Lara
A noite parece maior do que o normal.
O carro avança pela estrada vazia, e as luzes dos postes passam rápido demais, piscando dentro do veículo como pulsos nervosos.
Dante dirige com a mandíbula travada, os dedos apertados demais no volante. Ele tenta disfarçar, mas eu sei, isso não é só sobre proteger alguém.
É pessoal.
— Você não deveria estar indo — ele diz sem olhar para mim.
— Já falamos sobre isso — respondo, firme.
— Não significa que eu aceite — ele rebate, voz baixa.
Observar Dante nessas horas é como ver uma tempestade presa dentro de um corpo humano.
Ele se controla porque sabe que pode destruir tudo se soltar tempo demais.
Eu respeitaria essa força… se ela não viesse acompanhada dessa vontade irritante de me tratar como algo frágil.
— Dante — digo, encarando-o — se você quer que eu confie em você, precisa confiar em mim também.
Ele aperta mais o volante.
Mas não responde.
Silêncio.
Tenso, tenso, elétrico.
A pista que o informante de Dante encontrou fica em uma área industrial abandonada, fora da cidade um lugar perfeito para negócios sujos, encontros clandestinos ou corpos que ninguém quer encontrar.
Quando Dante finalmente estaciona, o ar dentro do carro já está carregado demais.
— Fica atrás de mim — ele diz.
— Eu sei.
— Não se afasta nem um metro.
— Eu sei.
— Lara, eu estou falando sério.
— Eu também.
Ele solta um suspiro exasperado.
— Você vai me matar qualquer dia desses.
— Você promete pra mim? — respondo com sarcasmo suave.
Ele vira o rosto para mim.
O olhar dele…
Meu Deus.
É um misto de irritação, desejo, cuidado e medo.
E isso é o mais perigoso.
— Não provoca — ele diz, voz rouca.
— Hoje eu não tenho controle suficiente para isso.
Meu corpo reage antes que eu consiga impedir.
Mas ele desvia o olhar, pega uma arma sob o banco e me entrega uma pequena. Menor, fácil de segurar.
— Para você — Dante diz, sério. — Segurança extra.
Eu só encaro a arma.
— Eu nunca atirei em ninguém.
— Espero que não tenha que começar hoje — ele responde.
— Mas se for necessário.
Ele aproxima o rosto, devagar, como se estivesse prestes a me tocar.
— Quero você viva. Entendeu? Viva.
Engulo seco.
— Eu entendi.
********
O galpão à nossa frente é enorme e escuro, iluminado apenas pela lua e algumas lâmpadas quebradas.
Dante anda na frente, olhos atentos a cada canto, cada sombra, cada som mínimo.
Eu sigo atrás dele, mas não com medo.
Com adrenalina.
Com a sensação crescente de que estamos prestes a descobrir algo que vai mudar tudo.
Dentro do galpão, há caixas empilhadas, cheiro de ferrugem e graxa, e um eco estranho que faz até a respiração parecer alta demais.
— Dante… — murmuro.
— Eu sei. Tem alguém aqui.
Ele coloca um dedo sobre os lábios, me mandando silenciar, e faço exatamente isso.
Seguimos por um corredor estreito entre as caixas, até que ouvimos um metal caindo ao chão, longe, do outro lado do galpão.
Dante se posiciona na frente, pronto para reagir.
Mas antes que qualquer coisa aconteça, uma voz masculina ecoa na escuridão,
— Chegaram rápido demais.
Eu congelo.
Reconheço a voz.
Não pelo som.
Mas pelo jeito.
Pelo tom prepotente.
Pelo veneno disfarçado.
Dante dá um passo à frente.
Eu dou um atrás.
E então ele aparece, saindo das sombras,
Rafael.
Meu ex-namorado.
A última pessoa em quem confiei antes de Dante.
E a primeira que me apunhalou.
Ele está mais magro, barba rala, olhar arrogante como sempre.
Mas agora há algo mais — algo tenso, quase desesperado.
— Rafael? — sussurro, incrédula.
— Olá, Lara — ele responde com um sorriso torto. — Sentiu minha falta?
Dante reage instantaneamente.
O corpo dele tenciona, o olhar vira uma lâmina, a mão trava na arma.
— Nem respira errado — Dante avisa, voz baixa, perigosa. — Ou eu te apago aqui mesmo.
Rafael ri.
— Continua o mesmo animal selvagem de sempre, hein?
— Continua vivo por milagre — Dante retruca.
Eu olho para ambos, o coração acelerado.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto a Rafael.
Ele ergue as mãos.
— Tentando te salvar, claro.
Dante avança um passo, pronto para atacar.
— Tenta outra mentira melhor.
Mas Rafael ergue a voz:
— O cartel Valverde não quer só a morte dela, Dante.
Eles querem o baralho.
O sangue some do meu rosto.
— O quê? — pergunto, atônita.
Rafael me encara — e pela primeira vez, parece sincero.
— O baralho que seu pai guardou.
O baralho que todo mundo pensa que desapareceu.
O baralho que vale mais do que esse torneio, e mais do que a sua vida.
Eu m*l consigo respirar.
Dante me olha.
— Que baralho é esse?
Mas eu também não sei.
Ou pelo menos… não completamente.
Porque existe uma lembrança antiga.
Algo que meu pai disse quando eu era criança.
Algo sobre um baralho único, raro, poderoso não apenas no mundo dos colecionadores, mas no submundo.
Algo que eu sempre julguei uma história exagerada.
Até agora.
Rafael dá mais um passo à frente.
— Lara… eles acham que você sabe onde está.
E vão te matar até descobrir.
O galpão fica silencioso.
Só o som da minha respiração acelerada ecoa.
E então Dante diz algo que me arrepiaria mesmo se o mundo não estivesse caindo:
— Ela não vai a lugar nenhum com você.
Rafael ri.
Triste.
Cansado.
Mas verdadeiro.
— Eu não vim levá-la.
Eu vim avisar.
E pedir ajuda.
— Ajuda? — Dante rosna. — Você está tendo delírios?
Rafael continua:
— O cartel vai atacar de novo. Hoje. Agora.
E se vocês ficarem aqui… vão morrer.
Eu olho para Dante.
Ele me olha.
E no mesmo segundo, sem precisar dizer nada, sabemos,
Temos que sair.
Agora.
Dante segura meu braço, firme.
— Vamos. Agora.
— Espera — digo, olhando para Rafael. — Você vem?
Ele hesita.
Depois balança a cabeça.
— Não posso.
Mas Lara… cuidado com quem você confia.
Olho para Dante.
Olho para Rafael.
E percebo a ironia.
Porque confiando ou não…
Só existe uma única pessoa ao meu lado agora.
E ele está segurando meu braço como se eu fosse parte dele.
Dante puxa minha mão.
— Corre.
E nós corremos.
Juntos.
Rumo ao desconhecido.
Rumo ao perigo.
Rumo a um segredo que agora parece muito maior do que eu, e do que nós.