Sebastián saiu furioso do escritório de advocacia como um furacão de fúria contida, ignorando completamente o segurança que educadamente segurou a porta para ele. O ar da cidade parecia insuficiente. Ele entrou no carro e arrancou em disparada, com um guincho de pneus que ecoou nas paredes de concreto do estacionamento como um grito de guerra. Enquanto manobrava com uma mão para evitar o trânsito intenso da Quinta Avenida, com a outra procurava freneticamente o número do seu escritório no sistema viva-voz, sentindo o tempo escorrer por entre os dedos.
— Senhor? Respondeu a sua secretária, com a voz carregada de surpresa. Ela o vira sair correndo do escritório segundos antes e não entendera a urgência da ligação.
— Escute com atenção, Clara. Disse Sebastián, ofegante, os olhos fixos no retrovisor, examinando cada carro como se fosse uma ameaça ou como se a polícia estivesse o seguindo. — Não volto a tarde toda. Cancele as minhas reuniões das três e das cinco. Não me importa quem sejam, remarque tudo para amanhã. Não estou disponível para ninguém, está claro?
Houve um breve silêncio perplexo do outro lado da linha. Clara conhecia perfeitamente as prioridades do chefe, especialmente aquelas que, embora não constassem na agenda oficial, sempre tinham precedência absoluta sobre qualquer contrato, e ela presumiu que esta era uma delas.
— Entendido, senhor. Mesmo se a Srta. Victoria ligar? Perguntou a secretária com uma cautela quase imperceptível, sabendo o que ambos estavam escondendo. — O senhor me deu ordens explícitas para transferir as suas ligações para ela, não importa o que esteja fazendo, mesmo que esteja no meio de uma reunião importante.
Sebastian apertou o volante com tanta força que os seus dedos cravaram no couro, sentindo o próprio pulso palpitar nas palmas das mãos. Naquele exato momento, a mera menção de Victoria não lhe causava o prazer proibido de costume, mas sim uma pontada de irritação, pois Nathan poderia se aproveitar disso. O seu desejo carnal pela amante fora brutalmente substituído por um instinto primitivo e visceral de posse sobre a esposa.
— Eu disse ninguém, Clara. Ele declarou com uma frieza cortante que não admitia contestação. — Não me importo quem ligue. Se for Victoria, diga a ela que há uma emergência pessoal inevitável, mas não me interrompa em hipótese alguma.
Após desligar sem maiores explicações, Sebastián jogou o telefone no banco do passageiro e acelerou, passando um sinal vermelho enquanto desviava habilmente de táxis.
A urgência queimava no seu peito como ácido.
Ele não podia permitir, sob nenhuma circunstância, que Nathan tivesse um único minuto a sós com Elizabeth na privacidade de uma viagem a um lugar romântico como aquela m*aldita praia. Ele conhecia muito bem as táticas do parceiro para detectar as vulnerabilidades das mulheres, aquele jeito quase cirúrgico de encontrar a ferida e se oferecer como a cura, e sabia que Elizabeth, naquele momento de crise conjugal, era uma presa perigosamente fácil.
Cinco minutos depois, o luxuoso carro esportivo de Nathaniel apareceu, estacionado com uma elegância insultuosa bem em frente à entrada do condomínio fechado de Sebastian.
Nathan estava encostado na porta do passageiro, usando óculos escuros e uma camisa de linho impecável, que parecia imaculada, esperando com a paciência de um caçador que sabe que tem todo o tempo do mundo a seu favor.
Sebastian freou bruscamente logo atrás dele, deixando uma marca de pneu preta no asfalto. O barulho estridente dos freios fez Nathan se endireitar e abaixar um pouco os óculos escuros, revelando um sorriso torto carregado de ironia mordaz enquanto observava seu parceiro sair do carro, o rosto contorcido como o de um animal ferido defendendo o seu último pedaço de terra.
— Parece que você não tem um dos seus encontros com a Victoria hoje. Sussurrou Nathaniel, mais para si mesmo do que para Sebastian.
Elizabeth saiu de casa com a bolsa para cumprimentar Nathan, e Sebastian a puxou pelo cotovelo para dentro do carro.
— Sebastian, o que há de errado com você?
Sebastian estava prestes a entrar no seu carro, mas Nathan fez um gesto para que ele entrasse no dele, que era mais robusto.
— Sebas. Disse Elizabeth, olhando para ele.
Sebas estava com o maxilar cerrado e, sem dizer uma palavra, ele e Elizabeth afundaram no banco de trás, batendo a porta com um baque seco que deu início a uma provação sufocante.
A viagem até a costa rapidamente se tornou um campo de batalha silencioso. O interior do luxuoso carro esportivo de Nathan, com seu cheiro de couro novo e tecnologia de ponta, era o cenário de uma tensão tão densa que podia ser cortada com uma faca.
Elizabeth havia escolhido a sua roupa com muito cuidado, buscando nas suas vestes a confiança que sentia ter perdido dentro de si. Usava calças de linho branco de cintura alta que alongavam as suas pernas e uma blusa de seda cor champanhe com um decote discreto, porém requintadamente elegante, que não passou despercebido por Nathan.
Os seus cabelos estavam presos num ra*bo de cavalo impecável, sem um único fio fora do lugar, e ela usava óculos de sol de grife que disfarçavam qualquer vestígio das lágrimas da noite anterior. Ela parecia profissional, radiante, mas havia nela uma frescura que contrastava dolorosamente com a rigidez quase cadavérica do marido. E os seus lábios carnudos e vermelhos capturavam a atenção de Nathan repetidas vezes pelo retrovisor.
Nathaniel, ao volante, dirigia com uma mão, relaxado, enquanto a outra repousava perto da alavanca de câmbio, invadindo sutilmente o espaço pessoal de Elizabeth.
Essa atitude indiferente irritava profundamente Sebastian, que estava sentado no banco de trás como um convidado indesejado, um estranho na sua própria vida.
— Eu estava revisando os planos preliminares para o local, Eli. Disse Nathan, quebrando o silêncio denso com aquela familiaridade calorosa que fazia Sebastian cerrar os dentes até doerem e a suas gengivas sangrarem. — A inclinação do penhasco é perfeita para uma estrutura em balanço. Eu sei que você é apaixonado por minimalismo orgânico, e aquele terreno praticamente implora por algo que pareça flutuar sobre o mar, algo que desafie a gravidade.
Elizabeth virou-se para encará-lo e, pela primeira vez em dias, os seus olhos brilharam com uma faísca de paixão genuína.
— Exatamente! Eu estava pensando a mesma coisa esta manhã. Ela respondeu, esquecendo-se completamente da presença sombria do marido no banco de trás. — Se usarmos janelas do chão ao teto com molduras ocultas, a transição entre o interior e o oceano será invisível. É um desafio técnico imenso devido à salinidade e à força do vento, mas esteticamente seria uma obra-prima de luz.
Nathaniel sorriu para ele pelo retrovisor. O seu sorriso era tão radiante que Sebastian teve vontade de arrancar os seus dentes ali mesmo.
— Ninguém mais conseguiria entender essa visão como você, Eli. Respondeu Nathan, lançando-lhe um olhar rápido, porém intenso, que percorreu o seu rosto com uma admiração que ele não tentou esconder. — Adoro como você prioriza a luz natural em vez de ornamentos vazios. É uma sensibilidade artística que poucos arquitetos conservam hoje em dia. Você tem um dom para enxergar a alma dos espaços.
Ambos mergulharam numa conversa fluida e técnica, uma espécie de dança de palavras que Sebastian não conseguia acompanhar. Falaram sobre materiais sustentáveis, a trajetória exata do sol no solstício de verão e arquitetos europeus que ambos admiravam. Havia uma sincronia natural entre eles, uma conexão intelectual que fluía sem esforço, preenchendo o carro com risos leves e anedotas compartilhadas que deixavam Sebastian de fora da equação.
Enquanto isso, no banco de trás, Sebastian era a própria personificação da fúria contida. Sentava-se com os braços cruzados e o maxilar tão cerrado que sentia uma dor surda nas têmporas. Observar a esposa brilhar e rir com o sócio provocava uma mistura tóxica de inveja e paranoia. Ele não entendia nada de estruturas em balanço. Para ele, a carreira de Elizabeth sempre fora um ornamento prestigioso na sua vida social, não uma mente brilhante em ação que outro homem pudesse valorizar mais do que ele.
Cada vez que Nathan contava uma piada e Elizabeth ria livremente, Sebastian cravava as unhas no banco de couro. Ele se enfurecia com a importância que Nathan dava a cada palavra dela, com a forma como a ouvia como se ela fosse a única pessoa no planeta. Era o tipo de atenção dedicada que ele próprio havia deixado de lhe dar anos atrás, e vê-la florescer sob a influência do interesse de outro homem o fazia sentir-se como um intruso deslocado no seu próprio território.
— Você não acha, Sebas? Perguntou Nathan de repente, lançando-lhe um olhar de escárnio malicioso pelo retrovisor, por estar roubando toda a atenção da sua esposa. — Ou será que o direito corporativo secou tanto o seu cérebro que você não aprecia mais o bom design e a beleza funcional?
Sebas rosnou bruscamente, sem fazer qualquer esforço para esconder o seu desprezo pelo sócio, que claramente flertava descaradamente com a sua esposa, sua m*aldita esposa fiel.
— Acho que você está perdendo muito tempo com fantasias arquitetônicas. Ele cuspiu sem levantar os olhos. — Terreno é para construir uma casa, não um monumento ao ego de ninguém. Dirija e pare de falar tanto, Nathaniel. Tempo é dinheiro.
Elizabeth sentiu a bolha de entusiasmo estourar diante da amargura do marido. A sombra da tristeza retornou aos seus olhos com a velocidade de um eclipse, algo que Nathan percebeu imediatamente.
O parceiro apertou o volante com renovada determinação: ele não deixaria Sebastian extinguir aquela luz.