♦️Lara
O silêncio dentro da casa segura era quase ensurdecedor.
Lara encostou as costas na parede da pequena sala, tentando recuperar o fôlego , não só pela fuga, nem pelo risco que quase os engoliu horas antes.
Mas pelo beijo.
Pelo jeito que Dante a segurou.
Pelo jeito que ela correspondeu sem pensar.
Pelo modo como tudo aquilo parecia… inevitável.
O peito dela ainda subia e descia devagar, tentando encontrar um ritmo mais estável.
O gosto dele permanecia em sua boca, quente, intenso, quase viciante.
E, mesmo com a cabeça girando, uma única certeza pulsava nela:
Ela estava perdida.
Não no sentido r**m.
Mas no sentido de que Dante tinha se tornado uma força gravitacional impossível de ignorar.
Lara respirou fundo, tentando colocar os pensamentos em ordem. Mas logo a porta do corredor se abriu e Dante apareceu.
Ele parecia tenso , ainda mais do que antes , mas havia algo diferente no olhar dele.
Algo mais suave, mais próximo mais perigoso para o coração dela.
— Matteo já saiu para averiguar o perímetro — ele disse, a voz baixa.
— Estamos seguros por agora.
Lara assentiu, mas não conseguiu olhar diretamente para ele sem lembrar do calor do beijo.
Ele reparou.
— Você está… — Dante parou por um instante, desviando o olhar como se tentasse encontrar a palavra certa.
— Assustada?
Ela respirou fundo.
— Assustada, sim. Mas não pelo que você acha.
Ele franziu o cenho.
— Então por quê?
Lara ergueu o olhar. E ali, finalmente, disse algo que vinha engolindo há dias.
— Porque você mexe comigo de um jeito que não devia.
A expressão dele mudou.
Houve um brilho. Um risco.
Um perigo completamente diferente dos homens armados que os perseguiam.
— Lara… — ele começou, mas ela levantou uma mão.
— Eu não estou dizendo isso para que você se afaste — ela continuou.
— Mas para que você entenda o peso disso.
Eu estou envolvida em algo que sempre prometi evitar: depender de alguém.
Confiar em alguém.
Entregar partes minhas que eu nunca ofereci a ninguém.
O silêncio pairou entre eles.
Dante deu dois passos para mais perto, e o ar pareceu ficar mais denso.
— Eu sei — ele disse, a voz rouca.
— E acredite, isso me assusta tanto quanto assusta você.
Lara sentiu o coração tropeçar dentro do peito.
Ele nunca havia admitido medo de nada. Nem de ninguém.
— Você me faz querer… — Dante passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Você me faz querer coisas que eu nunca quis. Coisas que não estavam no meu plano. Nem no meu mundo.
Ele riu, sem humor.
— E olha que o meu mundo é um inferno para quem se aproxima demais.
Lara deu um passo até ficar frente a frente com ele.
— Então por que me puxou para esse beijo? — ela perguntou, direta.
Dante inspirou fundo, os olhos escurecendo.
— Porque eu não aguento mais fingir que não te quero.
E porque, por um segundo, eu pensei que poderia te perder hoje.
A respiração dela falhou por um instante.
Algo dentro dela cedeu. Não tinha mais volta.
Lara tocou o braço dele, devagar um toque pequeno, mas que incendiou tudo.
— Então não finge — ela murmurou. — Não comigo.
Os olhos dele desceram para os lábios dela.
Ela viu a luta interna.
O conflito de um homem que vivia no limite entre instinto e controle.
Dante se aproximou o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele.
— Eu não tenho certeza se consigo ser… seguro para você — ele admitiu, baixo.
— Mas eu sei que quero tentar.
As palavras atingiram Lara com uma força inesperada. A garganta dela ficou apertada.
— Ninguém nunca tentou por mim — ela confessou, a voz embargada.
— Nem quando precisei. Nem quando implorei.
Os olhos dele se suavizaram de um jeito que ela nunca tinha visto.
— Eu não sou bom com sentimentos, Lara.
— Ele passou a mão no rosto dela, o toque quente, firme.
— Mas com você… eu estou aprendendo.
Ela sorriu, pequeno, vulnerável.
— Isso já é mais do que eu esperava.
Dante abriu a boca para responder, mas o celular dele vibrou no bolso.
Ele olhou a tela. O rosto dele perdeu toda a suavidade.
— É o Matteo — disse ele.
Lara engoliu seco.
— Más notícias?
— Possivelmente.
Ele atendeu.
— Fala.
Lara observou cada músculo do corpo dele ficar em alerta.
A postura rígida, o olhar duro, a respiração controlada.
O Dante protetor e o Dante perigoso se misturando em um só.
Depois de alguns segundos, ele guardou o celular.
— Entra. Agora — ele disse, segurando a mão dela.
— Vou te mostrar uma coisa.
O coração de Lara disparou.
— O que está acontecendo?
— Matteo rastreou a mensagem de Rafael. — A voz de Dante era grave, cortante.
— E descobriu a origem.
— E…?
Dante parou diante de uma porta reforçada, destravou o cofre ao lado e abriu.
— O traidor não trabalha apenas para mim — ele disse, os olhos escurecidos.
— Trabalha para alguém que você conhece.
Lara sentiu o sangue gelar.
— Quem?
Dante a encarou por um segundo.
— Seu pai.
Lara ficou sem ar.
— Meu… pai?
Dante puxou de dentro do cofre um envelope grosso , cheio de documentos, fotos, registros de transferência, arquivos.
— Seu pai está envolvido com Rafael há anos.
E não só isso, Lara.
Ele colocou o envelope nas mãos dela.
— Ele apostou contra você no torneio anos atrás.
E agora está apostando a sua vida.
Lara sentiu o mundo girar.
Nada seria igual depois daquilo.
Nem ela.
Nem Dante.
Nem o jogo.