Capítulo 7

1313 Words
Lia Cheguei em casa já era noite. O ônibus demorou mais do que o normal por causa das ruas ainda molhadas da chuva da manhã, e quando finalmente desci perto de casa, o ar estava fresco e um pouco frio. Caminhei pela rua iluminada apenas por alguns postes antigos. Aquela parte do bairro era tranquila à noite. Algumas casas tinham luzes acesas nas janelas, e de vez em quando era possível ouvir o som de televisão vindo de dentro delas. Quando empurrei o portão de casa, ouvi vozes na cozinha. Lucas e minha mãe estavam conversando. — Cheguei — anunciei ao entrar. — Lia! — disse Lucas imediatamente. Ele estava sentado à mesa com um caderno aberto diante dele. Minha mãe estava perto do fogão mexendo em uma panela. O cheiro de comida encheu a cozinha. — Estás atrasada hoje — comentou minha mãe. — O ônibus demorou. Coloquei minha mochila em uma cadeira e me aproximei da mesa. — O que temos para jantar? — Arroz, feijão e frango. Sorri. — Parece perfeito. Lucas fechou o caderno com força. — Eu odeio matemática. — O professor passou muito exercício? — perguntei. — Muito. Sentei-me ao lado dele e puxei o caderno para mais perto. — Deixa-me ver. Ele fez uma careta dramática. — Vais dizer que é fácil. Olhei para os números e equações no papel. Não era exatamente simples, mas também não era impossível. — Não é tão difícil assim — respondi. — Eu disse. Peguei um lápis e comecei a explicar. — Olha, aqui tens que fazer primeiro esta parte. Lucas observava com atenção enquanto eu resolvia o primeiro exemplo. Depois empurrei o caderno de volta para ele. — Agora tenta este. Ele demorou alguns segundos, mas começou a escrever. Minha mãe colocou os pratos sobre a mesa. — Primeiro jantar, depois matemática. — Só mais um exercício — disse Lucas rapidamente. Minha mãe suspirou. — Está bem. Enquanto Lucas terminava o exercício, levantei-me para ajudar a colocar os pratos. Jantamos conversando sobre coisas simples. A escola de Lucas. O trabalho da minha mãe. Minha rotina na universidade. Nada extraordinário. Mas eram momentos como aquele que faziam a casa parecer completa. Depois do jantar, lavei os pratos enquanto Lucas terminava o dever de casa. Quando finalmente subi para o meu quarto, já eram quase dez horas da noite. Suspirei ao ver minha mesa cheia de livros e cadernos. Arquitetura nunca deixava muito espaço para descanso. Sentei-me na cadeira e abri o caderno do projeto que estávamos desenvolvendo na aula. O desenho do pequeno bairro planejado ainda precisava de alguns ajustes. Peguei o lápis e comecei a trabalhar. Linhas. Curvas. Pequenos detalhes que pareciam insignificantes, mas que faziam toda a diferença no resultado final. Enquanto desenhava, pensei na professora Helena analisando meu projeto naquela tarde. “Interessante.” A palavra ainda ecoava na minha mente. Para qualquer outra pessoa, talvez não significasse muito. Mas para ela… Era quase um elogio. Sorri levemente e continuei desenhando. O silêncio do quarto era confortável. De vez em quando, eu podia ouvir o vento lá fora ou algum carro passando na rua. Mas, fora isso, tudo estava tranquilo. Depois de quase uma hora trabalhando, finalmente deixei o lápis sobre a mesa e me estiquei na cadeira. Minhas mãos estavam um pouco cansadas. Levantei-me e fui até a janela. A rua estava quase vazia. Alguns postes iluminavam o asfalto ainda úmido da chuva. Fiquei ali observando por alguns segundos, deixando minha mente descansar. Às vezes eu me perguntava como seria minha vida alguns anos no futuro. Se conseguiria realmente me formar. Se encontraria um bom emprego. Se conseguiria ajudar minha mãe como sempre imaginei. Arquitetura não era um caminho fácil. Mas era o que eu queria. E, apesar de todas as dificuldades, eu nunca tinha duvidado disso. Voltei para a mesa e organizei meus materiais. Quando finalmente me deitei na cama, o cansaço chegou quase imediatamente. Fechei os olhos. E, pela primeira vez naquele dia, minha mente ficou completamente em silêncio. --- O despertador tocou cedo demais na manhã seguinte. Abri os olhos lentamente e olhei para o relógio. Seis horas. Suspirei e me sentei na cama. Meu corpo ainda estava cansado da rotina do dia anterior, mas não havia muito o que fazer. Levantei-me e comecei a me arrumar. Quando cheguei à cozinha, minha mãe já estava preparando café. — Bom dia — disse ela. — Bom dia. Lucas apareceu logo depois, ainda meio adormecido. — Por que a escola começa tão cedo? — murmurou ele. — Porque o mundo é c***l — respondi. Minha mãe riu. Tomamos café juntos rapidamente. Pouco depois, peguei minha mochila e saí de casa. O céu estava claro daquela vez. A chuva do dia anterior havia desaparecido completamente, deixando apenas o ar fresco da manhã. No ponto de ônibus, havia menos pessoas do que no dia anterior. O veículo chegou rapidamente, e a viagem até a cafeteria foi tranquila. Quando entrei, Marta já estava organizando algumas mesas. — Bom dia — disse ela. — Bom dia. Coloquei o avental e prendi o cabelo. — Movimento hoje? — Ainda não. A manhã começou calma. Alguns clientes habituais apareceram para pegar café antes do trabalho. Nada fora do normal. Por volta das nove da manhã, o movimento aumentou um pouco. Eu estava levando duas xícaras para uma mesa quando ouvi o sino da porta tocar. Não olhei imediatamente. Mas, por algum motivo, tive a sensação de que já sabia quem era. Quando finalmente levantei os olhos, confirmei. O mesmo homem. O mesmo cliente de sempre. Ele entrou com a mesma calma dos dias anteriores, vestindo outro terno elegante. Seu olhar percorreu rapidamente o interior da cafeteria antes de encontrar uma mesa livre perto da janela. Mesa três. De novo. Era quase engraçado. Peguei meu bloco de anotações e caminhei até lá. — Bom dia — disse eu. Ele levantou os olhos. — Bom dia. Inclinei a cabeça levemente. — O de sempre? Dessa vez ele sorriu um pouco mais claramente. — Parece que já conheces meu pedido. — Facilita o trabalho. Ele assentiu. — Então sim. O de sempre. Anotei e me virei para voltar ao balcão. Mas antes que eu desse dois passos, ele falou novamente. — Como foi a prova? Parei por um instante. Virei-me para ele. — A prova? — A de arquitetura. Demorei um segundo para entender. Então lembrei. Eu tinha mencionado isso no dia anterior. — Ainda não saiu o resultado. — Entendo. Observei-o por um momento. — Tens boa memória. Ele deu de ombros. — Apenas presto atenção. Não soube exatamente o que responder a isso. Então apenas disse: — Já trago o café. Voltei para o balcão. Marta estava me observando com um pequeno sorriso. — Ele voltou. — Eu percebi. — E parece gostar de conversar contigo. — Ele só perguntou sobre a prova. — Claro. Ignorei o comentário e preparei a bandeja com o café. Quando voltei à mesa, ele estava olhando pela janela. Coloquei a xícara diante dele. — Aqui está. — Obrigado. Ele segurou a xícara e tomou um pequeno gole. Depois perguntou: — Hoje tens aula também? Cruzei os braços levemente. — Tens muitas perguntas. Ele sorriu. — Curiosidade. Pensei por um momento. Depois respondi: — Tenho aula à tarde. — Arquitetura novamente? — Sim. Ele assentiu lentamente, como se estivesse processando a informação. — Parece um curso exigente. — É. — Mas gostas. Não era uma pergunta. Era uma observação. E, curiosamente, ele estava certo. — Gosto — admiti. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Depois uma cliente chamou meu nome novamente. — Preciso trabalhar — disse eu. — Claro. Afastei-me da mesa e voltei para o balcão. Mas enquanto continuava servindo cafés e anotando pedidos, percebi algo curioso. Pela primeira vez desde que aquele homem começou a aparecer na cafeteria, eu estava realmente curiosa sobre ele também.
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