O instinto da raposa

1070 Words
📘 Almas de Fera Capítulo 68 – O Instinto da Raposa Os primeiros raios de sol suaves e dourados começaram a entrar devagar pelas enormes janelas altas, iluminando os cantos escuros do quarto e espalhando calor por toda a parte. Kael ainda se encontrava na sua forma de grande leão dourado, deitado imóvel sobre a cama ampla. Em algum momento durante a noite, enquanto ambos dormiam, a pequena raposa aproximara‑se ainda mais dele, procurando‑o sem sequer acordar. Agora, Zaira repousava profundamente aninhada contra o seu peito forte e quente, quase escondida por entre os fios macios e espessos da juba real. O leão abriu lentamente os grandes olhos vermelhos, já desperto mas calmo. Ao olhar para baixo e ver‑la ali tão pequena, segura e confiante junto a si, um sorriso suave desenhou‑se‑lhe no rosto. “Parece que, por mais zangada que esteja comigo, os seus instintos e o seu coração continuam mais fortes do que a raiva…”, pensou com ternura. Baixou devagar a cabeça enorme e encostou o focinho macio e quente suavemente no pelo ruivo dela, em sinal de bom dia e de amor. A reação foi imediata e maravilhosa. Ainda completamente adormecida, sem sequer dar conta do que fazia, a cauda fofa de Zaira começou a abanar devagar e feliz, batendo levemente na pata dianteira. Kael soltou uma pequena gargalhada baixa e calorosa, que fez vibrar um pouco o ar à sua volta. — Então… mesmo zangada, ainda gostas de mim, não é? — murmurou com satisfação. A pequena raposa abriu um olhinho verde, muito devagar e sonolenta. Assim que percebeu onde estava, aconchegada contra ele, as suas orelhas ergueram‑se de repente e bem direitas. Olhou primeiro para o rosto enorme e amigável à sua frente, depois à sua volta, lembrando‑se lentamente de tudo o que acontecera na véspera. E franziu o focinho, voltando a assumir o ar ofendido. — Rrr… — rosnou muito baixinho, como quem diz: “Ainda não te perdoei, sabes?”. Virou imediatamente a cabeça para o outro lado, fazendo‑se de difícil. Kael riu de novo, mais alto e divertido. — Pois é… bom dia para ti também, minha pequena raposa teimosa. Zaira não respondeu nada. Em vez disso, esforçou‑se por se afastar um pouco, arrastando‑se devagar para longe do seu calor — mas m*l deu um pequeno passo, uma onda forte de tontura e fraqueza atingiu‑a de repente, fazendo‑a cambalear e quase cair de lado. — Mrrr… — soltou um som de surpresa e m*l‑estar, fechando os olhos. Kael percebeu imediatamente o que se passava, e a diversão deu lugar a preocupação e cuidado. — Zaira! Estás bem? Numa fração de segundo, uma luz brilhante o envolveu e ele voltou à sua forma humana, segurando‑a com toda a suavidade nos braços antes que ela pudesse cair. Apoiou‑a bem contra si, protegendo‑a. — Devias ter descansado ainda mais… ainda estás muito frágil — disse ele com carinho. Nesse instante, ouviram uma batida suave na porta. — Entrem, por favor — respondeu Kael, sem a largar. Selene entrou devagar trazendo uma bandeja cheia de alimentos leves, frutas frescas e bebidas doces e nutritivas. Mas ao ver logo a filha pálida e atordoada nos braços do jovem rei, suspirou e abanou a cabeça com um sorriso de compreensão. — Isso já começou, como era de esperar… — disse baixinho para si mesma. Kael olhou para ela, franzindo a testa, preocupado. — O que começou? O que tem ela? É grave? A rainha pousou a bandeja com cuidado numa mesa próxima e aproximou‑se devagar. — Não é nada de mau, nem perigoso… são apenas os primeiros sinais e desconfortos. Os enjoos e as tonturas — explicou ela calmamente. As orelhas da pequena raposa ergueram‑se de imediato, atentas e espantadas. Kael ficou parado, sem saber o que dizer, olhando de uma para a outra. Zaira piscou várias vezes os olhos, confusa e curiosa. Uma luz dourada envolveu‑a e ela ergueu‑se já na sua forma híbrida, sentada confortavelmente nos braços de Kael. — Os quê? Que enjoos? — perguntou, ainda sem perceber muito bem. Selene sorriu‑lhe com muita doçura e acariciou‑lhe levemente a face. — É algo muito normal e esperado em raposas reais, especialmente nos primeiros tempos em que carregam novas vidas dentro de si. Muitas sentem‑se assim: tontas, com pouco apetite ou com uma sensação estranha na barriga. É sinal que tudo está a crescer e a mudar como deve ser. Zaira ficou completamente vermelha até às orelhas, envergonhada. — E‑eu não estou assim! Isto foi só porque me levantei depressa demais, nada mais! — tentou defender‑se depressa. Mas nesse exato momento, sentiu novamente aquela onda estranha e forte de náusea a subir‑lhe pelo peito. Parou de falar de repente, ficou imóvel e levou rapidamente uma mão à boca, fechando os olhos. Selene e Kael olharam um para o outro e depois para ela, sem dizer uma palavra, apenas sorrindo com ternura. Zaira abriu os olhos devagar, viu os dois a olharem‑na e desviou o olhar para o chão, envergonhada. — Não digam absolutamente nada… nem uma palavra sequer, entendido? — pediu, com voz embaraçada mas firme. Kael sorriu largo, acariciando‑lhe devagar o ombro. — Está bem, está bem… não vou dizer nada, prometo. Ela estreitou os olhos, olhando‑o com desconfiança. — Mas estás a rir‑te de mim, não estás? — Nunca me riria de ti, minha querida… só estou feliz por saber que tudo corre como deve ser — garantiu ele suavemente. — Estás sim… vejo no teu olhar… — insistiu ela, mas já sem qualquer força ou raiva verdadeira na voz. Apesar de ainda guardar um pouco de ressentimento pelo segredo que ele lhe escondera, o seu coração falou mais alto: aconchegou‑se melhor e mais confortavelmente contra o peito dele, fechando os olhos e sentindo‑se segura e amada. Selene observou os dois em silêncio, sorrindo satisfeita e feliz. Parecia que, passo a passo, devagar mas com certeza, a pequena raposa estava finalmente a começar a perdoar o seu leão e a confiar nele outra vez por completo. continua...
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