Lia
O barulho da chuva me acordou antes mesmo do despertador tocar.
Durante alguns segundos fiquei deitada olhando para o teto do meu quarto, tentando entender de onde vinha aquele som constante e pesado.
Então percebi.
Chuva.
Muita chuva.
Virei a cabeça em direção à janela. A cortina fina deixava passar a luz cinzenta da manhã, e o som das gotas batendo no telhado parecia ainda mais alto dentro do silêncio da casa.
Suspirei.
Dias de chuva tornavam tudo um pouco mais complicado.
Principalmente quando dependíamos de ônibus.
Estiquei o braço e desliguei o despertador antes que ele tocasse. Ainda eram seis da manhã.
Sentei-me na cama e passei as mãos pelo rosto, tentando acordar de verdade.
Meu quarto era pequeno, mas organizado. A cama encostada na parede, a escrivaninha com alguns livros de arquitetura empilhados e o pequeno armário onde eu guardava minhas roupas.
Nada luxuoso.
Mas era meu espaço.
Levantei-me e caminhei até a janela.
A rua estava molhada e quase vazia. Algumas pessoas caminhavam apressadas com guarda-chuvas, tentando se proteger da chuva que parecia não dar sinais de diminuir.
— Ótimo — murmurei.
Dias de chuva sempre significavam duas coisas: trânsito pior e clientes de mau humor na cafeteria.
Troquei de roupa rapidamente e prendi o cabelo em um r**o de cavalo antes de sair do quarto.
A cozinha já estava iluminada.
Minha mãe estava de pé perto do fogão, preparando café.
— Bom dia — disse ela quando me viu entrar.
— Bom dia.
Peguei uma xícara e me sentei à mesa.
— Está chovendo muito.
— Eu ouvi.
Ela colocou um pedaço de pão diante de mim.
— Vais precisar sair mais cedo hoje.
— Eu sei.
Lucas apareceu na cozinha alguns minutos depois, arrastando os pés como se cada passo fosse um enorme esforço.
— Está frio — reclamou ele.
— Está chovendo — corrigi.
Ele se sentou e pegou um pedaço de pão.
— Posso faltar à escola?
— Não — respondemos eu e minha mãe ao mesmo tempo.
Lucas fez uma careta.
— Vocês nunca deixam.
Minha mãe riu.
— Porque sabemos que vais sobreviver.
Terminei meu café e olhei para o relógio.
— Preciso ir.
Peguei minha mochila e o guarda-chuva antes de sair.
A chuva estava ainda mais forte do que eu imaginava.
Abri o guarda-chuva e comecei a caminhar rapidamente pela rua molhada. Pequenas poças de água se formavam perto das calçadas, e os carros que passavam levantavam respingos para todos os lados.
Quando cheguei ao ponto de ônibus, já havia várias pessoas esperando.
Algumas estavam completamente encolhidas tentando se proteger da chuva.
Outras pareciam simplesmente resignadas.
O ônibus demorou mais do que o normal para chegar.
Quando finalmente apareceu na esquina, já estava quase cheio.
Subi mesmo assim.
O interior estava abafado e úmido, com o cheiro típico de roupas molhadas.
Segurei-me em uma das barras de metal enquanto o veículo começava a se mover novamente.
A viagem até a cafeteria levou quase o dobro do tempo habitual.
Quando desci, a chuva ainda não tinha diminuído.
Corri até a porta da cafeteria e entrei rapidamente.
O pequeno sino acima da porta tocou.
— Finalmente! — disse Marta quando me viu.
Sacudi algumas gotas de água do guarda-chuva.
— O trânsito está h******l.
— Eu imagino.
Pendurei o guarda-chuva perto da porta e coloquei o avental.
— Movimento?
— Vai começar.
Como se estivesse esperando aquele comentário, a porta se abriu novamente naquele exato momento.
Três clientes entraram ao mesmo tempo, reclamando da chuva.
— Bom dia — disse eu automaticamente.
Comecei a anotar pedidos enquanto Marta preparava os cafés.
As manhãs chuvosas sempre tinham uma energia diferente.
As pessoas pareciam mais impacientes.
Mais apressadas.
Mais cansadas.
Talvez porque a chuva tornasse tudo mais difícil.
A fila no balcão começou a crescer rapidamente.
Passei os próximos vinte minutos caminhando entre as mesas com bandejas cheias de xícaras fumegantes.
— Cuidado — disse Marta quando quase esbarrei em um cliente.
— Eu estou vendo.
Coloquei dois cappuccinos na mesa quatro e voltei para o balcão.
Foi então que a porta se abriu novamente.
O sino tocou.
Levantei os olhos por instinto.
E o reconheci imediatamente.
O mesmo homem.
O mesmo cliente dos últimos dias.
Ele entrou segurando um guarda-chuva escuro e parecia completamente seco, como se a chuva não tivesse afetado sua manhã em nada.
O terno escuro estava impecável como sempre.
Ele fechou o guarda-chuva e olhou rapidamente ao redor da cafeteria.
Quando seus olhos passaram por mim, fez um pequeno aceno de cabeça.
Quase como um cumprimento silencioso.
Então caminhou até a mesa perto da janela.
Mesa três.
De novo.
Observei aquilo por um segundo.
Não era exatamente estranho.
Alguns clientes tinham mesas favoritas.
Mesmo assim, havia algo curioso naquela repetição.
Peguei meu bloco de anotações e caminhei até lá.
— Bom dia — falei.
Ele levantou os olhos.
— Bom dia.
Inclinei levemente a cabeça.
— O de sempre?
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
— Sim.
Anotei.
— Já trago.
Voltei para o balcão.
— Teu cliente voltou — comentou Marta.
— Ele não é meu cliente.
— Claro que não.
Peguei a xícara de café e levei até a mesa.
Coloquei-a diante dele.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ele segurou a xícara, mas antes de beber olhou rapidamente para a janela.
A chuva escorria pelo vidro em longas linhas transparentes.
— Parece que a chuva não vai parar tão cedo — comentou ele.
Olhei também para a janela.
— Não hoje.
Ele tomou um gole do café.
— Ainda bem que encontrei um lugar para parar.
Dei de ombros.
— Café ajuda.
Ele assentiu.
Durante alguns segundos ficamos em silêncio.
Depois ele perguntou:
— A universidade fica longe daqui?
Pisquei, um pouco surpresa com a pergunta.
— Mais ou menos.
— Você estuda lá?
— Sim.
— O quê?
— Arquitetura.
Ele pareceu considerar aquela resposta por um momento.
— Interessante.
— É difícil — respondi.
Ele sorriu levemente.
— Imagino.
Uma cliente chamou meu nome do outro lado da cafeteria.
— Preciso ir — disse eu.
— Claro.
Voltei ao trabalho.
Mas enquanto continuava servindo mesas e anotando pedidos, percebi algo curioso.
De vez em quando, quando passava perto da janela, notava que ele ainda estava lá.
Tomando café lentamente.
Observando a chuva cair.
Sem pressa alguma de ir embora.
E por algum motivo, aquela calma parecia completamente diferente da pressa de todo o resto do mundo naquela manhã.