Capitulo 1 - “Quando Eu Crescer”

1628 Words
A sala da 4ª série da Escola Municipal Dona Clarice tinha cheiro de giz, madeira velha e merenda de arroz com salsicha. As carteiras riscadas guardavam segredos de gerações, e o ventilador no teto girava preguiçoso, como se estivesse só por obrigação. A professora Marta, com seus óculos de grau e voz firme, anunciou a tarefa do dia: — Crianças, hoje vamos fazer uma redação. Tema: “O que eu quero ser quando crescer.” Caprichem, hein? Nada de copiar do colega! Iva ajeitou o lápis no caderno de brochura azul e começou a escrever com letra caprichada: Ao lado, Gisele bufou e cochichou: — Ih, Iva… eu também ia escrever isso! Eu quero ser farmacêutica! Iva olhou com os olhos semicerrados, fingindo indignação: — Ah não, Gisele! Você quer ser atriz! Você vive ensaiando peça no coreto! — Mas eu também gosto da farmácia! E da Lourdes! Ela me dá balinha de gengibre quando eu espirro! — Então vamos ver quem vai ser a nova farmacêutica de Cedro! — Disse Iva, estendendo o mindinho. Gisele sorriu e selou o pacto com o dedo: — Combinado. Mas se eu virar atriz famosa, você vai ser minha farmacêutica pessoal! À noite, na casa simples de tijolos aparentes, Iva ajudava a mãe a pôr a mesa. Dona Marlene havia feito arroz, feijão, ovo frito e salada de tomate com cebola. O cheiro de alho refogado enchia a cozinha. — Mãe… posso te contar uma coisa? — Disse Iva, com os olhos brilhando. — Pode, uai. O que foi? — Hoje a professora mandou a gente escrever o que quer ser quando crescer. Eu escrevi que quero ser farmacêutica. Igual a Dona Lourdes. Dona Marlene parou de mexer o arroz e olhou para a filha com ternura. — Farmacêutica, minha filha? — É… eu gosto da farmácia. É tudo limpinho, cheiroso, organizado. E todo mundo vai lá quando precisa de ajuda. Eu quero ajudar também. Marlene se sentou à mesa, emocionada, e segurou a mão da filha. — Você vai ser a melhor farmacêutica que Cedro já viu. E vai ter a sua própria farmácia, com o seu nome na placa. “Farmácia da Dra. Ivana Marlene.” Iva riu alto: — Mãe! Que chique! — Ué, por que não? Você é estudiosa, determinada. E eu vou limpar a sua farmácia todo o dia, com orgulho. As duas se abraçaram ali mesmo, entre o arroz e o ovo frito, como quem sela um destino com afeto e fé. ... Era fim de tarde em Cedro do Abaeté. O céu tingido de laranja e rosa parecia pintado à mão. No coreto da praça central, os seis amigos se reuniam como sempre: Iva, Gisele, Leonor, Lucas, Junior e Cassio. Cada um com um guardanapo na mão e um pão de queijo ainda quentinho que Dona Marlene havia mandado pela Iva, e um potinho de doce de leite para acompanhar. O coreto era o confessionário da turma. Ali, entre risadas e provocações, eles falavam da vida como se o mundo fosse só aquele pedaço de praça. — Eu juro que vou ser atriz! — Disse Gisele, com os olhos brilhando. — Vou pra São Paulo, fazer novela. Já até ensaiei uma cena de choro hoje no espelho. — Você chorou porque derrubou o shampoo no pé, Gisele — provocou Junior, rindo alto. — E você, Junior? Vai ser o quê? Palhaço de circo? — Retrucou Leonor, com seu tom dramático. — Palhaço não. Humorista ou Cantor. Vou ter o meu programa na TV. “Junior Show: só quem ri vive mais ou a minha banda de música!”. Cassio, sentado com um livro de filosofia no colo, suspirou: — Vocês pensam muito pequeno. Eu quero escrever livros que mudem o mundo. Tipo... “A Ética do Doce de Leite”. Todos riram. — E você, Lucas? — Perguntou Iva, com um sorriso cúmplice. Lucas corou. Olhou para Gisele, depois para o chão. — Eu... ainda tô pensando. Talvez professor. Ou músico. Sei lá. Gisele olhou de canto, com um meio sorriso. Iva percebeu e cutucou: — Ihhh... tem coisa aí. Vai escrever música pra Gisele, né? — Cala a boca, Iva! — Disse Lucas, rindo e escondendo o rosto. Leonor se levantou e fez pose de diva: — Eu vou ser famosa. Não sei como, mas vou. Talvez influencer. Ou dona de uma loja de roupas com o meu nome: “Leonor’s”. Iva olhou para todos, depois para o céu. — Eu vou ser farmacêutica. Já decidi. Quero ter a minha farmácia aqui mesmo, em Cedro. Com tudo limpinho, cheiroso, organizado. E vou ajudar todo mundo. Igual a Dona Lourdes. — E vai vender pão de queijo também? — Brincou Junior. — Só se for receita da minha mãe — Respondeu Iva, orgulhosa. Cassio fechou o livro e disse: — A gente devia escrever tudo isso. Um pacto. Se cada um realizar o seu sonho, a gente se encontra aqui no coreto daqui a 20 anos. — Com pão de queijo! — Gritou Gisele. — E doce de leite! — Completou Leonor. Todos estenderam os mindinhos e selaram o pacto, rindo, com o sol se despedindo atrás da igreja e o coreto guardando mais um segredo da juventude. Era sábado de sol em Cedro do Abaeté. A sorveteria da praça estava cheia de adolescentes rindo, tirando fotos com celulares simples e se refrescando com casquinhas de creme e morango. Iva, Gisele e Leonor estavam sentadas na mesa do canto, com os pés descalços encostando no chão frio e os corações quentes de emoção. Dona Marlene, mãe da Iva, estava ali também, de avental, pano na mão, limpando os cantos da sorveteria com capricho. Ela cumprimentava os clientes com um sorriso discreto, sem interromper a conversa das meninas. — Gente, vocês não vão acreditar! — Disse Gisele, com os olhos brilhando e a voz quase trêmula. — Ontem, depois da aula, o Lucas me chamou pra ir até o coreto… e ele me beijou! Leonor soltou um gritinho agudo: — AAAAH! Finalmente! Eu sabia! Eu sabia! Vocês são o casal mais lento da história! Iva largou a casquinha e agarrou a mão da amiga: — Gisele! Meu Deus! Como foi? Conta tudo! Ele falou alguma coisa antes? — Ele só disse: “Acho que a gente já esperou demais.” — Gisele sorriu, com as bochechas coradas. — E aí… foi lindo. Simples. Mas lindo. As três se abraçaram, rindo e vibrando, como se o beijo tivesse acontecido com todas elas. Mas a alegria foi interrompida por vozes agudas e risadinhas forçadas. Três garotas se aproximaram da mesa, filhas de comerciantes e políticos locais, sempre vestidas com roupas de marca e olhares de superioridade. — Olha só, a filha da faxineira tá aqui também. — Disse uma delas, olhando para Dona Marlene com desdém. — Iva, você devia aproveitar e pedir emprego pra sua mãe. Vai que ela te ensina a limpar chão direitinho. — Disse outra, com um sorriso venenoso. — Porque, né… o máximo que você vai chegar perto de uma farmácia é pra passar pano no chão. — Completou a terceira, rindo alto. O silêncio caiu como um peso. Leonor se levantou, com os olhos faiscando: — Vocês têm problema? Que tipo de gente fala isso? Gisele segurou o braço de Iva, que estava imóvel, com os olhos fixos no sorvete derretendo na casquinha. Dona Marlene ouviu, mas não se virou. Continuou limpando, com dignidade. Iva respirou fundo, se levantou e olhou firme para as garotas. — Minha mãe limpa essa sorveteria melhor do que qualquer uma de vocês conseguiria. E ela me ensinou a ser honesta, forte e a nunca ter vergonha de trabalhar, não importa no que seja. As garotas reviraram os olhos e se afastaram, murmurando. Iva se sentou de novo, com a voz embargada: — Eu vou ser farmacêutica. E não é pra provar nada pra elas. É pra honrar a minha mãe. Porque ela merece ver a filha atrás do balcão, não com pano na mão. Gisele e Leonor abraçaram Iva, apertado. E naquele abraço, havia mais do que consolo, havia promessa, força e uma amizade que não se dobrava diante de humilhação. A noite caiu silenciosa sobre Cedro do Abaeté. Na casa simples de tijolos aparentes, o cheiro do feijão com couve ainda pairava no ar. Dona Marlene já havia se recolhido, exausta, depois de mais um dia de trabalho. Iva lavou a última louça, enxugou as mãos no pano de prato e subiu para o quarto. Lá, acendeu a luz amarelada do abajur e ficou de pé diante do espelho da penteadeira aquele espelho antigo, com a moldura lascada e marcas de tempo. Olhou para si mesma. Os olhos castanhos, firmes. O rosto ainda marcado pela humilhação na sorveteria. Mas havia algo diferente ali. Um fogo novo. Ela respirou fundo, ajeitou os ombros e encarou o próprio reflexo como quem encara o futuro. — Você vai ser alguém, Ivana Marlene! — Disse em voz baixa, mas firme. — Vai estudar, vai vencer, vai ter a sua farmácia. Vai ter o seu nome na placa. E vai entrar pela porta da frente, de cabeça erguida. Ela tocou o espelho com a ponta dos dedos, como se quisesse selar um pacto com aquela versão dela mesma. — E nunca, nunca vai sentir vergonha da sua mãe. Porque ela é a mulher mais forte que você conhece. E tudo que você for… vai ser por ela. Uma lágrima escorreu, mas Iva não desviou o olhar. Sorriu de leve, como quem já sabia que o caminho seria difícil, mas possível. Apagou o abajur, se deitou e dormiu com o coração em paz. Porque naquela noite, ela não só fez uma promessa. Ela começou a cumprir.
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