đź“– Almas de Fera
CapĂtulo 12 – O Dia da Partida
O dia da partida finalmente chegou.
Desde cedo, o palácio dos Leões estava movimentado. Guardas preparavam carruagens, criados organizavam provisões para a viagem e os membros da Tribo das Raposas despediam-se dos anfitriões.
Apesar de toda a agitação, o ambiente era melancólico.
Zaira encontrava-se junto à grande entrada do palácio, observando silenciosamente os preparativos.
Por algum motivo, o seu coração estava pesado.
— Está tudo pronto, Majestade — informou um guarda a Arion.
O rei assentiu.
— Muito bem.
Kael aproximou-se da famĂlia real das Raposas.
— Foi uma honra receber-vos no meu reino.
Arion sorriu.
— A honra foi nossa. Salvou a vida da minha filha. A Tribo das Raposas nunca esquecerá isso.
Selene assentiu.
— Estaremos sempre gratos.
Kael inclinou ligeiramente a cabeça.
O seu olhar, porém, acabou por parar em Zaira.
Ela continuava estranhamente silenciosa.
— Já recuperaste totalmente? — perguntou ele.
Zaira assentiu com um pequeno sorriso.
— Sim. Graças a ti.
O silĂŞncio instalou-se entre os dois.
Foi Selene quem o quebrou.
— Precisamos mesmo de regressar o quanto antes.
Kael voltou-se para ela.
— Existe algum problema?
Arion cruzou os braços.
— Dentro de algumas semanas começará a época de reprodução das raposas.
Kael ouviu atentamente.
Selene explicou:
— Todos os hĂbridos possuem uma Ă©poca natural de reprodução, herdada do seu lado animal. Durante esse perĂodo, os instintos e a energia animal tornam-se muito mais fortes.
Kael assentiu, compreendendo.
— Entendo.
— Os hĂbridos adultos geralmente conseguem controlar-se bem — continuou Selene. — Mas os mais jovens ainda precisam de orientação.
Arion olhou para a filha.
— Zaira ainda está a aprender a controlar totalmente os seus instintos durante essa época.
Imediatamente, as orelhas de Zaira baixaram.
— Pai...
Selene sorriu carinhosamente.
— Não há motivo para ter vergonha, querida. Todos passamos por isso.
— AlĂ©m disso — continuou Arion —, depois do acidente, queremos garantir que ela esteja em casa, rodeada pela famĂlia e pelos anciĂŁos quando esse perĂodo começar.
Kael voltou a olhar para Zaira.
Ela desviou o olhar, claramente embaraçada.
— Entendo — respondeu ele calmamente.
Por algum motivo, aquelas palavras fizeram-no sentir um estranho vazio.
Zaira apertou ligeiramente as mĂŁos.
Ela também não queria partir.
Mas sabia que os pais tinham razĂŁo.
Selene aproximou-se da filha.
— Estás pronta?
Zaira demorou alguns segundos a responder.
Por fim, virou-se para Kael.
— Obrigada por tudo, Kael.
Kael observou-a em silĂŞncio.
— Espero voltar a ver-te, Zaira.
Os olhos verdes da princesa brilharam.
— Eu também.
Por um breve instante, nenhum dos dois desviou o olhar.
Arion e Selene trocaram um olhar discreto.
Talvez aquela nĂŁo fosse uma despedida definitiva.
Talvez fosse apenas o inĂcio de algo muito maior.
Pouco depois, a comitiva das Raposas deixou o reino dos Leões.
Kael permaneceu junto aos portões até desaparecerem no horizonte.
Pela primeira vez em muitos anos, o enorme palácio pareceu-lhe silencioso demais.
Muito silencioso.
Continua...