03: A Cobertura e o Ciúme Proibido

2119 Words
Eu voltei do telhado daquele arranha-céu em Manhattan sentindo a fúria e o medo me consumindo. O ar de Nova Iorque não limpava a sujeira da minha alma. Efe Karaman não era apenas o meu alvo; ele era o meu cúmplice involuntário na minha própria traição. Eu tinha justificado meu crime pensando que ele era uma vítima da Máfia, mas ele era apenas um criminoso poderoso, e a raiva por ter sido enganada era um veneno no meu sangue. Eu me sentei na minha mesa, tentando parecer concentrada no calendário dele. A pressão de ter as credenciais dele era imensa. Eu tinha a chave de todo o seu império, mas o Projeto X (a rede de lavagem do Aziz Selim) estava enterrado em camadas de criptografia. Era como tentar decifrar um pergaminho antigo com uma colher de plástico. Eu precisava de algo mais. Efe saiu do escritório, e eu comecei a tentar acessar a rede de longe. Nada. O sistema dele era um labirinto, uma fortaleza digital que zombava dos meus esforços. Eu precisava de algo mais físico, algo mais direto. Eu precisava estar lá, dentro, para poder sentir onde estava a falha. Ele voltou dez minutos depois, sorrindo. Mas não era um sorriso de verdade; era o sorriso cínico de quem estava preparando uma armadilha, de quem já sabia a minha jogada e estava me dando a corda para eu mesma me enforcar. "Sra. Yıldırım, cancele todos os meus compromissos para esta noite." Ele disse, recostando-se na sua cadeira de couro, me observando com aqueles olhos que pareciam me despir a alma, avaliando o quão profunda era a minha mentira. "Algum imprevisto, Sr. Karaman?" "Não. É um imprevisto necessário. Nós vamos trabalhar." A voz dele era baixa e dominadora, e cada palavra era uma marreta na minha parede de controle. "Às sete da noite, eu a buscarei na sua mesa. Nosso escritório para hoje será no meu apartamento. Tenho dossiers confidenciais lá que não podem sair da cobertura." Meu corpo congelou. O medo deu lugar ao desejo e à vergonha. Ele estava me chamando para o seu santuário pessoal, para a sua toca. Era um teste. Uma provocação. Ele estava me dando a oportunidade de me afogar. "É… é uma ordem, Sr. Karaman?" Perguntei, forçando a voz a ser neutra, a máscara de profissionalismo pesando no meu rosto. "É a sua primeira lição sobre o que significa ser a sombra do Efe Karaman, Sanem. A sua vida pessoal acabou. Pense nisso como uma extensão do seu horário de trabalho. Vista-se apropriadamente. Eu não quero que você envergonhe a Karaman Global na portaria." "Sim, Sr. Karaman." Eu apertei a caneta na minha mão, sentindo a raiva dele me dominar, mas também uma excitação perigosa. Eu estava entrando no jogo dele, e o prêmio era a minha vida. Às sete em ponto, ele estava parado na minha mesa. Eu tinha corrido para o banheiro para retocar minha maquiagem. Eu precisava parecer impecável, fria e profissional. A Máfia me disse para seduzi-lo; Efe me deu a chance. Eu vestia um tailleur preto, o único que eu tinha, com uma blusa de seda que me fazia sentir um pouco mais poderosa do que eu realmente era. Entramos no elevador privativo que levava diretamente à sua cobertura. Aquele arranha-céu parecia ter sido construído para ele, um monumento à sua riqueza e ao seu poder. Efe estava calado, olhando para frente, a mandíbula tensa. A tensão entre nós era palpável, cortante, mas, o que era mais aterrorizante, era indesejada, pois meu corpo respondia ao cheiro amadeirado do seu perfume e à proximidade do seu corpo forte. Saímos do elevador e eu entrei no seu apartamento. Não era um apartamento; era um ninho de gavião suspenso sobre a cidade. O chão era de mármore polido, as paredes de vidro davam uma visão 360 graus de Manhattan, como se o mundo estivesse a seus pés. Eu podia ver o Hudson River e as luzes da cidade, um mar de estrelas elétricas abaixo de nós. O luxo era obsceno, opressor, e me fazia sentir como uma formiga. "É impressionante, Sr. Karaman." Sussurrei, sentindo o medo da minha insignificância, da minha posição precária na sua teia. "É uma prisão dourada, Sra. Yıldırım." Ele disse, com um tom de cinismo que me atingiu, uma ponta de amargura que revelava a sua própria solidão. "Eu só confio no que posso ver. E aqui, eu vejo tudo." Ele me levou para o escritório dele, que era ainda mais high-tech que o da Karaman Global. Era a central de controle de um império. Havia uma enorme mesa de madeira escura e um cofre de segurança que parecia ter sido tirado de um banco suíço, embutido na parede como um tumor de metal. "O trabalho é simples." Ele me entregou uma pasta grossa, pesada. "É um contrato de fusão. Eu quero que você revise cada cláusula, cada vírgula. Se houver um erro, a culpa será sua, e as consequências... bem, você não vai gostar." A ameaça era velada, mas clara. "Eu voltarei em uma hora. Fique à vontade para se servir de vinho ou café na cozinha. Não saia do escritório, e não toque em nada além dos meus papéis." Ele me deixou sozinha. Outro teste. Ele me deu a oportunidade de invadir, e me deu uma ordem clara para não sair do lugar. Ele estava jogando com a minha ambição, ou com o meu desespero. Ele sabia que eu estava procurando uma falha e estava me dando a isca. Eu não perdi tempo. Abri a pasta; o contrato era complexo e chato, um oceano de jargão legal. Mas a minha prioridade era o Projeto X. A adrenalina subiu, transformando o medo em foco. O desejo de vencer a Máfia e Efe era a minha única meta, o único motivo pelo qual eu ainda estava respirando naquele ninho. Eu sabia que o cofre era o meu alvo. Usei o acesso clonado para escanear a rede de segurança. O cofre estava ligado à rede local, mas era impossível de invadir de fora. Eu precisava de acesso físico. Eu sorri, um sorriso frio e predador. A senha era o meu próximo obstáculo. Eu consegui entrar no sistema de acesso do cofre com o exploit que a Máfia me deu, burlando a primeira camada de segurança. A senha, porém, era um enigma de oito dígitos. Eu tinha três tentativas. Eu tentei datas, nomes, combinações óbvias, mas nada funcionava. A senha era um enigma: A única mentira é o perdão. Eu não entendi o significado, mas parecia algo pessoal. O Efe era um mestre em criptografia psicológica. Eu voltei à minha mesa e fingi revisar os contratos. Eu estava batendo o pé, frustrada. Efe voltou, mas não estava sozinho. Ele entrou na sala, sorrindo. E, pela primeira vez, vi um sorriso de verdade, um sorriso que iluminava o seu rosto e o fazia parecer quase humano. Ao lado dele, uma mulher. "Sanem, essa é Aslı. Ela é uma amiga." Uma mulher linda, vestindo um vestido de gala vermelho-sangue que valia o meu salário anual, estava com ele. Ela tinha um cabelo escuro e liso, caindo em cascata sobre os ombros, e um sorriso confiante, o tipo de sorriso que só a riqueza e a beleza podiam dar. Ela olhou para mim de cima a baixo com um ar de desprezo, como se eu fosse um pedaço de poeira no seu tapete persa. "Oi, você deve ser a nova secretária." Ela disse, com a voz melosa e superior, um sotaque polido de quem nunca tinha se sujado na vida. "Sanem Yıldırım. Prazer." Eu forcei o meu sorriso de máscara, sentindo a veia na minha testa latejar. A raiva era dirigida àquela mulher por estar tão perto dele, e a mim mesma por sentir o ciúme irracional, proibido, que me queimava o estômago. Efe colocou a mão nas costas de Aslı, um gesto possessivo que me atingiu no peito como um tiro. O desejo por ele, misturado ao ciúme, era uma tortura. Eu era a traidora, a agente dupla, e ele era meu inimigo. Mas o fato de outra mulher estar ali, tocando-o, me causou uma dor profunda, uma vergonha que eu não podia explicar. "Aslı estava preocupada com o meu acidente recente. Ela veio me fazer companhia." Efe disse, com um tom íntimo, de quem estava compartilhando um segredo. Ele estava me provocando. Ele queria ver minha reação, testar minha máscara. "Que bom que o senhor tem amigos tão solícitos." Respondi, minha voz fria, tentando esconder o ciúme que era um soco no meu peito. Eles saíram para a sala de estar, rindo. Eu podia ouvir a voz de Aslı, doce e irritante, e o riso rouco de Efe. Eu voltei para o contrato, mas meus olhos estavam fixos na porta, meus ouvidos atentos a cada sussurro, a cada risada. "Por que eu me importo? Ele é o meu alvo. Ele é o meu inimigo. O meu ciúme é uma fraqueza que vai me m***r. É o tipo de emoção que a Máfia pune com a morte." Meu celular barato da Máfia vibrou na minha coxa. Yusuf. A adrenalina voltou, mais forte agora. Eu peguei o celular e li a mensagem. Yusuf: A Máfia sabe que o cofre do Efe no apartamento tem o nosso Manifesto. O Manifesto contém todas as transferências de propina dos últimos seis meses. É o nosso seguro. Você tem que roubá-lo hoje. Eu estou mandando a senha no seu e-mail. Não falhe. Sua vida e a de sua família dependem disso. O Aziz Selim está furioso. A pressão era insuportável. Se a Máfia perdesse o Manifesto, o Aziz Selim podia me m***r com as próprias mãos. Eu tinha que agir, e rápido. Eu voltei para o sistema do cofre, tremendo. A senha chegou no meu e-mail criptografado. Era uma frase de efeito, cínica e sombria, a marca registrada do Aziz Selim. A senha: "Eu sou o perigo." Tentei a nova senha. Digitei: "Eu sou o perigo." A luz mudou de vermelho para verde. Um clique alto soou na sala. Acesso concedido. Eu abri o cofre. Dentro, havia maços de dinheiro em diferentes moedas, joias que brilhavam como fogo, e um único dossier vermelho. O Manifesto. Pesado, grosso, com um selo de cera quebrado. Eu peguei o ficheiro e tirei fotos de cada página com o tablet. Eu estava agindo rápido, o suor escorrendo pela minha nuca. Eu não ia entregar o original. Eu precisava de uma cópia de segurança. A Máfia tinha me ensinado a nunca confiar em ninguém. Enquanto a última foto era carregada, a porta do escritório abriu. Era o Efe Karaman. Ele estava sozinho. A Aslı tinha sumido. "Sanem, eu voltei. Aslı teve que ir, uma emergência estúpida." O tom dele era estranhamente suave, mas o sorriso tinha desaparecido. Ele se aproximou da mesa, seus olhos me avaliando. Eu fechei o cofre com um estrondo silencioso e virei, tentando esconder o tablet sob a pasta de contratos. "O trabalho está quase pronto, Sr. Karaman. Eu só preciso checar as cláusulas de indenização." Ele sorriu, mas o olhar era puro cinismo, puro predador. Ele me olhou nos olhos e se aproximou, me encurralando entre a mesa e o corpo dele. A respiração dele estava quente no meu pescoço. "Você revisou o contrato, Sanem? Ou você estava ocupada com outras coisas?" A voz dele era um sussurro perigoso. "Eu vi o seu rosto quando a Aslı entrou. Eu vi o seu ciúme. Você tem esse ar de santidade, mas por dentro, você é pura fúria e desejo, Sanem. Eu gosto disso." Eu congelei. Ele tinha me visto. Ele sabia do meu desejo proibido, da minha fraqueza. "O meu trabalho é a minha prioridade." Minha voz saiu um fio, uma mentira que ele desvendou com o olhar. Ele me olhou nos olhos, a intensidade dele me consumindo. O desejo entre nós era um fogo que eu não podia apagar, mas o medo era maior. "Eu duvido. Você não é só minha secretária, Sanem. Você é a minha traidora silenciosa. E eu gosto disso. Isso me diverte." De repente, ele me puxou, o contato com o corpo dele era um choque elétrico, um curto-circuito. Ele não me beijou, mas me segurou com força, meu corpo colado ao dele, incapaz de se mover. "Você achou o Manifesto, Sanem?" Ele sussurrou no meu ouvido. Ele sabia de tudo. "A Máfia te mandou roubar? O Manifesto é o meu seguro. E agora você tem a cópia. Se a Máfia te usar, eu a destruo. Você é minha agora." Eu estava encurralada. Ele sabia que eu era a traidora, E o Manifesto estava no meu e-mail, um cheque Mate sem fundo na minha própria morte.
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