A verdade que dói

1019 Words
📘 Almas de Fera Capítulo 77 – A Verdade Que Dói Selene respirava com imensa dificuldade, o peito a subir e descer em soluções cortantes, ainda apoiada e segura nos braços fortes de Arion. As lágrimas corriam‑lhe pelo rosto sem parar, lavando a poeira e o medo, deixando a pele branca e marcada por uma dor que parecia não ter fim. Os seus olhos permaneciam pregados àquela abismo n***o, como se ainda esperasse ver‑a ali, a sua menina. — Ela… — tentou dizer, mas a voz partiu‑lhe na garganta, fraca e trémula. Arion apertou‑a mais um pouco contra si, baixando o rosto para ela, cheio de receio e amor. — Selene… o que foi? Diz‑me, por favor… Ela fechou os olhos com força, levando um instante a reunir coragem e forças para pronunciar aquelas palavras — como se dizê‑las em voz alta tornasse tudo ainda mais real, mais terrível. Quando finalmente abriu os olhos e falou, a voz saiu baixa, trémula, mas absolutamente clara e firme: — Ela está grávida. Naquele instante, o tempo pareceu parar por completo. O ar ficou pesado e imóvel, até as pedras a tremer à volta pareceram silenciar‑se. Kael, que estava parado à beira da f***a, com o pé já quase suspenso para dar o passo que o levaria atrás dela, congelou de uma forma assustadora — todo o corpo rígido, imóvel como uma estátua de gelo. Virou‑se muito devagar, como se cada movimento doesse, os olhos arregalados, sem compreender de início. — O… o quê…? — sussurrou ele, quase sem som. Arion também ficou parado, sem respirar, a olhar para a esposa com os olhos muito abertos e cheios de espanto. — Selene… tens a certeza disso? — perguntou ele, baixo e aturdido. Mas ela não recuou, nem hesitou diante da própria verdade. A sua expressão era de uma tristeza profunda e absoluta. — Eu vi os sinais… senti a mudança nela, o brilho novo e frágil que crescia… e a curandeira confirmou‑o com toda a certeza, antes de partirmos — explicou, e a voz quebrou‑lhe de vez, voltando a encher‑se de lágrimas. — A minha filha carrega vidas novas dentro de si… os nossos netos… e agora está ali, perdida na escuridão. O silêncio que caiu sobre todos foi mais pesado e doloroso do que qualquer ruído ou queda de pedras. Parecia que o próprio templo antigo parara de respirar, respeitando o peso da notícia. Kael continuou a olhar para ela, como se as palavras demorassem a chegar ao seu coração partido. O rosto dele empalideceu tanto que parecia não ter sangue nenhum. — Ela… está… à espera de filhos… repetiu ele devagar, como se estivesse a aprender o significado das palavras. — Os nossos filhos… Selene apenas assentiu lentamente, cobrindo o rosto com as mãos, dominada pela angústia. — Sim, Kael. E ninguém sabia… só nós dois e a curandeira. Queríamos guardar este segredo até que tudo estivesse seguro… Arion passou a mão pela testa e pelo rosto, tentando agarrar aquela ideia, a compreender o que isso significava realmente. — Então… os pequenos… ainda nem viram a luz do mundo… e já estão ali, no meio de todo esse perigo… — murmurou ele, mas não conseguiu terminar a frase; a imagem era demasiado h******l para ser dita. Kael deu um passo para trás, cambaleando, como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos seus pés de vez. Olhou para a f***a n***a, para a escuridão que levara a sua amada. — Ela entrou ali… caiu ali… — disse ele com a voz oca, vazia, como se estivesse a falar sozinho. — E carregava o nosso futuro… a nossa família… Selene deixou‑se cair um pouco mais nos braços do marido, soluçando agora com mais força, a culpa a roer‑lhe o coração. — Eu devia tê‑la protegido melhor… devia ter dito a todos antes… devia ter feito mais… nada disto aconteceria se eu tivesse cuidado dela como devia… Arion segurou‑a com toda a força e carinho que tinha, beijando‑lhe a testa, mas também ele estava profundamente abalado e assustado. Kael cerrou os punhos com tanta força que o sangue voltou a escorrer‑lhe pelas palmas abertas. Os seus olhos dourados começaram a brilhar com uma luz vermelha intensa, cheia de emoção, dor, raiva e um amor que não aceitava perda. — Não… — rosnou ele baixo, primeiro, e depois cada vez mais forte. — Não, não, ISSO n******e SER VERDADE! De repente, uma luz dourada intensa e poderosa explodiu à volta do seu corpo, iluminando todo o templo escuro como um sol nascido ali mesmo. A energia antiga do leão despertou toda, violenta e imensa. — TRAZ‑MA DE VOLTA PARA MIM! DEVOLVE‑ME A MINHA RAPOSA E OS MEUS FILHOS!! O rugido dele ecoou por todo o edifício, atravessou as paredes de pedra e espalhou‑se pelas montanhas lá fora — um grito de rei, de amante, de pai, que desafiava o próprio destino. E como resposta direta à sua força… a grande f***a n***a tremeu e ondulou, como se fosse água agitada. A escuridão lá dentro moveu‑se, mostrando que algo ou alguém ouvira bem cada palavra, cada sentimento. Selene ergueu o olhar, aterrorizada com o que via acontecer. — Kael… para… não faças isso… estás a chamar‑lhe a atenção… — suplicou ela. Mas já era tarde demais. A escuridão profunda começou a reagir ainda mais forte, abrindo‑se ligeiramente. E do fundo do abismo subiu um som grave, profundo e antigo — uma resposta enorme e poderosa ao rugido do leão, como se duas forças que deviam estar separadas finalmente se tocassem. E lá muito dentro, perdida nas sombras, Zaira sentiu essa chamada, sentiu o amor e a força dele a chegar até si… e o seu destino, e o dos pequenos que carregava, começou a mudar lentamente, guiada por essa ligação que nem o próprio abismo podia quebrar. continua...
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