Lara
O tio de Lara ainda era uma ameaça, Rafael ainda estava em movimento, e o Consórcio nunca dormia.
Dante me olhou, olhos queimando de intensidade.
— Você foi incrível — disse, quase sem fôlego, aproximando o rosto do meu.
— Nós fomos incríveis — corrigi, sentindo meu corpo reagir à presença dele.
Ele sorriu de lado, mas não completamente.
O perigo ainda nos cercava, e cada vitória era apenas temporária.
— Próximo passo — murmurou ele, baixinho.
— Encontrar o ponto fraco dele.
— E derrubá-lo — completei.
Nosso olhar se encontrou, carregado de cumplicidade, adrenalina e algo que ia além do que eu podia nomear.
E naquele instante, percebi algo com clareza.
Entre cartas e corações, estávamos jogando a partida mais perigosa de nossas vidas juntos.
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A madrugada estava quase virando de manhã quando chegamos ao apartamento seguro que Adrien havia arranjado.
Meu corpo ainda tremia da corrida, da adrenalina, do medo e de Dante.
Assim que a porta se fechou atrás de nós, senti o peso da noite inteira desabar sobre meus ombros.
Me encostei na parede, respirando fundo, tentando recuperar o ar.
As mãos ainda tremiam.
Dante percebeu.
Ele sempre percebe.
— Lara — disse ele, aproximando-se devagar, como um predador que já sabe que você vai ceder. — Respira.
— Eu estou bem — respondi. Mas minha voz não estava firme.
— Não minta pra mim — ele rebateu, a voz baixa, quente, certeira.
Ele colocou a mão na parede ao lado do meu rosto, sem me tocar, mas me cercando.
Meus batimentos aceleraram, mas não de medo.
Era dele.
Do jeito que ele me olhava.
Do jeito que ele me lia.
— Você acabou de encarar os homens do Consórcio no território deles — disse, a voz rouca.
— Tem direito de tremer. Mas não tem permissão de se quebrar.
Engoli seco.
— Não vou me quebrar.
A expressão dele suavizou.
— Eu sei. Você não é feita pra quebrar. É feita pra vencer.
Meu peito afundou.
E, por um momento, eu quase chorei.
Quase.
Mas os Cardoso não choram.
Pelo menos não na frente dos inimigos.
E Dante, Dante era meu aliado. Mas também era o homem capaz de desmontar minhas defesas com um único olhar.
Ele afastou o rosto apenas o suficiente para que eu respirasse.
— Senta — ordenou suavemente.
— Vamos revisar o que encontramos.
Eu me obriguei a caminhar até a mesa, jogando tudo o que havíamos coletado sobre ela: documentos, fotos, registros de transferência, listas de nomes.
Tudo aquilo formava um mosaico sombrio da verdadeira vida do meu tio.
Dante ficou atrás de mim, observando em silêncio enquanto eu analisava cada papel.
Eu sentia a proximidade dele como um calor constante.
Um conforto perigoso.
— Aqui — apontei finalmente, encontrando o que procurava.
— Essa sequência de depósitos.
Dante inclinou-se próximo ao meu ombro, acompanhando com os olhos.
— São repetitivos demais — ele concluiu.
— Movimentações planejadas.
— E sincronizadas com viagens dele — acrescentei.
— Ele está encontrando alguém. Um investidor. Alguém acima dele.
— Ou alguém que quer substituí-lo — Dante completou.
O silêncio pesou por um momento.
Eu respirei fundo antes de falar,
— Dante meu tio não está movendo tudo isso sozinho. Ele sempre foi inteligente, mas isso aqui é maior. Muito maior.
Dante me encarou, sério.
— Você acha que existe um líder acima do seu tio?
Assenti.
— E que ele está cada vez mais perto de aparecer.
A ideia não o surpreendeu.
Mas o deixou tenso. Mais do que antes.
Ele deu a volta na mesa e se agachou na minha frente.
Ficamos de olho a olho.
E eu senti minha respiração falhar de novo.
— Lara — disse ele, com uma calma que não combinava com a tempestade que vi nos olhos dele me diz a verdade você está pronta pra descobrir tudo?
Engoli em seco.
— Estou.
— Mesmo que isso destrua sua família… de vez?
Meu coração apertou.
Mas eu não desviei o olhar.
— Minha família já está em ruínas, Dante. Só estou recolhendo os pedaços.
Ele me observou por um instante longo demais.
E então, com um gesto inesperado, ergueu minha mão e a levou aos lábios.
— Então vamos até o fim — prometeu. — Eu com você.
Um arrepio percorreu minha coluna.
Antes que eu respondesse, ouvimos passos do lado de fora.
Um som rápido. Furtivo.
Alguém estava no corredor.
Dante se levantou num salto.
Seu corpo inteiro entrou em modo de ataque.
Ele puxou a arma silenciosa da cintura e moveu-se até a porta.
— Fica atrás de mim — ordenou.
— Nem por um segundo — sussurrei, ficando ao lado dele.
A porta bateu de leve.
Silêncio.
Tensão.
Minha respiração está congelada.
Dante fez um sinal.
Eu entendi.
Ele abriu a porta de uma vez.
E puxou a pessoa para dentro.
— Calma! — uma voz conhecida gritou.
— Sou eu, sou eu!
Era Matteo.
Suado, ofegante, apressado.
— Precisava avisar vocês — ele disse, jogando a mochila no chão.
— O tio da Lara sabe que vocês invadiram a mansão. Ele está furioso. E…
Ele nos olhou com uma expressão grave.
— Ele convocou uma reunião de emergência. Com o líder deles.
Meu coração parou.
Dante travou a mandíbula.
Matteo continuou:
— A primeira grande reunião em dez anos.
— Sobre mim? — perguntei, a voz falhando.
— Sobre todos vocês — Matteo respondeu.
— E sobre o torneio. Isso está ligado ao plano maior deles. Muito maior do que imaginávamos.
As palavras pareciam pesadas demais para caber no ar.
Dante aproximou-se de mim, seus olhos intensos, firmes, ardentes.
— Lara… o centro do jogo mudou.
— Eu sei — respondi.
— E eu também mudei.
Ele me segurou pelo queixo, o toque firme e sensual.
— A partir de agora nenhuma jogada sua é só um movimento.
— É uma ameaça — completei.
— É poder — ele corrigiu.
E naquele instante, eu entendi:
A partir de agora, eu não estava apenas fugindo.
Eu estava entrando no tabuleiro como uma jogadora perigosa.
E todos sabiam disso.