Lara
O escritório ainda parecia pequeno demais para tudo o que havia sido dito ali dentro.
Eu permanecia nos braços de Dante por alguns segundos a mais do que o necessário — não porque estivesse fraca, mas porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisava ser forte sozinha.
O coração dele batia firme contra o meu rosto. Ritmo constante. Seguro.
Era estranho como isso me acalmava.
Mas a calma não dura no mundo de Dante Moretti.
Eu me afastei devagar, respirando fundo, e enxuguei o rosto antes que ele dissesse qualquer coisa. Não queria piedade. Não queria proteção cega. Queria… parceria.
— Você disse que iríamos atrás dele juntos — falei, quebrando o silêncio.
Dante me observou com atenção, como se estivesse avaliando se eu realmente estava pronta para ouvir o que viria.
— Eu disse — respondeu. — E não retiro nada do que falei.
Cruzei os braços, reunindo coragem.
— Então você precisa saber de tudo.
O olhar dele escureceu.
— Tudo o quê?
Eu caminhei até a escrivaninha e peguei a pasta que havia escondido na bolsa desde que chegamos ali. Meus dedos tremiam um pouco quando a coloquei sobre a mesa.
— Eu não te contei tudo sobre o meu pai… nem sobre o que realmente aconteceu antes da empresa quebrar.
Dante não falou nada. Apenas puxou uma cadeira e sentou, atento, silencioso. Ele sabia ouvir quando precisava — e isso dizia muito mais sobre ele do que qualquer ameaça.
Abri a pasta.
— Dois meses antes da falência, meu pai descobriu uma transferência estranha — comecei. — Um valor alto, enviado para uma conta offshore que não estava no nome da empresa… nem no nome do meu tio.
Dante inclinou o corpo para frente.
— De quem era a conta?
— Não sabemos. O nome era falso. Mas havia um padrão — os depósitos coincidiam com reuniões que meu pai teve com um investidor externo.
— O Consórcio — ele concluiu.
Assenti.
— Meu pai desconfiou que estavam usando a empresa como fachada para lavar dinheiro. Quando ele confrontou meu tio… tudo mudou.
Minha voz falhou por um segundo, mas continuei.
— Uma semana depois, ele sofreu o “acidente”.
O maxilar de Dante travou.
— Você acha que ele foi assassinado.
— Eu tenho quase certeza — respondi. — E é por isso que eu nunca acreditei que meu tio fosse apenas ganancioso. Ele estava com medo. E pessoas com medo fazem pactos com monstros.
O silêncio que se seguiu era pesado. Dante se levantou devagar e caminhou até a janela, passando a mão pelo queixo, pensativo.
— Isso muda muita coisa — ele disse. — Se o Consórcio matou o seu pai… eles não vão parar enquanto você estiver viva.
— Eu sei — falei, sem desviar o olhar. — Por isso eu preciso ir até o fim.
Ele virou para mim.
— Mesmo que isso te coloque diretamente na linha de fogo?
— Especialmente por isso.
Houve um instante de tensão silenciosa. Eu sabia que estava pedindo algo enorme. Não apenas ajuda. Estava pedindo que ele me deixasse entrar no coração da guerra dele.
Dante caminhou até mim.
— Você não está entrando na linha de fogo — ele disse, firme. — Você já está nela.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— E se eles tocaram no seu pai… então o Consórcio acabou de ganhar um inimigo que não vai negociar.
Meu coração apertou.
— Dante… isso pode destruir você.
Ele sorriu. Um sorriso frio. Perigoso.
— Eu já fui destruído antes — respondeu. — A diferença é que agora… eu tenho algo a proteger.
A intensidade do olhar dele me atingiu em cheio.
— Nós precisamos de provas — continuei, tentando manter a racionalidade. — Documentos. Registros. Algo que ligue meu tio diretamente ao Consórcio e à morte do meu pai.
— Já estamos atrás disso — ele respondeu. — Mas você acabou de me dar a peça que faltava.
Ele caminhou até o computador e abriu um arquivo criptografado.
— O invasor de ontem à noite não veio para te matar — Dante disse. — Veio procurar isso.
Ele virou a tela para mim.
Meu sangue gelou.
Era uma cópia do relatório financeiro da empresa do meu pai. Exatamente o mesmo que eu tinha guardado na pasta.
— Como…? — minha voz saiu em um sussurro.
— Porque seu tio denunciou que você tinha esses documentos — ele respondeu. — Ele quer que pareça que você está escondendo provas para se livrar da culpa.
Um nó se formou no meu estômago.
— Então tudo foi planejado…
— Desde o início — Dante confirmou. — Eles querem te isolar. Te descredibilizar. Te forçar a correr.
Ele se aproximou de mim outra vez.
— Mas você não vai correr.
— Não — eu disse, firme. — Eu não vou.
Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos.
— A partir de agora, cada movimento seu vai ser calculado — afirmou. — Cada torneio. Cada aparição pública. Cada passo.
Seu polegar roçou meu dedo, lento, íntimo.
— E eu vou estar do seu lado em todos eles.
Meu coração bateu mais forte.
— Isso inclui o próximo torneio?
— Especialmente ele — Dante respondeu. — Porque é lá que eles menos esperam que você ataque.
Eu respirei fundo.
— Então vamos jogar — falei. — Não só cartas… mas o jogo deles.
Dante sorriu. Um sorriso que prometia caos.
— Essa é a Lara que eu conheço.
Ele se inclinou e encostou a testa na minha.
— Confia em mim?
Olhei nos olhos dele. Vi perigo. Vi sombras. Vi fogo.
Mas também vi algo novo.
Verdade.
— Confio — respondi.
Ele me puxou para um beijo lento, profundo, cheio de promessas silenciosas. Não havia pressa. Não havia medo.
Só a certeza de que atravessaríamos aquilo juntos.
Quando nos afastamos, Dante sussurrou:
— Então prepare-se…
— Porque o jogo está só começando.
E, pela primeira vez desde a morte do meu pai, eu senti algo que não era dor.
Eu senti poder.