📘 Almas de Fera
Capítulo 59 – As Suspeitas de uma Mãe
A noite caiu devagar e pesada sobre o Reino dos Leões, trazendo consigo uma escuridão mais profunda do que o habitual, como se até as estrelas tivessem medo de brilhar sob a ameaça que se aproximava.
No grande salão iluminado apenas por tochas altas e tremeluzentes, os líderes e conselheiros ainda debatiam sem parar: estendiam mapas sobre as mesas, assinalavam rotas, fortalezas e caminhos seguros, calculavam tempos e distâncias, organizavam a p******o de cada povoado. O ar estava carregado de seriedade e apreensão; a sombra de Vharok pairava sobre todos, pesada e inquietante.
Mas, no meio de toda essa preocupação geral, havia algo que inquietava ainda mais o coração de Selene.
Era Zaira.
Desde o nascer do sol daquele dia, a jovem princesa quase não provara alimento. Recusara o pequeno‑almoço sem dar explicações, m*l tocara nos pratos durante o almoço e, à hora do jantar, limitara‑se a provar algumas frases doces e sumarentas antes de perder de todo o interesse pela comida, afastando‑se da mesa com um ar de fadiga profunda.
Agora, já completamente esgotada por tantas emoções, revelações e tensões, Zaira voltara a transformar‑se na sua pequena forma de raposa de pelo ruivo brilhante. Dormia enrolada confortavelmente num dos grandes e macios cadeirões de madeira, com a cauda fofa e longa a cobrir‑lhe parcialmente o corpo e o focinho, mantendo‑se quentinha e protegida.
Kael estava sentado ao lado dela, numa cadeira mais baixa, com os olhos postos nela mais vezes do que nos documentos que tinha na mão. Enquanto os outros continuavam a falar em voz alta à volta, ele passava‑lhe devagar e com muito carinho a ponta dos dedos pela cabeça e por detrás das orelhas, aliviando‑lhe qualquer tensão que ainda restasse.
— Ela precisa de descansar verdadeiramente, num lugar mais calmo e sossegado — disse ele muito baixo, só para si mesmo ou para quem estivesse perto, com uma expressão de profunda preocupação nos olhos dourados.
Selene, que se mantinha de pé um pouco afastada, observando tudo com atenção, assentiu lentamente com a cabeça.
— Sim… precisamos de a deixar repor forças.
A rainha das Raposas continuou a olhar fixamente para a filha, durante longos segundos, reparando em cada pequeno detalhe, cada movimento quase invisível. E quanto mais observava, mais as suas suspeitas antigas ganhavam forma e força, transformando‑se numa quase certeza absoluta.
Todos os sinais estavam ali, claros para quem os soubesse ler: a mudança súbita e forte nos gostos e hábitos alimentares, um cansaço que parecia maior do que apenas por causa de preocupações ou medo, a necessidade de se refugiar com mais frequência na sua forma animal mais pequena e segura… e aquelas pequenas alterações subtis no brilho do pelo, na temperatura do corpo, na forma como se aconchegava e se movia — coisas que passariam despercebidas a qualquer outra pessoa, mas não a uma mãe que vira crescer a sua própria filha e conhece cada segredo da sua espécie.
Mas Selene era também sábia e prudente. E conhecia demasiado bem aqueles sinais antigos e sagrados das raposas reais.
“Tenho quase a certeza… o coração não me engana…”, pensou ela, sentindo uma mistura maravilhosa de alegria, esperança e responsabilidade.
Mesmo assim, sabia que precisava de provas concretas e seguras antes de revelar o segredo a alguém, nem mesmo ao seu próprio marido ou à própria filha. Não queria criar ilusões ou preocupações desnecessárias antes de ter a certeza absoluta.
Arion aproximou‑se devagar dela, notando‑a distante e pensativa, e falou em voz baixa:
— Ainda estás muito preocupada com tudo o que está a acontecer?
Selene virou‑se lentamente para ele, com um olhar profundo e misterioso.
— Muito mais do que pareço… — respondeu ela suavemente.
O rei das Raposas seguiu o olhar dela até à pequena raposa adormecida ao lado de Kael.
— É por causa de Vharok e do perigo que ele representa para todos nós, para a nossa terra? — perguntou ele com seriedade.
Selene hesitou por um instante, pesando bem as palavras.
— Também por isso, sim… mas não é só isso.
Arion franziu ligeiramente a testa, confuso com o tom e o ar misterioso da esposa.
— Selene… o que estás a esconder de mim? Conta‑me.
A rainha soltou um suspiro calmo e olhou para ele nos olhos.
— Amanhã cedo, vou pedir à curandeira real, a mais sábia e experiente de todas, para vir examinar a Zaira de forma discreta e cuidada, sem assustar ninguém. Ela saberá ver o que os olhos comuns não veem.
Arion ficou ainda mais atento.
— Achas que ela está doente ou ferida de alguma forma que não percebemos?
Selene desviou o olhar de novo para a filha, sorrindo muito suavemente para si própria.
— Não exatamente doente… bem pelo contrário, espero eu.
O rei observou‑a em silêncio durante alguns segundos, tentando entender o que a sua mente sábia já tinha percebido. De repente, os seus olhos abriram‑se muito lentamente, de espanto e surpresa, como se uma luz forte tivesse acendido de repente na sua cabeça.
— Espera um momento… queres dizer que… será possível…?
Selene levou imediatamente um dedo fino e delicado aos lábios, pedindo silêncio.
— Ainda não digas nada a ninguém. Ainda não temos certezas absolutas.
— Mas Selene… se for verdade… — sussurrou ele, já com uma alegria imensa a crescer‑lhe no peito.
— Esperemos só mais um pouco até confirmarmos tudo — pediu ela com doçura mas firmeza. — Depois falaremos de tudo.
Arion olhou novamente para a filha que dormia tranquila e segura. Depois virou o olhar para Kael, que continuava ali ao lado, a acariciá‑la distraidamente com todo o amor do mundo, enquanto olhava para um mapa nas suas mãos, sem imaginar sequer o que o destino lhe reservava.
O rei das Raposas soltou um suspiro longo e profundo, cheio de emoções fortes.
— Se estiveres certa… se isto for mesmo verdade… a vida deles dois vai mudar muito, muito depressa, para sempre. E a importância do que estão prestes a enfrentar torna‑se ainda maior e mais sagrada.
Selene sorriu com um brilho especial nos olhos, olhando também para o jovem casal.
— A nossa vida também mudará para sempre, meu amor… e para melhor, tenho a certeza disso.
Nesse exato momento, Zaira mexeu‑se ligeiramente no seu sono profundo e tranquilo. A pequena raposa soltou um som baixinho e doce, quase um ronronar suave, e arrastou‑se devagar ainda mais para perto de Kael, aconchegando‑se contra a sua perna forte e quente, sentindo‑se a salvo de tudo.
O rei leão sorriu imediatamente, aquele sorriso doce e terno que só ela conseguia arrancar‑lhe, e pegou numa manta macia e quente que ali estava, cobrindo‑a com todo o cuidado para que não sentisse frio nenhum.
Selene observou toda a cena em silêncio, com o coração cheio de esperança e carinho. Se as suas suspeitas fossem mesmo verdadeiras — e cada vez mais acreditava que sim — dentro de pouco tempo, aquele jovem e bravo guerreiro não seria apenas o grande e respeitado rei dos Leões. Seria também pai de uma nova vida, um novo laço que uniria os seus povos para sempre.
E com essa nova vida, talvez viesse também uma força antiga e poderosa, capaz de fazer frente até mesmo à escuridão eterna de Vharok.
continua....