📖 Almas de Fera
CapÃtulo 106 – Um Dia de Chuva
Na manhã seguinte, o céu amanheceu completamente coberto por nuvens cinzentas.
Pouco depois, uma chuva fina começou a cair sobre o Reino das Raposas.
As gotas escorriam pelas enormes janelas dos aposentos reais, criando um som calmo e constante.
Zaira abriu os olhos lentamente.
Ficou alguns instantes apenas a ouvir a chuva.
Sempre gostara daquele som.
Havia algo de tranquilizador nele.
Com cuidado, sentou-se na cama.
A barriga, já muito arredondada, obrigou-a a fazer o movimento devagar.
— Está cada vez mais difÃcil... — murmurou, acariciando o ventre.
Logo em seguida, sentiu um pequeno movimento.
Sorriu.
— Bom dia para vocês também.
Poucos minutos depois, Selene entrou no quarto.
Trazia uma bandeja com leite quente, frutas, pão fresco e carne preparada especialmente para Zaira.
— Bom dia, meu amor.
— Bom dia, mãe.
Selene pousou a bandeja sobre a mesa.
— Como passaste a noite?
— Dormi melhor... mas acordei várias vezes para mudar de posição.
A rainha aproximou-se.
— A barriga está a pesar muito?
Zaira riu baixinho.
— Muito mesmo.
Olhou para o próprio ventre.
— Tenho a impressão de que está maior do que ontem.
Selene sorriu.
— Talvez sejam apenas os pequenos a encontrar espaço.
As duas riram.
Depois do pequeno-almoço, o curandeiro apareceu para a habitual visita.
— Como está a nossa futura mãe?
— Com muita fome... muito sono... e uma barriga que pesa uma montanha.
O velho riu-se.
— Parece-me uma descrição bastante sincera.
Depois de verificar que tudo continuava bem, falou:
— Hoje não precisas caminhar pelos jardins. Com esta chuva, é melhor descansares.
Zaira não pareceu muito desapontada.
— Também acho uma boa ideia.
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O resto da manhã passou tranquilamente.
Sentada junto à janela, Zaira lia pela terceira vez uma das cartas de Kael.
De vez em quando, levantava os olhos para observar a chuva.
Selene entrou novamente no quarto trazendo uma caixa de madeira.
— Encontrei isto.
Zaira olhou curiosa.
— O que é?
— As tuas coisas de infância.
Ela abriu a caixa.
Lá dentro havia pequenos brinquedos de madeira, fitas coloridas, desenhos antigos e um pequeno diário.
Zaira pegou num dos desenhos.
Era uma raposinha de mãos dadas com um enorme leão.
Ela riu.
— Eu desenhava sempre isto.
Selene aproximou-se.
— Sabes quantos anos tinhas?
— Quantos?
— Oito.
Zaira arregalou os olhos.
— Já desenhava leões antes de conhecer o Kael?
Selene riu.
— Sim.
Arion entrou justamente nesse momento.
— Talvez o destino já estivesse a dar algumas pistas.
Os três riram juntos.
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À tarde, enquanto a chuva continuava a cair, uma criada entrou.
— Princesa.
— Sim?
— Chegou outra carta.
Os olhos de Zaira brilharam.
— Outra?
— Sim.
Ela abriu rapidamente o pergaminho.
Kael contava que finalmente conseguira resolver quase todos os assuntos urgentes do reino.
Escrevia que os ministros já não tinham tantas reuniões marcadas.
E acrescentava:
"Se tudo correr bem, voltarei muito antes do que esperava."
Zaira levou imediatamente uma das mãos à boca.
Os olhos encheram-se de lágrimas.
— Ele... vai voltar mais cedo...
Selene sorriu emocionada.
— Eu disse que ele faria tudo para cumprir a promessa.
Zaira releu aquela frase várias vezes.
Até quase decorá-la.
Depois pegou imediatamente em outro pergaminho.
— Tenho de responder.
Começou a escrever sem demora.
"Os dias passam mais depressa quando recebo as tuas cartas. Os pequenos continuam muito ativos e acho que gostam de ouvir quando leio as tuas mensagens em voz alta. Estamos todos à tua espera. Volta quando puderes... mas volta em segurança."
Quando terminou, sorriu satisfeita.
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Ao anoitecer, a chuva finalmente parou.
O céu limpou-se.
A lua apareceu entre as nuvens.
Zaira saiu lentamente para a varanda.
O ar estava fresco.
Fechou os olhos e respirou profundamente.
Sentia-se cansada.
Muito cansada.
Mas já não era aquele cansaço acompanhado de medo e solidão.
Agora havia paz.
Acariciou o ventre com carinho.
— Ouviram?
O vosso pai vai voltar mais cedo.
Como resposta, sentiu dois pequenos movimentos quase ao mesmo tempo.
Ela sorriu e riu baixinho.
— Acho que vocês ficaram tão felizes quanto eu.
Ficou mais alguns minutos olhando o céu estrelado.
Em algum lugar, muito além das montanhas, Kael também podia estar olhando para a mesma lua.
E esse pensamento fez o coração dela sentir-se um pouco mais perto do dele.
Continua...