Capítulo 2

1003 Words
Trabalhar numa cafeteria parecia algo simples para quem via de fora, mas não era, principalmente nas manhãs. Aquele era o horário em que a cidade inteira parecia decidir que precisava de café ao mesmo tempo. A porta abria e fechava constantemente, pessoas entravam apressadas, outras pediam tudo para levar, e algumas poucas se sentavam para começar o dia com calma. Eu já estava ali há quase quarenta minutos e a fila ainda não tinha diminuído. — Dois cappuccinos! — gritou Marta da máquina de café. — Já vai! — respondi. Peguei duas xícaras da bandeja e caminhei entre as mesas tentando equilibrar tudo sem derramar nada. Mesa cinco. Entreguei os pedidos e voltei para o balcão. Era sempre assim: caminhar, anotar, servir, limpar, repetir. E apesar do cansaço, eu gostava daquele lugar. Talvez porque, de certa forma, a cafeteria me lembrasse que existia um mundo maior lá fora. Pessoas diferentes passavam por ali todos os dias. Histórias que eu nunca conheceria completamente. Algumas duravam cinco minutos. Outras, algumas horas. Mas nenhuma permanecia. Ou pelo menos era o que eu pensava. Foi quando a porta de vidro se abriu novamente. O pequeno sino preso acima dela tocou com aquele som familiar. Olhei por instinto. E o reconheci imediatamente. Era o mesmo homem do dia anterior. O terno escuro ainda impecável, como se tivesse acabado de sair de uma reunião importante. O cabelo castanho escuro estava levemente desalinhado, mas de um jeito que parecia proposital. Ele entrou com passos tranquilos, olhando rapidamente ao redor antes de escolher uma mesa perto da janela. A mesma mesa. Mesa três. Franzi levemente a testa. Não era incomum clientes voltarem. Mas algo na forma como ele se movia fazia parecer que aquele lugar não combinava muito com ele. Peguei meu bloco de anotações. — Lia, mesa três — disse Marta atrás do balcão. — Já estou indo. Caminhei até lá. Ele estava olhando pela janela, observando o movimento da rua como se estivesse esperando alguém ou apenas passando o tempo. Quando percebeu minha presença, voltou o olhar para mim. — Bom dia — falei. — Bom dia. A voz dele era exatamente como eu lembrava: calma e baixa. Abri meu bloco. — O que vai querer hoje? Ele não demorou a responder. — Um café. Levantei uma sobrancelha sem perceber. — Igual ontem? Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele. — Sim. Anotei. — Já trago. Voltei para o balcão. Enquanto a máquina de café trabalhava, Marta se aproximou de mim. — Cliente novo? — Veio ontem também. Ela olhou discretamente na direção da mesa. — Parece importante. — Parece alguém que precisa de café — respondi. Ela riu baixo. Peguei a xícara e levei até a mesa. Coloquei-a cuidadosamente diante dele. — Aqui está. — Obrigado. Ele pegou a xícara, mas antes de beber pareceu hesitar por um momento. — O movimento aqui é sempre assim? Olhei rapidamente ao redor. — Nas manhãs, sim. — Deve ser cansativo. Dei de ombros. — Já estou acostumada. Ele assentiu lentamente, como se estivesse considerando aquela resposta. Durante alguns segundos ficamos em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Apenas… neutro. Ele tomou um gole do café. Depois colocou a xícara de volta na mesa. — É bom. — Fico feliz que goste. Anotei mentalmente que ele falava pouco. Talvez fosse apenas uma pessoa reservada. Ou talvez estivesse apenas esperando alguém. — Precisa de mais alguma coisa? — perguntei. Ele balançou a cabeça. — Não. Assenti e voltei para o balcão. A manhã continuou corrida. Pedidos iam e vinham, mesas eram ocupadas e desocupadas constantemente. Em determinado momento eu quase derrubei uma bandeja cheia de xícaras quando um cliente decidiu levantar exatamente no momento errado. Mas consegui recuperar o equilíbrio. — Um dia ainda vais derrubar tudo — disse Marta. — Hoje não — respondi. Quando finalmente tive alguns segundos de descanso, olhei discretamente para a mesa três. Ele ainda estava lá. A xícara agora vazia. Mas ele não parecia com pressa de sair. Estava olhando o celular, digitando algo ocasionalmente. — Ainda aqui? — perguntou Marta ao perceber para onde eu estava olhando. — Acho que sim. — Talvez esteja esperando alguém. — Talvez. Alguns minutos depois ele se levantou e caminhou até o balcão para pagar. Eu estava organizando algumas xícaras quando ele parou diante de mim. — Quanto deu? Fiz o cálculo rapidamente. — Trinta e cinco. Ele tirou a carteira do bolso e colocou o dinheiro no balcão. Quando estendi a mão para pegar, percebi novamente o relógio caro no pulso dele. Não era algo comum de ver naquele bairro. Peguei o dinheiro e entreguei o troco. — Obrigada. Ele pegou as moedas, mas antes de se virar perguntou: — Você trabalha aqui todos os dias? A pergunta me pegou um pouco de surpresa. — Quase todos. Ele assentiu. — Entendo. Por um segundo pensei que ele fosse dizer algo mais, mas não disse. Guardou o troco, virou-se e caminhou até a porta. O sino tocou novamente quando ele saiu. Observei pela janela enquanto ele atravessava a rua. Um carro preto elegante estava estacionado do outro lado. Ele entrou e o veículo partiu. Voltei para dentro. — Então? — perguntou Marta. — Então o quê? — Cliente misterioso. Revirei os olhos. — É apenas um cliente. Ela sorriu de lado. — Se tu dizes. Balancei a cabeça e voltei ao trabalho. A manhã seguiu como sempre. Mas em algum lugar da minha cabeça ficou a pequena curiosidade de saber por que alguém como ele escolhia aquela cafeteria simples para tomar café. Talvez fosse apenas perto do trabalho dele, talvez fosse coincidência ou talvez não significasse absolutamente nada. E, honestamente, naquele momento eu tinha coisas muito mais importantes com que me preocupar. Como a prova de arquitetura que me esperava naquela tarde, que espero me sair muito bem. E a pilha de contas que minha mãe tinha deixado sobre a mesa na noite anterior. A vida não parava para pequenos mistérios. Ela simplesmente continuava. E eu também.
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