đź“– Almas de Fera
CapĂtulo 81 – O Que Foi Selado
O vazio deixou de ser vazio.
Não de forma imediata… mas como se algo estivesse a nascer por dentro dele.
Primeiro foi o som.
Um estalo profundo, vindo de todas as direções ao mesmo tempo.
Depois, a luz dourada de Zaira começou a falhar por um instante.
Kael apertou-a instintivamente.
— Fica comigo.
Zaira respirou fundo.
Na forma hĂbrida, ela sentia tudo de forma mais intensa: o equilĂbrio instável entre raposa e humana, entre memĂłria e instinto, entre medo e algo maior que nĂŁo conseguia nomear.
— Eu estou aqui… — disse ela, mas a voz saiu tremida.
Vharok estava parado, imĂłvel.
E isso era o mais estranho de tudo.
Ele, que parecia dominar aquele espaço, agora parecia… atento.
Como alguém que sabe que algo maior acabou de chegar.
— Ele acordou… — repetiu ele, mais baixo.
Kael franziu o olhar.
— “Ele” quem?
Vharok nĂŁo respondeu de imediato.
O vazio respondeu por ele.
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🌑 O nascimento da presença
A escuridão começou a girar.
NĂŁo como vento.
Mas como uma consciĂŞncia a reorganizar-se.
Zaira sentiu o ar desaparecer do peito.
— Kael… — ela apertou a mão dele com mais força. — Eu sinto isso…
Ele também sentia.
Uma pressĂŁo antiga.
Como se o prĂłprio mundo estivesse a ser observado de dentro.
E entĂŁo, no centro do vazio, algo abriu.
NĂŁo uma f***a.
NĂŁo uma porta.
Mas um olho.
Gigante.
Sem forma fĂsica clara.
Só uma presença que parecia existir em todos os lados ao mesmo tempo.
E olhava diretamente para Zaira.
Kael colocou-se imediatamente Ă frente dela.
— Nem penses em tocar nela.
A presença respondeu.
Não com voz… mas com intenção.
E mesmo assim todos entenderam.
"Criatura incompleta."
Zaira estremeceu.
— Incompleta…?
Vharok fechou os olhos por um segundo.
— Não respondas.
Mas já era tarde.
Zaira deu um passo Ă frente.
— Eu não sou incompleta.
A presença oscilou.
E algo como uma risada ecoou pelo vazio.
"Foste moldada para conter, nĂŁo para existir."
O impacto dessas palavras fez o espaço tremer.
Kael rosnou.
— Chega!
Mas a entidade nĂŁo o via.
Ela via apenas Zaira.
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⚡ Memórias forçadas
De repente, o corpo de Zaira parou.
Os olhos dela ficaram desfocados.
— Não… não outra vez… — murmurou Kael.
Mas nĂŁo era apenas outra memĂłria.
Era algo mais profundo.
Zaira viu o inĂcio.
NĂŁo da sua vida.
Mas da sua criação.
Um templo antigo.
Vários seres reunidos.
E uma energia impossĂvel de segurar.
E então… ela.
Não como criança.
Mas como forma de luz sendo moldada.
Vozes antigas:
"Se o DragĂŁo despertar, precisamos de um recipiente vivo."
"Não uma prisão… uma consciência."
"Algo que escolha permanecer fechado."
Zaira caiu de joelhos no vazio.
— Eu… não fui só atacada…
Vharok falou finalmente.
— Não.
A sua voz estava mais pesada.
— Tu foste criada para ser o equilĂbrio.
Kael olhou para ele com fĂşria.
— E tu deixaste isso acontecer?!
Vharok nĂŁo respondeu imediatamente.
Quando respondeu, foi baixo.
— Eu fui o último guardião.
SilĂŞncio.
Zaira levantou lentamente a cabeça.
— Guardião de quê?
Vharok hesitou.
Depois disse:
— Daquilo que agora te observa.
O olho no vazio pulsou.
E a entidade respondeu novamente.
"O selo está instável."
A realidade tremeu.
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🌑 O colapso
A ligação com o mundo real começou a falhar.
Fendas abriram-se ao redor deles.
Kael segurou Zaira com força.
— Não vamos ficar aqui.
Mas o caminho já não era claro.
O vazio estava a colapsar sobre si mesmo.
E Vharok… finalmente moveu-se.
Ele aproximou-se deles.
Kael ficou em posição de ataque.
— Um passo e eu acabo contigo.
Vharok levantou a mĂŁo.
— Não tens força suficiente aqui para isso.
Kael tentou avançar… mas foi empurrado por uma onda de pressĂŁo invisĂvel.
Zaira gritou.
— Kael!
Mas Vharok apenas olhou para ela.
— Tu tens de escolher agora.
Zaira ficou imĂłvel.
— Escolher o quê?
Vharok apontou para o olho gigante.
— Se és o selo… ou se és quem o mantém vivo.
Kael levantou-se com dificuldade.
— Ela não é nenhuma dessas coisas!
Zaira olhou para ele.
E depois para a entidade.
E algo dentro dela começou a mudar.
NĂŁo medo.
NĂŁo fuga.
Mas compreensĂŁo.
Ela respirou fundo.
— E se eu não for nenhuma dessas coisas?
O vazio ficou em silĂŞncio total.
Até a entidade parou.
Zaira continuou:
— E se eu for… alguém que decide?
Kael ficou imĂłvel.
Vharok fechou os olhos.
E pela primeira vez…
O vazio nĂŁo respondeu imediatamente.
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⚡ O ponto de ruptura
A entidade finalmente falou.
Mais baixo.
Mais prĂłximo.
"EntĂŁo prova."
O olho abriu-se completamente.
E o vazio começou a desabar.
Kael puxou Zaira para si.
— Agora!
Mas Zaira nĂŁo se moveu.
Ela olhou para Kael.
— Eu não posso fugir sempre…
Ele congelou.
— Zaira…
Ela sorriu levemente.
Mesmo tremendo.
— Desta vez… eu escolho.
A luz dourada explodiu.
E Zaira avançou.
Diretamente para a presença.
Kael gritou o nome dela.
Mas o vazio engoliu tudo.
E tudo desapareceu.
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🌑 Silêncio absoluto
No templo destruĂdo, no mundo real…
A f***a fechou-se com um estalo violento.
Selene caiu de joelhos.
— Não…
Arion ficou em silĂŞncio.
Kael estava parado.
Sem respirar.
Sem falar.
Sem se mexer.
A energia dourada Ă volta dele apagou-se lentamente.
E tudo o que restou foi silĂŞncio.
Um silêncio tão profundo…
Que parecia o mundo inteiro a prender a respiração.
Continua...