A noite havia engolido São Paulo com uma densidade abafada. As luzes da cidade não tinham o mesmo brilho de outros dias. Pareciam embotadas, cúmplices do cansaço e da revolta. No 17º andar de um prédio empresarial, o silêncio imperava no antigo apartamento que fora de Alice — quando ainda se chamava Isabela. Mateo estava ali. Sentado no chão da sala, ao lado de uma garrafa de uísque já pela metade. Os olhos vermelhos, a gravata solta no pescoço, os pés descalços. O copo de cristal na mão tremia levemente, mas ele não percebia. Bebia em goles longos, fundos, como se o álcool pudesse dissolver o que sentia. As luzes estavam apagadas. Apenas a penumbra do céu urbano entrava pelas janelas. No chão, espalhados, estavam papéis, rascunhos de planos, anotações feitas à mão sobre segurança e rota

