📖 Almas de Fera
CapÃtulo 90 – Ecos do Passado
A tarde avançava tranquilamente no Jardim das Raposas.
Uma brisa suave fazia dançar as folhas prateadas da grande árvore, espalhando pequenos brilhos dourados pelo chão.
Zaira continuava deitada ao lado de Kael, na sua forma de raposa, completamente relaxada.
Ou, pelo menos, parecia.
Kael acariciava distraidamente o pelo macio dela enquanto lia novamente a carta do conselho do Reino dos Leões.
Selene observava a cena sentada num banco próximo.
— Ela está mais calma — comentou.
Kael assentiu.
— Muito mais.
Mas, nesse exato instante, Zaira ergueu subitamente a cabeça.
As orelhas ficaram completamente levantadas.
Os olhos verdes fixaram-se na floresta para lá dos jardins.
— Mrr...
Kael percebeu imediatamente a mudança.
— Zaira?
A pequena raposa levantou-se.
O pelo eriçou-se ligeiramente.
Arion também ficou alerta.
— O que foi?
Zaira não respondeu.
Apenas continuou a olhar para a floresta.
Silêncio.
Um silêncio estranho.
Então, uma rajada de vento atravessou o jardim.
E trouxe consigo um cheiro.
Um cheiro que Zaira reconheceu imediatamente.
O corpo dela congelou.
Memórias.
Escuridão.
O templo.
Vharok.
Ela deu um passo para trás.
Depois outro.
Kael levantou-se imediatamente.
— Zaira.
Ela começou a tremer.
Selene aproximou-se rapidamente.
— O que aconteceu?
Zaira não conseguia responder.
O medo voltou.
Não tão forte quanto antes.
Mas estava lá.
Kael ajoelhou-se diante dela.
— Olha para mim.
Lentamente, os olhos dela desviaram-se da floresta e encontraram os dele.
— Não estás sozinha.
A pequena raposa respirou fundo.
Mas continuava nervosa.
Arion olhou para a linha das árvores.
— Guardas.
Vários guardas aproximaram-se imediatamente.
— Verifiquem toda a floresta próxima ao palácio.
— Sim, Majestade!
Os soldados partiram rapidamente.
Zaira aproximou-se de Kael e encostou-se à perna dele.
Kael pegou nela ao colo.
— Está tudo bem.
Selene observou a filha com preocupação.
— As memórias ainda a estão a afetar.
Kael assentiu.
— Vai levar tempo.
Uma hora mais tarde, os guardas regressaram.
— Majestades, não encontrámos ninguém.
Arion franziu a testa.
— Têm a certeza?
— Sim. Não havia sinais de intrusos.
Selene olhou para Zaira.
— Talvez tenha sido apenas uma memória.
Mas Zaira continuava inquieta.
Quando o sol começou finalmente a pôr-se, Kael levantou-se.
— Vamos voltar para dentro.
Zaira não protestou.
Pelo contrário.
A pequena raposa agarrou-se imediatamente à túnica dele com as patas.
Selene sorriu tristemente.
— Parece que não te vai largar tão cedo.
Kael sorriu.
— Não me importo.
Naquela noite, depois do jantar, Zaira recusou-se novamente a dormir sozinha.
Assim que Kael se sentou na cama, ela subiu imediatamente para junto dele e enroscou-se contra o seu peito.
Selene observou da porta.
— Boa noite, meu amor.
Zaira levantou ligeiramente a cabeça.
— Mrr.
Selene apagou as luzes.
O quarto mergulhou na penumbra.
Kael permaneceu acordado durante algum tempo, acariciando distraidamente a pequena raposa.
Mas, já perto da meia-noite, sentiu algo.
Uma energia.
Fraca.
Muito distante.
Mas familiar.
Kael abriu lentamente os olhos dourados.
E olhou para a janela.
Lá fora, muito longe, na direção das montanhas...
Uma luz dourada brilhava brevemente na escuridão.
Como se alguém os estivesse a observar.
Continua...