📘 Almas de Fera
CapÃtulo 62 – A Queda
O rugido profundo, sombrio e imenso de Vharok ecoou mais uma vez pelos céus vastos, tão forte que parecia fazer vibrar o próprio ar. As janelas altas e pesadas do palácio tremeram nos seus caixilhos de madeira e pedra, e os vidros tilintaram de forma inquietante. Nos jardins lá em baixo, milhares de pássaros levantaram voo de repente, em bandos desordenados e assustados, fugindo para longe da direção daquele som terrÃvel.
Zaira, que regressava devagar ao interior do edifÃcio depois do seu passeio tranquilo, parou de imediato no meio da grande escadaria de pedra branca, os pés pregados ao chão. O coração começou a bater‑lhe tão forte e depressa que quase lhe doÃa o peito, o sangue pareceu fugir‑lhe do rosto e as suas orelhas sensÃveis baixaram‑se completamente contra a cabeça, sinal de grande medo.
Por um instante curto e terrÃvel, tudo o resto desapareceu: voltou a ver o fogo, a sentir o calor abrasador, a ouvir o silêncio da floresta destruÃda… tal como quando era apenas uma menina pequena e indefesa.
— N‑não… não outra vez… — sussurrou para si mesma, com voz trémula, tentando afastar aquelas memórias que a agarravam com força.
Esforçando‑se por recuperar o controlo, começou a descer os degraus mais depressa do que devia, quase a correr, com as mãos a tremerem tanto que m*l conseguia tocar no corrimão liso e frio.
E logo ouviu: outro rugido, ainda mais perto, ainda mais poderoso.
O susto foi tanto que ela perdeu o equilÃbrio de repente, o pé escorregando numa borda lisa de pedra. Tentou agarrar‑se com força, mas já era tarde demais.
— Ah!… — gritou curta e afogadamente.
O seu corpo rolou e caiu por vários degraus altos e duros, até parar no chão liso e frio do grande átrio de entrada, espalhando‑se ali imóvel. O som s***o e pesado da queda ecoou por todo o salão alto, assustando os guardas ali colocados.
— ZAIRA!
Kael tinha acabado de sair da varanda e de dar uns passos quando viu tudo acontecer diante dos seus olhos. O coração parou‑lhe por um instante; sem pensar duas vezes, correu a toda a velocidade na direção dela, saltando degraus à frente. Arion e Selene vinham logo atrás, de rostos brancos de terror.
Zaira estava caÃda ali, de costas, com o olhar perdido e atordoado, a respiração curta e difÃcil.
— Zaira! Olha para mim, por favor! — chamou‑lhe Kael, ajoelhando‑se de imediato ao seu lado e apoiando‑lhe a cabeça com extremo cuidado nas suas mãos.
Ela abriu lentamente os olhos grandes e verdes, pestanejando contra a luz forte.
— K‑Kael… doeu um pouco… — murmurou ela, ainda confusa.
— Não te mexas nem um bocadinho, por favor — pediu ele, com a voz a tremer de apreensão, acariciando‑lhe suavemente o rosto. — Fica quieta até sabermos se estás bem.
Selene aproximou‑se devagar, cheia de medo, ajoelhando‑se também do outro lado.
— Vai chamar a curandeira Lyra! Agora mesmo, depressa! — ordenou Arion aos guardas ali presentes, com voz forte e autoritária. Em poucos segundos, vários homens correram por todos os corredores do palácio para a buscar.
Zaira tentou apoiar‑se nos cotovelos para se sentar, fazendo uma careta de dor.
— Estou bem… a sério, foi só um escorregadela… — tentou dizer, mas a voz ainda soava fraca.
— Não estás nada bem, olha como estás pálida e trémula — respondeu Kael, segurando‑lhe delicadamente a mão entre as suas, sentindo o frio que vinha dela. — E bateste com força.
A princesa abriu a boca para protestar mais uma vez, mas olhou para os rostos cheios de preocupação de todos os que a rodeavam e acabou por desistir de falar. Apenas se virou devagar e se aninhou contra o peito forte e quente de Kael, ainda a tremer ligeiramente de susto e dor.
Pouco depois, ouviram‑se passos rápidos e leves: Lyra chegou apressadamente, trazendo a sua pequena bolsa de ervas e instrumentos, com o rosto sério e atento.
— Afastem‑se um pouco, deixem‑me ter espaço para a ver melhor — pediu ela calmamente, pondo‑se de joelhos ao lado da jovem.
Examinou‑a com todo o cuidado: olhou nos seus olhos, tocou suavemente a cabeça, o pescoço, os braços e as pernas, verificou cada batimento do coração e cada respiração, fazendo‑lhe perguntas curtas e simples. Todos ali permaneciam em silêncio absoluto, sem respirar quase, à espera da sua avaliação.
Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, a velha curandeira ergueu‑se um pouco e sorriu suavemente, aliviando‑se a expressão.
— Felizmente, não há ferimentos graves nem fraturas, graças à bondade dos céus. Apenas algumas nódoas negras, umas dores musculares e um grande, grande susto. Nada que não passe com descanso e cuidados.
Kael soltou de uma vez todo o ar que nem percebera que estava a prender nos pulmões, sentindo‑se desfalecer de alÃvio, e fechou os olhos por um instante.
Mas Lyra virou‑se logo para eles e acrescentou em tom mais baixo e sério:
— Contudo… a princesa precisa de descansar muito, de ficar calma e tranquila, sem grandes emoções ou esforços. Qualquer abalo ou cansaço excessivo pode ser‑lhe muito prejudicial agora.
Selene e Arion trocaram imediatamente um olhar profundo, cheio de compreensão e ainda mais preocupação — sabiam bem porquê aquela advertência especial.
Kael apertou ligeiramente a mão de Zaira, olhando‑a com determinação mas também com imensa ternura.
— Vais descansar nos meus aposentos, onde é mais seguro e sossegado. E não vais sair de lá até estares completamente recuperada. Sem discussões.
Zaira abriu a boca para protestar, olhando‑o surpresa.
— Mas… eu só caÃ, não é preciso tanto… — começou ela.
— Sem discussões — repetiram Kael, Selene e Arion ao mesmo tempo, com uma só voz séria e carinhosa, fazendo‑a calar‑se de imediato.
Zaira ficou em silêncio uns segundos, olhando para cada um deles, e depois soltou um suspiro leve e resignado, assentindo devagar.
— Está bem… como quiserem…
Kael inclinou‑se com cuidado, pegou‑a suavemente ao colo, segurando‑a perto de si como se ela fosse feita do mais delicado cristal, e começou a caminhar lentamente em direção aos seus quartos.
Enquanto os via afastarem‑se, Selene observou a filha com o coração apertado de amor e receio. Agora mais do que nunca, sabiam que não podiam adiar mais: tinham de lhe contar a verdade, o segredo maravilhoso e frágil que crescia dentro dela, antes que qualquer outra coisa acontecesse.
continua.....