Lia
Se existe uma coisa capaz de acabar com qualquer resto de energia que uma pessoa tenha, é uma prova difícil.
Principalmente quando essa prova é de arquitetura.
Saí da sala da universidade com a sensação estranha de que meu cérebro tinha sido espremido durante duas horas seguidas.
Alguns estudantes ainda estavam dentro da sala terminando os últimos detalhes, enquanto outros saíam discutindo respostas com aquela ansiedade típica de quem tenta descobrir se foi bem ou não.
Eu preferia não fazer isso.
Na maioria das vezes, só servia para aumentar o nervosismo.
Encostei-me na parede do corredor por um momento e respirei fundo.
A faculdade de arquitetura ocupava um dos prédios mais antigos da universidade. As paredes altas, as janelas largas e os corredores compridos davam ao lugar uma atmosfera que eu sempre achei inspiradora.
Talvez fosse exatamente por isso que eu tinha escolhido aquele curso.
Arquitetura não era apenas desenhar prédios.
Era imaginar espaços.
Pensar em como as pessoas viveriam dentro deles.
Como se moveriam, como se sentiriam.
Pelo menos era assim que eu gostava de pensar.
— Lia!
Levantei a cabeça.
Rafael vinha caminhando pelo corredor na minha direção com a mochila jogada sobre um dos ombros.
Ele parecia exatamente como sempre: cabelos castanhos um pouco bagunçados, expressão relaxada e aquela energia tranquila de alguém que raramente parecia realmente preocupado com alguma coisa.
— E então? — perguntou ele quando parou ao meu lado. — Sobreviveste?
Soltei uma pequena risada.
— Acho que sim.
— Aquela última questão…
— Não fales dela.
Ele levantou as mãos em sinal de rendição.
— Certo, certo.
Rafael estudava engenharia, mas nós tínhamos algumas disciplinas em comum, e foi assim que acabamos nos tornando amigos no primeiro semestre.
Ele era uma das poucas pessoas na universidade que sabia exatamente como era a minha rotina fora dali.
— Tu pareces cansada — comentou ele, observando meu rosto.
— Trabalhei de manhã.
— De novo?
— Eu trabalho quase todas as manhãs.
— Eu sei.
Começamos a caminhar pelo corredor em direção à saída do prédio.
Do lado de fora, o campus da universidade estava cheio de estudantes. Alguns sentados na grama, outros conversando perto das árvores ou caminhando apressados de uma aula para outra.
Era um lugar cheio de vida.
Barulho de conversas.
Risos.
Música saindo de algum lugar distante.
Durante alguns segundos fiquei apenas observando tudo aquilo.
Sempre que estava ali, tinha a sensação estranha de que aquele lugar era uma espécie de pausa dentro da minha vida corrida.
Um espaço onde eu podia simplesmente ser estudante.
— Vais trabalhar mais tarde também? — perguntou Rafael.
Balancei a cabeça.
— Não hoje.
— Então finalmente vais descansar?
Soltei um suspiro.
— Mais ou menos.
Ele franziu a testa.
— O que isso significa?
— Significa que ainda tenho dois trabalhos para terminar até sexta.
— Claro que tens.
Saímos do prédio e começamos a atravessar o campus.
O sol da tarde estava forte, iluminando os caminhos de pedra e os jardins bem cuidados da universidade.
Por um momento pensei em como aquele lugar era diferente do bairro onde eu morava.
Aqui tudo parecia organizado.
Planejado.
Talvez fosse por isso que eu gostava tanto de arquitetura.
Porque, de certa forma, era uma maneira de transformar lugares comuns em algo melhor.
— Vais para casa agora? — perguntou Rafael.
— Daqui a pouco.
— Eu tenho aula daqui a vinte minutos.
Paramos perto de um banco.
Ele olhou para mim com uma expressão pensativa.
— Sabes… às vezes eu não entendo como consegues fazer tudo isso.
— Fazer o quê?
— Trabalhar, estudar, cuidar da tua família…
Dei de ombros.
— Não tenho muita escolha.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Mesmo assim.
Antes que eu pudesse responder, o celular no meu bolso vibrou.
Peguei-o.
Era uma mensagem da minha mãe.
“Compra pão quando voltares.”
Sorri.
Simples.
Direta.
— Minha mãe — expliquei.
— Emergência doméstica?
— Algo assim.
Rafael riu.
— Então vai salvar o dia.
Guardei o celular.
— Nos vemos amanhã.
— Até amanhã.
Deixei o campus alguns minutos depois.
O caminho até o ponto de ônibus ficava a cerca de dez minutos de caminhada.
Enquanto andava pelas ruas movimentadas perto da universidade, minha mente voltou para a prova.
Eu repassei mentalmente algumas das respostas.
O desenho técnico.
A análise estrutural.
A última questão teórica.
Talvez eu tivesse ido bem.
Ou talvez não.
Arquitetura era um daqueles cursos onde raramente se tinha certeza absoluta de alguma coisa.
Quando cheguei ao ponto de ônibus, já havia algumas pessoas esperando.
Um homem lendo jornal.
Uma mulher com uma criança pequena.
Dois estudantes conversando animadamente.
Sentei-me no banco e tirei a mochila dos ombros.
O cansaço começou a aparecer naquele momento.
Não era apenas físico.
Era aquele tipo de cansaço acumulado que vinha de dias e dias seguindo a mesma rotina intensa.
Mas, mesmo assim, havia algo dentro de mim que não me deixava desistir.
Talvez fosse teimosia.
Talvez esperança.
Ou talvez apenas o fato de que eu sempre soube que precisava continuar tentando.
O ônibus chegou alguns minutos depois.
Subi, paguei a passagem e encontrei um lugar perto da janela.
Enquanto o veículo começava a se mover pelas ruas da cidade, encostei a cabeça no vidro.
As paisagens urbanas passavam lentamente diante dos meus olhos.
Prédios.
Lojas.
Carros.
Pessoas caminhando apressadas.
A cidade parecia sempre em movimento.
Desci algumas paradas depois, perto da padaria.
Entrei e comprei o pão que minha mãe havia pedido.
O cheiro de pão quente sempre me fazia sentir um pouco melhor.
Talvez porque me lembrasse de casa.
Quando finalmente cheguei ao meu bairro, o sol já começava a baixar no céu.
As ruas eram mais simples ali.
Casas pequenas.
Muros baixos.
Crianças brincando na calçada.
Algumas pessoas sentadas nas portas conversando.
Cumprimentei uma vizinha enquanto caminhava até a nossa casa.
Empurrei o portão e entrei.
Minha mãe estava na sala, trabalhando na máquina de costura.
O som rítmico do motor preenchia o ambiente.
Lucas estava sentado no chão com os livros da escola espalhados ao redor.
— Cheguei — anunciei.
Minha mãe levantou os olhos e sorriu.
— Como foi a prova?
Coloquei o saco de pão sobre a mesa.
— Difícil.
— Mas tu conseguiste?
Dei de ombros.
— Acho que sim.
Lucas olhou para mim.
— Arquitetura é desenhar casas, não é?
— Entre outras coisas.
Ele franziu a testa.
— Quando fores arquiteta vais construir uma casa grande para nós?
Sorri.
— Talvez.
Minha mãe desligou a máquina de costura.
— Não precisas de uma casa grande — disse ela. — Só precisamos de uma casa boa.
As palavras dela ficaram na minha cabeça por alguns segundos.
Uma casa boa.
Talvez fosse exatamente isso que eu queria aprender a criar.
Espaços onde as pessoas pudessem viver melhor.
Sentei-me na cadeira e tirei os cadernos da mochila.
Ainda havia muito para estudar.
Mas naquele momento, pela primeira vez naquele dia, senti uma pequena sensação de tranquilidade.
A rotina continuava.
E, passo a passo, eu também continuava seguindo em frente.