Episódio 20

1583 Words
M*al haviam se passado três dias desde o perturbador incidente no penhasco, três dias em que Sebastian vagava pela própria casa como um estranho em território hostil. Sentia a respiração de Nathaniel em sua nuca e o eco constante da risada de seu sócio com Elizabeth o enchia de uma raiva possessiva e abafada. Apesar de sua própria traição, a ideia de perder o controle sobre sua esposa para a devoção de outro homem o enlouquecia de ciúme. Finalmente, assombrado por seus próprios demônios e por insistência firme, porém angustiada, de Elizabeth, ele se viu sentado no moderno escritório da Dra. Arisandi. Ao cruzar a soleira, Sebastian hesitou por um instante, ajeitando os punhos da camisa como se preparasse para subir ao banco. A renomada advogada se sentia insegura e inquieta. Era o primeiro encontro a sós, e ele temia que ela percebesse sua fachada. A Dra. Arisandi se levantou com um sorriso caloroso e gesticulou gentilmente em direção ao sofá, convidando-o a deixar para trás a rigidez do corredor. — Bem-vindo, Sebastián. Fico muito feliz que tenha decidido vir. Disse ela com uma voz calma que buscava transmitir segurança e o conforto de uma boa terapia. — Sei que, para um homem na sua posição, dedicar uma hora para falar sobre si mesmo pode parecer um luxo ou até mesmo uma perda de tempo, mas garanto-lhe que este é um espaço seguro. Não há juízes nem júris aqui. Como se sente hoje, para além do stress do consultório? Sebastián forçou um sorriso educado e sentou-se, embora os ombros permanecessem tensos. — Obrigado pela recepção, doutora. Para ser sincero, sinto-me um pouco deslocado, mas Elizabeth insistiu tanto que me pareceu injusto não tentar. Amo a minha esposa e faria tudo por ela. Ele respondeu, tentando encontrar uma posição confortável no sofá. Suponho que faça parte de ser um bom marido, não é? Aceitar que às vezes precisamos de uma pequena ajuda externa. — Esse é um excelente primeiro passo. Concordou a médica, juntando as mãos no colo e lançando-lhe um sorriso de comercial. —Às vezes, homens com tantas responsabilidades se esquecem de que também são humanos. Diga-me, da sua perspectiva, o que realmente o trouxe aqui? O que você sente que está roubando sua paz neste momento? Foi nesse instante que Sebastián decidiu usar sua cortina de fumaça. A atmosfera era uma bolha de paz que contrastava fortemente com seu caos interior. Ele, vestido com seu terno de três peças como se fosse uma armadura, tentou projetar a mesma imagem de domínio que usava para ganhar processos, embora seu olhar evasivo o traísse. — É só o trabalho, doutora, e um cansaço que se infiltrou em meus ossos. Ele começou, cruzando as pernas com uma elegância praticada enquanto evitava olhar para as plantas que adornavam o canto. — O escritório exige demais, os clientes não dão descanso. Acho que simplesmente esqueci como desligar. Meu corpo entrou em colapso por exaustão, só isso. A Dra. Arisandi ouviu pacientemente, assentindo levemente enquanto ele detalhava uma rotina interminável de e-mails noturnos e litígios exaustivos. No entanto, quando ele terminou de falar, ela colocou o caderno no colo e se inclinou para a frente, quebrando a distância profissional com uma compaixão calorosa, mas com um olhar que não admitia mais evasivas. — Sebastian, eu entendo que a pressão do sucesso é real, mas meu trabalho aqui é ajudá-lo a enxergar o que você escolhe ignorar. Disse ela em voz baixa, mas, conhecendo sua profissão, sabia que precisava chegar à raiz do problema. — Sebastian, não vamos nos enganar. Já tratei centenas de executivos com burnout crônico e nenhum deles apresenta a dissociação que você tem. O estresse exaure o corpo, mas geralmente não suprime o desejo de forma tão seletiva. Você constrói um muro para proteger uma realidade da outra, e esse muro geralmente surge quando o corpo é dividido por outra pessoa. Sebastian soltou uma risada seca, carregada de arrogância defensiva. Era o mesmo homem que a havia ridicularizado no tribunal. — Doutora, com todo o respeito, acho que a senhora assistiu a muitos filmes feitos para a televisão. Ele retrucou, ajustando a gravata com um gesto mecânico e levando a mão aos botões de punho. — Minha vida é um livro aberto. Sou um homem de direito, de estrutura. O que a senhora está sugerindo é antiético e não condiz com quem eu sou. Amo Elizabeth, já lhe disse. Não é possível que um homem simplesmente se canse das pressões financeiras? — É possível, mas não é o seu caso. Ela insistiu, inclinando-se para mais perto dele, encurralando-o. — Se fosse apenas cansaço, você buscaria refúgio nos braços da sua esposa, não fugiria deles como se fossem espinhos. Estou observando você, Sebastian. Você evita contato visual quando fala de intim*idade, mas suas mãos tremem com a energia reprimida. Seu corpo não está desligado. Está ligado, mas em uma frequência diferente. Quem você vê quando fecha os olhos na cama com ela? — Ninguém! Ele exclamou, batendo levemente no braço do sofá. — Vejo equilíbrios, vejo julgamentos, vejo a responsabilidade de manter o padrão de vida que Elizabeth merece. Você está tentando fabricar um drama onde só existe uma crise de estresse. Acho irresponsável tirar conclusões tão precipitadas. — Precipitadas? A médica ergueu uma sobrancelha, imperturbável com o desabafo. — Diga-me então, por que Elizabeth o encontrou no consultório alguns dias atrás? Por que você escolheu uma tela em vez da mulher que estava a poucos centímetros de distância, no seu quarto? Um homem exausto dorme, Sebastián. Um homem dividido busca fora aquilo que não ousa integrar em seu lar. Você está fragmentado. Você tem uma vida paralela que está drenando sua capacidade de ser honesto. — Foi um deslize! Ele gritou, levantando-se de um salto do sofá, incapaz de permanecer sentado sob o olhar inquisitivo dela. — Foi um momento de fraqueza, a mesma pressão de que tenho falado. Isso não significa que haja outra pessoa. Meu casamento é sagrado para mim. — Se fosse sagrado, você não estaria aqui mentindo desesperadamente. Disse ela calmamente, desarmando-o. — A verdade está sufocando você, Sebastian. Você parece um homem vivendo no fogo, tentando convencer a todos de que é só calor. Até quando você vai sustentar essa mentira? Até que ela o encontre na cama com aquela outra mulher? Ou você terá a decência de limpar a ferida agora? Sebastian parou em frente à janela, de costas para ela. O silêncio tornou-se denso, quase sólido. Ele sentiu as paredes se fechando e a claustrofobia o sufocou. A imagem de Victoria, seu riso pecaminoso e a maneira como ela despertava seu lado mais sombrio passou por sua mente como um raio corrosivo. Suas defesas, construídas com anos de retórica jurídica, desmoronaram sob o peso de sua própria depravação. — Ela é minha parceira... Victoria. Confessou finalmente, a voz embargada por uma mistura de alívio e profundo desgosto. — É um caso que saiu do controle. Um vício que não sei como parar, mas o problema é mais profundo, doutorA. Tenho pavor de estragar tudo. Sebastián passou a mão pelo rosto, visivelmente angustiado. A represa havia se rompido e a água estava escapando. — Elas são tão diferentes... Victoria é fogo, é animal. Com ela, não há filtros, mas com Elizabeth... ela é pureza, lar. Disse ele, sentindo-se encurralado. — Tenho pavor de me comportar de forma tão animalesca com Elizabeth, de deixar essa escuridão escapar e ela perceber. Tenho até medo de chamá-la pelo nome errado num momento de intim*idade. É por isso que me afasto, é por isso que me fecho. Prefiro não tocá-la a arriscar que ela veja quem eu sou agora. A Dra. Arisandi assentiu, mas sua expressão tornou-se severa, embora ela permanecesse calma. Ela sabia que conseguiria fazê-lo falar. — Essa é precisamente a raiz do seu problema, Sebastián. Afirmou ela com firmeza. — Você fragmentou sua identidade. Convenceu-se de que Elizabeth só pode amar uma versão 'perfeita' de você, enquanto você dedica sua verdadeira paixão a alguém por quem não sente nada. Mas deixe-me dizer a verdade, mesmo que doa: o que você está fazendo não é proteger Elizabeth, é traí-la no nível mais profundo e causar-lhe imensa dor. Ela fez uma pausa deliberada, seus olhos encontrando os dele. — Você é um homem infiel, Sebastian, e enquanto tenta manter essa imagem de marido ideal, está ativamente magoando a única pessoa que realmente confia em você, a mulher que te ama incondicionalmente. Ela está na sala ao lado tentando salvar um casamento que você está secretamente destruindo. Não é o medo de errar que te paralisa. É a culpa de saber que ela não merece a mentira que você a está obrigando a viver. Sebastian suspirou, cobrindo o rosto com as mãos. Estava cansado de andar em ovos, mas mesmo que quisesse, não conseguia se afastar de Victoria. Era exatamente como ele havia dito à terapeuta: uma droga. Victoria era tudo o que Elizabeth jamais seria, e ele não queria que ela fosse. Não queria que sua doce esposa se tornasse uma v***a na cama. Queria mantê-la por perto, mas também queria a paixão de Victoria. ‍​‌‌​​‌​‌​​‌​​‌​​​​​​​​​‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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