Lara
Eu acordo antes dele.
Talvez por hábito. Talvez porque ainda não consigo acreditar no que aconteceu.
Na forma como ele ficou, realmente ficou depois de dizer que não sabia amar da maneira certa.
Na forma como me segurou, como se eu fosse a primeira coisa na vida dele que valia a pena proteger de verdade.
Dante está deitado ao meu lado agora, respirando profundamente, o rosto relaxado de um jeito que raramente vi.
O sol da manhã entra de leve pelas cortinas e desenha sombras sobre o peito dele, sobre a linha forte do maxilar, sobre o braço que ainda está firme em torno da minha cintura, como se mesmo dormindo ele tivesse medo de que eu escapasse.
Me aproximo devagar, apenas olhando.
Ele parece menos feroz assim.
Menos um rei perigoso.
Menos o homem que acha que pode enfrentar o mundo sozinho.
E mais… meu.
Meu peito aperta com uma mistura de medo e alegria.
Porque querer Dante é fácil.
Mas tê-lo , tê-lo de verdade , é outra história.
Uma história que envolve riscos. Segredos. E o tipo de perigo que não está apenas na mesa de pôquer.
Mas eu não volto atrás.
Não depois de ouvir,
“Você é minha. E eu sou seu. Inteiro. Sem volta.”
Isso está gravado em mim.
Passo a ponta dos dedos pelo peito dele, devagar, apenas tocando. Sinto a respiração dele mudar, lenta, despertando.
Ele abre os olhos aqueles olhos escuros, intensos, perigosos e por um segundo… apenas me observa.
Como se eu fosse algo precioso.
Algo dele.
—Você está me encarando — ele murmura, a voz grave de sono.
Sorrio, pequena.
—Não estou te encarando. Estou te observando.
Ele ergue uma sobrancelha.
—Parece a mesma coisa.
—É diferente — retruco. — olhar não é julgar. Observação é... contemplação.
Um canto da boca dele se ergue, preguiçoso, perigoso.
—Então você estava me contemplando?
Corro a língua pelos lábios, sem intenção, e os olhos dele escurecem.
—Talvez — digo, tentando parecer indiferente, mas meu rosto quente me entrega.
Ele me puxa mais para perto, o corpo dele encaixando no meu, e sinto o calor, a força, a presença a promessa silenciosa de que ele está tentando. Que ele está comigo.
—Você é uma tentação desde a hora em que abre os olhos — ele diz, baixinho, quase um aviso.
Meu coração dispara.
—E você é perigoso desde o primeiro minuto do dia — murmuro de volta.
O sorriso dele se aprofunda.
—É por isso que funciona — ele diz, sua mão deslizando pela minha cintura, marcando lentamente a curva do meu quadril.
— Você não tem medo de mim.
Eu inspiro fundo.
—Eu tenho medo, Dante.
Os olhos dele se estreitam.
Seguro o rosto dele, minhas mãos espalmadas contra as laterais de sua mandíbula forte.
—Medo de perder você — sussurro.
Ele congela. De verdade.
Como se as palavras tivessem atingido um ponto que ele nunca deixa ninguém tocar.
A mão dele sobe para minha nuca, puxando meu rosto para encostar no dele.
—Você não vai me perder — ele diz, firme, rouco, quase ameaçador.
— Enquanto eu respirar, você não vai me perder.
Minha garganta aperta.
Eu acredito nele.
Esse é o problema.
Eu acredito demais.
Ele beija minha testa não com fome, não com desejo, mas com algo tão puro que me deixa sem ar.
A boca dele fica ali por alguns segundos, como se estivesse fazendo uma promessa.
E então, claro, a realidade bate na porta.
Literalmente.
TOC. TOC. TOC.
Dante fecha os olhos como se fosse matar alguém pelo único motivo de existir às nove da manhã.
—Se for o Marco, eu realmente vou jogar ele da escada — ele resmunga.
Eu não tenho tempo de responder.
Ele levanta um pouco, em alerta imediato — o instinto de sobrevivência dele nunca tira folga — e diz:
—Fica atrás de mim. Não se aproxima da porta sem minha permissão.
—Quem você acha que seria tão burro de vir aqui assim? — pergunto.
Ele olha por cima do ombro, e o olhar diz tudo:
Alguém muito burro ou alguém muito perigoso.
Ele caminha silenciosamente até a porta, pega a arma que estava escondida na gaveta do criado-mudo e encosta o dedo no gatilho.
Abro a boca para protestar, mas a verdade é que o mundo dele também é meu agora.
E bater na porta de Dante Moretti sem avisar é sempre suspeito.
Ele abre a porta com violência calculada.
E eu vejo,
Marco.
Pálido.
Suando.
Com o celular tremendo na mão.
—Chefe… — ele gagueja — aconteceu.
Dante fecha o corpo todo, como um animal prestes a atacar.
—Fala.
Marco passa a mão pelo rosto, como se não conseguisse organizar as palavras.
—O Consórcio eles divulgaram algo. Sobre ela.
Meu estômago desaba.
—O quê…o que eles divulgaram? — pergunto, me aproximando.
Marco ergue o celular.
E quando olho a tela…
Meu coração congela.
Minha foto.
Eu.
Na mesa final do torneio.
Com o título,
“A jogadora que roubou o próprio pai para financiar sua carreira.”
Sinto o mundo girar.
Um aperto sufocante no peito.
As pernas fraquejam.
Dante segura minha cintura antes que eu caia.
—É mentira — sussurro, mas a voz não sai.
O mundo está desmoronando embaixo dos meus pés.
O passado que eu tentei esconder.
O passado que o Consórcio prometeu destruir.
E Dante…
Dante fica rígido.
Letal.
—Quem postou isso? — ele pergunta, voz baixa demais para ser humana.
Marco engole seco.
—O tio dela.
Sinto a mão de Dante apertar na minha cintura.
E então, pela primeira vez.
Eu vejo Dante entrar em um estado que só tinha ouvido rumores, o modo Moretti sem limites.
Ele me puxa para ele, protegendo, dominando, feroz.
—Eles vão pagar por isso — ele diz, olhando para mim.
— Vão pagar por cada lágrima que você derramar. Por cada dano à sua vida.
Por cada segundo em que você pensar em duvidar de quem você é.
A voz dele é uma sentença.
—Eu prometo, Lara… — ele aproxima a testa da minha.
— ninguém toca em você. Ninguém destrói você. Não enquanto eu existir.
E pela primeira vez.
Eu não tenho medo do que ele é capaz.
Eu tenho medo do que eu faria para proteger ele também.