📘 Almas de Fera
CapÃtulo 79 – O Despertar do Selo
O imenso vazio sem forma começou a ondular e a tremer, reagindo diretamente à luz que saÃa do corpo de Zaira. Ondas invisÃveis de poder percorriam todo aquele espaço infinito, como se algo antigo, adormecido há milhares de anos, estivesse finalmente a ser f*****o a abrir os olhos.
Zaira respirava com grande dificuldade, o peito a subir e descer depressa. Mantinha‑se na sua forma hÃbrida, mas o corpo mudava constantemente — ora mais humano, ora mais raposa — como se as duas naturezas lutassem para se manterem firmes, ainda instáveis perante a verdade que começava a descobrir.
— Eu não vou ficar aqui presa… não serei apenas o que quiseram que eu fosse… — repetiu ela, cada vez mais forte e decidida.
Vharok observava‑a em silêncio, com toda a sua imensa presença. Pela primeira vez, não havia apenas calma ou sabedoria no seu olhar antigo. Havia brilho, interesse, uma profunda expectativa.
— É isso mesmo… — murmurou ele quase para si próprio. — Continua… mostra‑me do que és realmente feita.
Zaira fechou os olhos com força, juntou todas as lembranças, todos os sentimentos, todo o amor que carregava no coração. A luz dourada explodiu outra vez à sua volta, mas desta vez não se espalhou nem desapareceu: manteve‑se firme, brilhante e sólida como ouro puro.
E à medida que a luz crescia, os pedaços soltos da sua memória começaram a encaixar‑se um a um, formando um quadro maior: o cÃrculo antigo onde nascera, a energia poderosa que a moldara, o fardo pesado que lhe deram sem que ela soubesse… e também a liberdade que sempre lhe foi negada.
Levou as duas mãos ao peito, sentindo o bater forte do coração.
— Tudo isto… eu sempre carreguei isto comigo… — sussurrou, espantada. — Parece mentira… parece um sonho muito antigo.
E então ouviu‑o de novo. Mais nÃtido, mais forte, mais perto. A voz que atravessara tudo o que existe só para chegar até ela.
— Zaira! Onde estás?!
Algo dentro dela deu um salto e respondeu de imediato, como se uma corda invisÃvel os ligasse e puxasse um para o outro. A luz dela bateu mais forte, iluminando todo o vazio.
Vharok inclinou a cabeça imensa, curioso e admirado.
— Ele está a puxar‑te para si… uma ligação forte, muito forte… é interessante… — comentou ele.
Zaira abriu os olhos de repente, brilhantes e cheios de certeza, surpreendendo até a si própria.
— Não… não é só ele a puxar… — disse ela firme. — Sou eu. Eu também escolho ir ter com ele.
No mesmo instante, todo aquele mundo escuro e sem limites tremeu profundamente.
âš¡ No Templo DestruÃdo
Lá fora, entre as pedras caÃdas e a poeira que ainda voava pelo ar, Kael estava de joelhos mesmo à beira do abismo. A sua luz dourada oscilava, forte e fraca ao mesmo tempo, como uma chama que luta contra o vento forte.
Selene apoiava‑se numa coluna partida, levando a mão ao coração, com os olhos cheios de lágrimas e medo.
— Kael… por favor… se entrares ali agora, podes nunca mais voltar… ninguém sabe o que há lá dentro… — suplicou ela com voz trémula.
Mas ele nem sequer virou a cabeça para ela. Os seus olhos estavam pregados à escuridão, como se conseguisse ver para lá dela. A voz saiu baixa, calma, mas com uma certeza absoluta que ninguém podia abalar.
— Ela está viva. Sinto‑a. Está à minha espera.
Arion aproximou‑se devagar, também ele preocupado mas compreendendo o que se passava no coração do jovem rei.
— Mesmo que consigas entrar… não sabes o que vais encontrar, que forças antigas te esperam… podes perder‑te para sempre.
Kael levantou‑se lentamente, endireitando o corpo todo, cheio de determinação.
— Eu não preciso de saber o que há lá. Não preciso de entender nada. — Olhou diretamente para a f***a n***a como se a desafiasse. — Eu só preciso dela. Onde ela estiver, ali estarei eu também.
Deu um passo em frente. A magia antiga do templo reagiu de forma violenta, fazendo o chão tremer e as pedras a voarem à volta, abrindo ainda mais a passagem proibida.
🌑 De Volta ao Vazio
Zaira sentiu o impacto dessa decisão como se tivesse sido dentro dela própria. Algo na estrutura daquele lugar estranho abriu‑se ainda mais, rasgando o tecido do espaço, criando uma passagem onde antes só havia nada.
— Kael… — sussurrou ela, com esperança e alegria a crescerem no peito.
Vharok avançou um pouco na sua direção, a voz grave e cheia de aviso.
— Ele está a forçar os limites que existem desde o princÃpio dos tempos… pode destruir‑se a si mesmo e a tudo o resto.
Zaira recuou primeiro, instintivamente, ainda instável na sua forma… mas parou logo a seguir. Endireitou‑se, ergueu o queixo e não deu mais um passo para trás.
— Eu não sou apenas um selo… uma prisão… uma ferramenta… — disse ela, a voz a tremer um pouco mas cheia de força nova. — Eu sou Zaira. E eu decido o que serei e o que farei.
A luz dourada que a envolvia tornou‑se tão brilhante que quase ofuscava a própria escuridão eterna.
— Eu escolho o meu destino.
O silêncio caiu sobre todo o vazio, pesado e respeitoso. Vharok observava‑a com uma intensidade profunda, como se estivesse a ver algo que nunca pensara vir a existir.
— Escolher… é algo muito perigoso… e raro… — disse ele devagar. — Muitos perecem ao tentar fazê‑lo.
Zaira ergueu ainda mais a cabeça, brilhante e destemida.
— Então deixa‑me correr esse risco. É o meu direito.
De repente, o espaço à volta começou a rachar como vidro antigo. Linhas de luz dourada cortaram a escuridão n***a de ponta a ponta, e uma porta imensa abriu‑se entre os dois mundos, ligando‑os de vez.
âš¡ O Grande Encontro
No mundo real, Kael respirou fundo uma vez, deu um passo firme e atravessou a borda da f***a. A escuridão engoliu‑o de imediato, sem deixar rasto.
— KAEL!! NÃO!! — gritou Selene, desesperada, correndo até à beira, mas já era tarde demais. Arion tentou segurá‑la, mas ambos ficaram ali, parados, de coração apertado, olhando para o abismo que lhes levara tudo o que amavam.
Lá no fundo, naquele reino de sombras, Kael caiu no vazio… mas não caiu perdido nem sozinho. Uma luz quente e familiar envolveu‑o de imediato, guiando‑o como uma estrela brilhante na noite. E ao longe, no meio de toda aquela escuridão infinita… ele viu‑a.
Zaira. De pé, firme, na sua forma hÃbrida — metade raposa, metade humana, cabelo e pelo a brilharem, olhos verdes cheios de luz própria, ainda envolta numa energia instável mas poderosa.
— Kael… conseguiste vir… — sussurrou ela, com lágrimas nos olhos.
Ele correu na sua direção, flutuando por aquele espaço estranho como se o amor que sentia fosse o seu próprio chão. Quando finalmente chegou a ela, agarrou‑a com toda a força, todo o medo e todo o amor que tinha dentro de si, apertando‑a contra o peito para ter a certeza absoluta de que era real.
— Encontrei‑te… afinal encontrei‑te… nunca mais te largo… prometo… — murmurou ele contra o cabelo dela, a voz embargada de emoção.
Zaira tremia nos seus braços, mas não de medo desta vez. Era alÃvio, felicidade, segurança. Apoiou a cabeça no seu ombro e fechou os olhos, respirando o ar que ele trazia consigo.
— Eu disse que voltava para ti… que não ficaria aqui… — respondeu ela baixinho.
Muito longe, observando tudo de uma sombra imensa e silenciosa, Vharok permanecia imóvel. E lentamente, alguma coisa mudou profundamente no seu olhar antigo e sábio. A surpresa deu lugar a uma compreensão nova, a uma mudança de planos… parecia que aquilo não era o fim de uma história antiga, mas sim o verdadeiro começo de algo completamente diferente — algo que ninguém poderia prever.
continua...