Dante
A noite nunca pareceu tão longa.
Eu observo Lara enquanto ela dorme no sofá ao meu lado.
Não quis deixá-la sozinha no quarto depois da conversa, depois do que quase deixei escapar.
As palavras pesadas ainda ecoam na minha mente, como se tivessem ficado impressas no silêncio.
“Você é a única coisa que me resta.”
Eu deveria ter ficado calado. Deveria ter mantido a distância.
Mas toda vez que a vejo lutar ao meu lado, mesmo sem entender tudo, percebo como estou me tornando dependente dela.
Dependente demais.
E isso é perigoso.
Para mim.
Para ela.
Para nós.
Ela se mexe, respira fundo, e eu aproximo a manta sobre seu corpo. Sua expressão tranquila contrasta com o caos dentro da minha cabeça. Não consigo dormir. Não consigo desligar.
O rosto do homem que encontramos mais cedo volta à minha mente sangue, medo, e um único nome sussurrado antes da vida deixá-lo, o nome do homem que financiou meu inferno. A mesma pessoa ligada ao pai dela.
Coincidência? Nunca.
Eles sempre souberam onde apertar para me quebrar.
Passo a mão pelos cabelos, frustrado, exausto.
Não posso permitir que Lara seja usada contra mim.
Nem por meu inimigo, nem pela memória distorcida de seu pai.
Ela é forte, mas não nasceu para esse jogo sujo.
Mas a verdade é simples e c***l:
Agora ela está dentro.
E não há saída.
Fecho os punhos. Amanhã vamos falar com o informante que restou Salvatore.
Um velho conhecido, um homem que vende informações como se fossem cigarros.
Nunca confiável, Nunca estável, Mas tem o que precisamos.
E eu vou ouvir o que ele tem, custe o que custar.
****
Algumas horas depois
Lara acorda devagar, os olhos sonolentos me encontrando na penumbra.
— Você não dormiu — ela murmura.
— Não precisava — respondo, me levantando.
— Temos um dia longo, Se arruma, Saímos em trinta minutos.
Ela franze o cenho, mas não discute. A confiança dela me atinge como um golpe inesperado.
Como ela ainda confia em mim, depois de tudo?
Eu me viro para o espelho, ajeitando a camisa.
O reflexo mostra alguém que não reconheço completamente: mais duro, mais sombrio.
Lara se aproxima por trás e coloca a mão no meu ombro.
— Dante, eu estou com você. Lembra disso.
Eu fecho os olhos por um segundo.
— Eu lembro mais do que deveria.
Ela sorri levemente, mas percebo a tensão escondida.
Ela está com medo, mesmo tentando disfarçar. E isso me devora por dentro.
*****
No carro
O caminho até o galpão abandonado onde Salvatore marcou o encontro é cercado por silêncio.
Não aquele confortável mas o tipo pesado, denso, que anuncia tempestade.
Lara observa a paisagem cinza enquanto fala, finalmente, o que guardou a noite inteira.
— Você acha mesmo que meu pai, estava envolvido com eles?
Eu aperto o volante.
— Acho que seu pai não era quem você pensava — digo com cautela.
— Mas isso não significa que ele era completamente culpado.
Ela respira fundo, tentando processar.
— E o que vamos descobrir com Salvatore?
— Se o nome do seu pai é apenas uma sombra ou uma peça-chave.
Os olhos dela encontram os meus. Há dor ali, mas também fogo.
— Eu quero a verdade, Dante. A real. Mesmo que doa.
Eu seguro sua mão por um instante. Não deveria. Mas faço.
— Então vamos buscá-la.
*****
O galpão
O cheiro de ferrugem e gasolina se mistura ao vento frio.
Lara aperta o casaco contra o corpo, os passos firmes ao meu lado.
Salvatore aparece alguns minutos depois, mancando, os olhos pequenos como de um rato que passou a vida inteira nas sombras.
— Dante Moretti… — ele ri, mostrando dentes manchados.
— A última vez que nos vimos, você me quase quebrou três costelas.
— Você ainda está respirando. Parece que não foi o suficiente — digo, direto.
Ele olha para Lara, e sua expressão muda uma mistura de surpresa e interesse.
Eu já estou sem paciência.
— Nem pense nisso, Salvatore.
— Claro, claro — ele levanta as mãos. — Vamos ao que interessa. Tenho as informações que pediu. Mas não vai gostar.
Lara respira fundo ao meu lado. Eu toco seu braço discretamente o suficiente para ancorá-la.
— Fala — ordeno.
Salvatore abre um envelope amassado, tirando fotos, registros, documentos antigos. Ele espalha tudo em cima de uma mesa suja.
E então aponta.
— Aqui. O nome. A conta bancária. As datas. Tudo leva ao mesmo homem. Ao mesmo investidor. Inclusive — ele olha para Lara o pai dela.
Vejo o corpo dela enrijecer.
— Não. — Ela sussurra, quase sem ar. — Isso não é possível.
Salvatore continua, impiedoso
— Ele financiou parte das operações clandestinas.
Não sozinho, mas com conhecimento do que acontecia nos bastidores.
E antes de morrer ele tentou sair, Mas ninguém sai desse mundo, querida.
Lara dá um passo para trás, como se tivesse levado um tapa.
Eu fico imediatamente ao lado dela, meu instinto gritando para protegê-la.
— Você tem mais? — pergunto, a voz baixa e afiada.
Salvatore sorri.
— Tenho. E é pior.
Ele joga uma última folha sobre a mesa.
Uma lista Com nomes, Datas, Valores.
E uma anotação final
“Se eu desaparecer, encontrarão tudo nela.”
Assinada, pelo pai dela.
Lara leva as mãos à boca, os olhos marejando, chocados, quebrados.
Eu seguro seus ombros antes que ela caia.
Ela olha para mim, desesperada.
— Dante, por que meu pai? Por quê?
Eu encosto a testa na dela, segurando firme, como se pudesse impedir que esse novo golpe a destruísse.
— Eu não sei — digo, a voz baixa, sincera — mas vou descobrir, Com você, Nunca sozinho.
Ela fecha os olhos, lágrimas caindo.
E é aí que percebo a verdade que já estava tentando ignorar.
Eu faria qualquer coisa para protegê-la.
Até enfrentar fantasmas que julgava enterrados.
Até destruir quem quer que esteja por trás de tudo mesmo que isso inclua enfrentar a memória do homem que ela mais amou.
Salvatore limpa a garganta, interrompendo o momento.
— Tem mais uma coisa — ele diz, olhando para mim com um brilho estranho.
— Eles sabem que vocês estão juntos. E não gostaram nada disso.
Meu sangue gela.
Lara aperta minha mão.
E eu só penso em uma coisa:
Se alguém tocar nela, se alguém sequer tentar usá-la contra mim vai descobrir até onde posso ir.
E não haverá volta.