Capítulo 3 - “Silêncio e Proteção”

1553 Words
A vida adulta não chegou com festa. Chegou com silêncio. O casamento de Gisele e Lucas estava marcado para o fim de semana. Iva, madrinha orgulhosa, já tinha o vestido pronto. Leonor escrevia os votos com emoção. Junior ensaiava a trilha sonora. Cassio cuidava da decoração. Dona Marlene ajudava com os arranjos de flores. Era mais que um casamento era a celebração de uma história que começou no coreto. Mas na quinta-feira à noite, tudo mudou. Gisele estava sentada no sofá da casa de Iva, mexendo no celular, quando chegou a mensagem de áudio. O nome de Lucas piscou na tela. Ela apertou o play com mãos trêmulas. — “Gi… eu não vou conseguir. Eu sei que é em cima da hora, mas eu não vou casar. Recebi uma proposta em São Paulo, uma chance que não posso deixar passar. Eu preciso ir. Me desculpa. Me perdoa.” O áudio terminou. O silêncio foi ensurdecedor. Gisele não chorou. Não gritou. Apenas ficou ali, imóvel, com o celular na mão e os olhos fixos em nada. Iva se aproximou devagar, sentou ao lado e segurou a sua mão. — Ele escolheu ir. Mas você não está sozinha. Leonor chegou logo depois, seguida por Junior e Cassio. Todos ouviram o áudio. Todos sentiram o impacto. Era como se tivessem perdido um pedaço da juventude. — Ele não só deixou a Gisele. — Disse Junior, com a voz embargada. — Ele deixou todos nós. — A gente cresceu junto. Fez planos juntos. E ele virou as costas — completou Cassio. Leonor, com os olhos marejados, falou com firmeza: — A gente precisa se proteger. A gente precisa cuidar uns dos outros. E pra isso… a gente precisa deixar o Lucas pra trás. Iva olhou para os amigos. Sentiu o peso da dor, mas também a força que nascia dali. — Então vamos fazer um pacto. Aqui, agora. Que nunca mais vamos falar sobre o Lucas. Que ele não vai ter espaço nas nossas conversas, nas nossas lembranças. Que a nossa história continua. Sem ele. Todos estenderam os mindinhos. Como no coreto, anos atrás. Mas dessa vez, não havia risos. Havia dor. E união. Gisele apertou o dedo de Iva com força. — Eu vou seguir. E vou ser feliz. Não por ele. Mas por mim. E por vocês. Naquela noite, o grupo se fechou como muralha. Não por rancor. Mas por amor. Porque às vezes, proteger uns aos outros é a única forma de continuar. A dor da partida de Lucas ainda pairava no ar, mas a vida não parava. E Iva, como sempre, assumiu a liderança com firmeza e afeto. — A gente vai seguir. Juntos. E essa casa vai ser nosso novo começo. — Disse, segurando a chave da república recém-alugada em Belo Horizonte. Era uma casa antiga, de fachada amarela desbotada, com janelas de madeira e um quintal cheio de possibilidades. Tinha quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha espaçosa e uma sala com sofá gasto perfeito para cinco estudantes e uma tonelada de sonhos. A mudança foi uma operação digna de comédia. Cassio chegou com uma gaiola de hamster, Leonor trouxe uma mala cheia de livros e quadros e muitas roupas, Junior carregava um violão e uma caixa de som, Gisele trouxe cosméticos e panelas, e Iva, claro, trouxe caixas organizadas com etiquetas coloridas. — Isso aqui parece mais uma feira do que uma mudança. — Brincou Junior, tentando equilibrar três sacolas e um ventilador. — E ainda falta montar as bases das camas e colocar os colchões! — Disse Leonor, já suada, com um rolo de fita adesiva na mão. — Eu trouxe pão de queijo pra motivar. — Anunciou Gisele, como se fosse uma líder espiritual. Enquanto descarregavam tudo, Iva organizava os cômodos com precisão: quem ficaria com qual quarto, onde guardar os livros, como dividir a geladeira. Era como se estivesse montando uma farmácia, só que com amigos e bagunça. — Esse lugar vai ser nossa fortaleza. — Disse Cassio, olhando para a sala. — Aqui a gente vai rir, chorar, estudar, errar… e crescer. Na primeira noite, sentaram todos no chão da sala, comendo pão de queijo, pipoca e refrigerante para beber. A luz era fraca, mas o clima era forte. — A gente perdeu o Lucas, mas não perdeu a gente. — Disse Iva, olhando para os rostos ao redor. — E essa casa vai ser a prova disso. — Completou Gisele, tentando mostrar uma força que todos sabiam que ela não tinha. Leonor pegou um caderno e escreveu na primeira página: “República dos Sobreviventes, onde o que importa é quem ficou.” E assim começou uma nova fase. Com caixas abertas, colchões no chão, e corações reconstruindo o que a vida tentou quebrar. O ritmo da vida acadêmica era como um relógio sem pausa. Cada amigo seguia a sua trilha: Leonor mergulhada em literatura, Cassio entre aulas de anatomia animal, Junior com ensaios e partituras, e Iva e Gisele, as únicas com rotinas sincronizadas, dividindo os corredores e laboratórios do curso de farmácia. Naquela manhã, tinham enfrentado uma prova difícil de farmacologia. Iva saiu da sala com a testa suada e os ombros tensos. Gisele vinha logo atrás, pálida, com os passos lentos. — Gi, você tá bem? — Perguntou Iva, já preocupada. — Só um pouco zonza… acho que é cansaço... — Respondeu Gisele, tentando sorrir. Mas antes que pudesse dar mais um passo, Gisele cambaleou e caiu no chão do corredor. Iva correu, ajoelhou-se ao lado da amiga e segurou a sua cabeça com cuidado. — Gisele! Gi, fala comigo! Outros alunos se aproximaram, mas Iva já estava ligando para o ambulatório da faculdade. Em minutos, Gisele foi levada para avaliação. Iva não saiu do lado dela nem por um segundo. Horas depois, no consultório, a médica olhou para Gisele com delicadeza. — Você está grávida, Gisele. Cerca de oito semanas. O silêncio foi absoluto. Gisele olhou para Iva, os olhos arregalados, a respiração curta. — Não… não pode ser… — Sussurrou. Iva segurou a sua mão com força. — É do Lucas, não é? Gisele assentiu, as lágrimas escorrendo sem resistência. — Eu não sabia… eu juro que não sabia. Achei que era só estresse das provas e da mudança… eu não percebi. Iva respirou fundo, tentando conter a própria emoção. — A gente vai passar por isso juntas. Você não tá sozinha, Gi. Nunca esteve, tem a todos nós. Gisele chorou no ombro da amiga, como quem desaba não só pela notícia, mas por tudo que veio antes, o abandono, o silêncio, o pacto de não falar mais sobre ele o seu grande amor. — Eu não sei o que fazer, Iva. Eu não sei se consigo. — Você consegue. E eu vou estar aqui. A gente vai contar pros outros com calma. Mas primeiro… você respira. Você sente. E depois, a gente decide juntas. Naquele dia, entre lágrimas e promessas, Iva e Gisele selaram um novo pacto. Não de silêncio, mas de acolhimento. Porque a vida adulta não vinha só com provas de faculdades e notas semestrais, vinha com escolhas difíceis, e a certeza de que a amizade verdadeira é o melhor remédio. A chegada do bebê de Gisele virou a república de cabeça para baixo, e de coração para dentro. Os cinco amigos, ainda se adaptando à vida universitária, receberam o novo integrante com festa: balões improvisados, cartaz escrito à mão com “Bem-vindo, Mateus!” e uma mesa cheia de pão de queijo, suco de caixinha e brigadeiro de colher. Cassio trouxe um berço desmontável que achou num brechó. Junior compôs uma musiquinha de boas-vindas. Leonor escreveu um poema em papel colorido e colou na parede da sala. Iva organizou tudo com precisão: horários de ajuda, turnos de cuidado, lista de compras e até um cantinho silencioso para Gisele descansar. — Esse bebê vai crescer cercado de amor. — Disse Iva, enquanto ajeitava os lençóis do berço. — E de gente maluca. — Completou Junior, fazendo todos rirem. Gisele, ainda frágil, olhava para os amigos com gratidão nos olhos. — Eu não sei como teria feito isso sem vocês. — Você não precisa saber. — Respondeu Leonor. — A gente tá aqui. E isso basta. Enquanto cuidava da república e dos estudos, Iva também se dividia entre turnos na lanchonete do shopping. Era um trabalho puxado: pé inchado, uniforme quente, clientes impacientes. Mas ela nunca reclamava. Sabia que, mesmo tendo passado na universidade pública, os gastos eram muitos — livros caros, alimentação, aluguel — e ela não queria que Dona Marlene se sacrificasse sozinha. Nos fins de semana, Iva pegava o ônibus para Cedro do Abaeté. Chegava com um pote de doce de leite, abraçava a mãe e contava as novidades da república. — Tá tudo bem, mãe. É difícil, mas é bonito. E o Mateus é uma bênção. Dona Marlene olhava para a filha com orgulho silencioso. — Você é uma guerreira, Ivana. E eu agradeço a Deus todo o dia por isso. Na volta, Iva levava marmitas, conselhos e aquele amor que só mãe mineira sabe dar. Porque mesmo longe, ela nunca deixou de ser filha. E mesmo cansada, nunca deixou de ser amiga. Na república, entre fraldas, livros e sonhos, os cinco seguiam juntos. E Iva, como sempre, era o coração que mantinha tudo pulsando.
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