Capítulo 9

1692 Words
Lia Quando meu turno finalmente terminou, o relógio da cafeteria marcava quase meio-dia. Tirei o avental e o dobrei com cuidado antes de colocá-lo no pequeno armário atrás do balcão. — Até amanhã — disse Marta enquanto limpava a máquina de café. — Até amanhã. Peguei minha mochila e saí da cafeteria. O ar do lado de fora estava morno. O sol tinha finalmente aparecido depois da chuva do dia anterior, e as ruas estavam cheias de pessoas indo e vindo apressadas. Caminhei até o ponto de ônibus enquanto ajeitava a mochila nos ombros. Aquela parte do dia sempre parecia correr mais rápido do que eu gostaria. Trabalho de manhã. Universidade à tarde. Estudos à noite. Era uma rotina que às vezes parecia pesada, mas eu já tinha me acostumado. Quando o ônibus chegou, subi e procurei um lugar perto da janela. Encostei a cabeça no vidro enquanto a cidade começava a passar lentamente diante dos meus olhos. Prédios. Lojas. Carros. Pessoas atravessando as ruas com pressa. Enquanto observava tudo aquilo, minha mente começou a vagar. Pensei no projeto que eu ainda precisava terminar. Na próxima aula com a professora Helena. Na quantidade de trabalho que ainda teria pela frente até o final do semestre. Arquitetura exigia dedicação constante. Não era um curso em que alguém podia simplesmente aparecer nas aulas e esperar que tudo desse certo. Era preciso desenhar. Planejar. Refazer projetos inúmeras vezes até que finalmente funcionassem. E, mesmo assim, muitas vezes ainda não ficava perfeito. Talvez fosse isso que tornava tudo tão interessante. O ônibus parou perto da universidade alguns minutos depois. Desci e caminhei pelo campus. Como sempre, o lugar estava cheio de estudantes. Alguns sentados na grama conversando. Outros caminhando rapidamente entre os prédios com livros nos braços. O prédio de arquitetura ficava um pouco mais afastado do centro do campus. Era um edifício antigo, mas tinha algo que sempre me agradou. Talvez porque fosse cheio de grandes janelas que deixavam a luz natural entrar nas salas. Quando entrei no corredor principal, ouvi vozes conhecidas. — Lia! Olhei para a esquerda. Rafael estava encostado em uma das mesas grandes do corredor, folheando um caderno. — Pensei que não vinhas hoje — disse ele. — Quase não vinha. — Dia difícil na cafeteria? — Nem tanto. Coloquei minha mochila sobre a mesa ao lado da dele. — E tu? Ele suspirou dramaticamente. — Passei a manhã inteira tentando entender um projeto de um professor que claramente gosta de complicar a vida dos alunos. — Qual professor? — Duarte. Fiz uma careta leve. — Boa sorte com isso. Rafael riu. — Exatamente. Sentamos ali por alguns minutos enquanto outros alunos chegavam. O corredor estava cheio de mesas grandes onde muitos estudantes gostavam de trabalhar antes das aulas. Abri meu caderno novamente. O desenho do bairro planejado estava quase pronto, mas ainda havia algumas partes que eu queria ajustar antes da aula. — Estás sempre desenhando — comentou Rafael. — Arquitetura. — Eu sei, mas mesmo assim. Fiz algumas linhas rápidas no papel. — Preciso melhorar esta parte aqui. Ele inclinou a cabeça para observar. — Parece bom para mim. — Não para a professora Helena. Ele fez uma expressão divertida. — Nada é bom o suficiente para ela. Antes que eu pudesse responder, a porta da sala se abriu. A professora Helena apareceu no corredor. — Podem entrar. Imediatamente os alunos começaram a se mover. Entramos na sala e escolhemos nossas mesas. Coloquei meus materiais sobre a superfície larga de madeira e abri o caderno. A professora começou a caminhar entre as mesas. — Hoje vamos analisar o progresso dos projetos. Alguns alunos trocaram olhares nervosos. Ela parou na primeira mesa. Observou o trabalho por alguns segundos. Depois passou para a próxima. Quando finalmente chegou até mim, meu coração acelerou um pouco. Ela pegou meu caderno e observou o desenho. Silêncio. Longo demais. — Hm. Ela apontou para a praça central. — Vejo que ampliou o espaço. — Sim. — Boa decisão. Respirei mais tranquila. Ela analisou mais alguns detalhes antes de fechar o caderno. — Continue assim. Depois seguiu para a mesa seguinte. Rafael inclinou-se um pouco na minha direção. — “Boa decisão”. — Eu ouvi. — Isso foi praticamente um discurso emocionante vindo dela. Sorri levemente. A aula continuou por mais duas horas. A maior parte do tempo foi dedicada a ajustes nos projetos e discussões sobre planejamento urbano. Quando finalmente terminou, o sol já começava a descer no céu. Saímos da sala juntos. — Café? — perguntou Rafael. Pensei por um segundo. Normalmente eu iria direto para casa para continuar estudando. Mas naquele dia… — Pode ser. Ele pareceu satisfeito com a resposta. Caminhamos até um pequeno café dentro do campus. Era muito diferente da cafeteria onde eu trabalhava. Mais moderno. Mais barulhento. Cheio de estudantes falando alto. Sentamos em uma mesa perto da janela. Rafael foi buscar os cafés enquanto eu observava o movimento ao redor. Quando ele voltou, colocou a xícara diante de mim. — Aqui está. — Obrigada. Tomei um pequeno gole. — Então — disse ele —, como está indo o trabalho na cafeteria? Dei de ombros. — Normal. — Nenhum cliente estranho? Pensei por um instante. Então respondi casualmente: — Apenas um cliente que parece gostar de sentar sempre na mesma mesa. — Isso não parece estranho. — Não é. Mas, curiosamente, enquanto dizia aquilo, lembrei-me da conversa daquela manhã. Da forma como ele tinha perguntado sobre arquitetura. E de como parecia realmente interessado na resposta. Balancei levemente a cabeça, afastando o pensamento. — E tu? — perguntei a Rafael. — Já terminaste o projeto do professor Duarte? Ele soltou um longo suspiro. — Nem perto disso. Sorri. A conversa continuou leve e descontraída. Por alguns minutos, consegui esquecer completamente do cansaço do dia. E, pela primeira vez em muito tempo, simplesmente aproveitar o momento. *** Rafael ainda estava reclamando do projeto do professor Duarte quando terminamos nossos cafés. — Ele pede coisas impossíveis — disse ele, apoiando o queixo na mão. — Não são impossíveis. — Diz isso porque és organizada. Sorri levemente. — Organização ajuda. — Eu tento ser organizado — continuou ele —, mas de alguma forma tudo vira um caos. — Talvez porque deixas tudo para a última hora. Ele levantou um dedo, como se estivesse prestes a fazer um argumento muito importante. — Isso é um detalhe. Ri. O café estava ficando mais cheio à medida que o final da tarde avançava. Grupos de estudantes ocupavam mesas inteiras enquanto discutiam trabalhos ou simplesmente conversavam sobre coisas aleatórias. Era um ambiente completamente diferente da cafeteria onde eu trabalhava. Ali as pessoas ficavam por muito mais tempo. Ninguém parecia ter pressa. Olhei para o relógio no meu celular. — Preciso ir. Rafael fez uma careta dramática. — Já? — Ainda tenho trabalho para fazer em casa. — Tu sempre tens trabalho. — É a vida de estudante de arquitetura. Ele suspirou. — Um dia vamos olhar para trás e rir disso tudo. Levantei uma sobrancelha. — Tens muita certeza disso. — Claro. Peguei minha mochila e me levantei. — Boa sorte com o projeto do professor Duarte. — Vou precisar. Saímos do café juntos e caminhamos até o portão principal da universidade. O céu estava começando a ganhar tons alaranjados e rosados. O pôr do sol iluminava os prédios do campus com uma luz suave. Por um momento, diminuí o passo apenas para observar. Sempre gostei daquela hora do dia. Havia algo tranquilo na forma como tudo parecia desacelerar por alguns minutos. — Vês? — disse Rafael, percebendo que eu estava olhando o céu. — Isto também é arquitetura. Olhei para ele. — O céu? — A forma como a luz bate nos prédios. Observei novamente os edifícios ao redor. As sombras longas. As cores refletidas nas janelas. Sorri. — Tens razão. Ele parecia satisfeito com a resposta. Quando chegamos à rua principal, nossos caminhos se separaram novamente. — Até amanhã — disse ele. — Até amanhã. Esperei ele atravessar a rua antes de seguir para o ponto de ônibus. A viagem até casa foi tranquila. A maioria das pessoas no ônibus parecia cansada depois de um longo dia de trabalho ou estudo. Encostei a cabeça na janela novamente enquanto a cidade passava lentamente diante de mim. Luzes começavam a acender nos prédios. Algumas lojas estavam fechando. Outras estavam apenas começando a ficar movimentadas. Quando desci perto de casa, o céu já estava escuro. Caminhei pela rua familiar até chegar ao portão. Assim que entrei, ouvi a voz de Lucas vindo da sala. — Lia chegou! Sorri. Entrei na casa e encontrei meu irmão sentado no chão com vários cadernos espalhados ao redor. Minha mãe estava no sofá dobrando algumas roupas. — Como foi o dia? — perguntou ela. Coloquei minha mochila em uma cadeira. — Longo. Lucas levantou um caderno. — Preciso de ajuda com isto. — Outra vez matemática? — Infelizmente. Sentei-me ao lado dele no chão. — Mostra. Ele apontou para uma página cheia de números. Enquanto eu explicava o exercício passo a passo, percebi algo curioso. Apesar do cansaço do dia inteiro, aquele momento parecia simples. Tranquilo. Lucas finalmente terminou o exercício e levantou os braços como se tivesse vencido uma batalha. — Consegui! — Vês? Não era impossível. Ele fez uma careta. — Era quase. Minha mãe riu baixinho. Depois de algum tempo, fomos jantar. A conversa na mesa era leve. Lucas contou algumas histórias da escola. Minha mãe falou sobre o trabalho. E eu mencionei rapidamente a aula de arquitetura. Nada extraordinário. Mas, de alguma forma, eram aqueles pequenos momentos que mantinham tudo equilibrado. Mais tarde, quando finalmente subi para o meu quarto, coloquei os livros sobre a mesa. Abri novamente o caderno do projeto. Observei o desenho do bairro planejado por alguns segundos. As ruas. A praça central. As pequenas árvores que eu tinha desenhado ao redor. Peguei o lápis. Fiz mais alguns ajustes. Linhas pequenas. Detalhes quase imperceptíveis. Enquanto trabalhava, percebi que estava sorrindo levemente. Talvez porque, apesar do cansaço, eu sabia exatamente por que estava fazendo tudo aquilo. E isso fazia toda a diferença.
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