Eu não tenho mais ninguém.
— Tem a mim.
— Você não entende.
— Talvez eu não entenda tudo. Mas não vou deixar você sozinha.
Alessandra encostou a cabeça no ombro da amiga.
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Dentro de casa, Sônia observava as duas pela janela.
Dona Lúcia estava atrás dela.
— Você precisa conversar com ela.
Sônia cruzou os braços.
— Ela nunca gostou de mim.
— E você nunca facilitou.
Sônia ficou em silêncio.
— Roberto amava aquela menina — continuou Dona Lúcia. — E agora ela precisa de alguém.
— Eu também perdi meu marido.
— Eu sei.
Sônia olhou para a fotografia que estava sobre a mesa.
— Eu amava Roberto.
— Então demonstre isso.
Sônia respirou fundo.
Pela primeira vez, parecia não saber o que fazer.
Ela saiu de casa e caminhou até Alessandra.
— Alessandra…
A menina levantou os olhos.
— O que foi?
Sônia sentou ao lado dela.
— Eu sei que você está sofrendo.
Alessandra ficou em silêncio.
— Seu pai também era importante para mim.
— Você não gostava de mim.
Sônia abaixou a cabeça.
— Talvez eu tenha descontado em você coisas que não eram culpa sua.
Alessandra não respondeu.
— Eu sinto muito.
A menina apertou a fotografia contra o peito.
— Eu só queria meu pai de volta.
Sônia começou a chorar.
— Eu também.
As duas ficaram em silêncio.
Não houve abraço.
Não naquele momento.
Ainda havia muita mágoa entre elas.
Mas, pela primeira vez, havia uma pequena a******a.
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